Do Atlântico ao Pacífico de bicicleta

No dia 28 de novembro de 1998, junto com os amigos Rodrigo Guedes e George Ferreira, eu saía pedalando em uma aventura rumo à região litorânea do Chile, do outro lado do continente sul-americano. Percorremos 3.000 quilômetros naquelas quatro semanas maravilhosas, conhecendo pessoas e lugares com a ajuda das nossas bicicletas. Desde então, almejo fazer uma aventura similar, mas os compromissos nunca me permitiram. O antigo site da aventura (um dos primeiros sites que fiz, por isso mesmo antiquado, assim como o texto) continua no ar, pra quem quiser conferir. Dez anos passam rápido, mas aqueles dias continuam tão claros em minha memória como se fosse ontem.

A catástrofe e o turismo


Charge de Frank Maia, via Xinelão Studio.

Enquanto a chuva castigava nosso estado, nosso excelentíssimo governador, fantasiado de colete de resgate, mas tomando o cuidado para não se molhar, parecia mais preocupado com o impacto para o turismo do que com a vida dos milhares de afetados nas enchentes do estado. Então, na quarta-feira, em notícia do UOL, li uma frase do LHS, que foi a gota d’água, como se já não tivesse água o suficiente nas cidades inundadas. A toupeira simplesmente falou que “O Brasil está solidário com Santa Catarina e vamos reconstruir o que for necessário para receber os turistas na temporada de verão”. Li novamente aquele absurdo, com todo o cuidado, pois parecia irreal, mas infelizmente não era. No mesmo instante fui colar a dita cuja lá no meu Twitter e encontrei uma legião de indignados com a falta de respeito de LHS. Como falou um comentador no blog do César Valente, “LHS tem preocupação maior em atender a demanda de meia-dúzia de empresários, por isso a insistência no assunto. É só fazer uma retrospectiva dos atos dele (recentes ou não). A grande maioria é voltada invariavelmente para essa ‘meia-dúzia’”.

Mas, o momento agora não é falar dos nossos desgovernantes, mas sim ajudar quem está precisando. Podemos ajudar de várias maneiras: com doações em dinheiro, roupas, alimentos e até mesmo sangue. Existem vários postos de coletas de donativos em supermercados, postos de saúde,centros comunitários e até postos de gasolina. Além disso, você pode acompanhar vários blogs que estão divulgando informações sobre as enchentes e os desabrigados, como o Diarinho da Chuva; o Coluna Extra, do Alexandre Gonçalvez e o já citado De Olho na Capital, do César Valente.

Quanto às doações de sangue, uma amiga, Ana Carolina, enviou a seguinte mensagem:

Conversei com o pessoal do Hemosc daqui de Floripa e eles me disseram que estão abastecendo os postos de sangue de Blumenau e Itajaí. Os hospitais das cidades atingidas pela chuva estão precisando de sangue para os feridos na tragédia. Portanto, mais do que nunca, é importantíssimo doarmos…

Mas, fique atento, como sempre acontece, tem mau-caráter se aproveitando da desgraça dos outros. Alguns criminosos já estão enviando e-mails com falsas solicitações de ajuda e doações. Quando clicamos nos links relacionados nestas falsas mensagens, o computador é infectado por um vírus que rouba informações sigilosas. Veja como é uma dessas mensagens falsas nesse link do De Olho na Capital.

E pra quem ainda não está convencido do tamanho da catástrofe, tem vários canais na internet publicando vídeos e fotos dos locais inundados, como o Sambaqui na rede, do Celso Martins da Silveira Júnior. Também no UOL, logo na capa, não faltam notícias e imagens sobre a catástrofe.

O Avaí está na primeira divisão

campeonato de sadoku em singapura

Fiquei sabendo que no último dia 15 de novembro ocorreu em Singapura uma competição mundial de sudoku, um jogo onde o objetivo é a colocação de números de 1 a 9 em cada uma das células vazias numa grade de 9×9, constituída por 3×3 subgrades. Parece um jogo metódico, mas instigante e talvez um dia acabe entrando nas olimpíadas, assim como o xadrez está presente nos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC). Algumas pessoas jogam ou apreciam sadoku, outras, xadrez e muitas outras, futebol. Dos três jogos, o único que entendo é o xadrez. As regras do sadoku são tão estranhas para mim como são as do futebol.

Semana passada, enquanto aproveitava uma trégua da chuva para caminhar, passei por um simpático boteco, que sempre tenho vontade de entrar, mas nunca tenho sede no momento em que passo por ele e por isso vou prorrogando a visita. Chama-se Bar do Pierre e fica aqui em Campinas, São José. Muitas vezes o bar transborda, passa para o lado de fora de suas paredes e invade as calçadas de esquina com cadeiras e mesinhas plásticas. Nesse dia ele estava assim, lotado, com vários dos seus freqüentadores usando a camisa de um time de futebol, que passei a conhecer melhor nos últimos dias, por incapacidade de desligar meus canais auditivos em lugares públicos.

Há alguns anos passei uma semana no Rio de Janeiro, em um albergue localizado bem no centrão. Foi uma semana antes do carnaval e voltei para Florianópolis antes da grande festa começar. Na ocasião, o albergue estava lotado e eu era um dos poucos brasileiros. Havia chilenos, argentinos, alemães, estadunidenses, dinamarqueses, australianos… Uma noite fizemos uma festinha no albergue e fui eleito, como representante legítimo da terra, para fazer a caipirinha. Então, o Ashbery, um amigo australiano que fiz na ocasião, perguntou-me porque eu não iria ficar para o carnaval. Respondi que não gostava da festa e por isso voltaria para casa antes dos desfiles. Ele ficou um pouco admirado com a minha resposta e dali a pouco estava me perguntando sobre futebol. Falei que também não apreciava nem acompanhava este esporte. Naquele momento ele me perguntou, surpreso: “but… aren’t you Brazilian?”

Sim, os estereótipos existem, não há como fugir deles. Recriminam quem usa em excesso os estereótipos, mas eles estão aí. Como pode um brasileiro não gostar de carnaval ou futebol, pensou meu amigo australiano. Naquele momento eu fazia, com orgulho, o papel de destruidor de estereótipos. Penso que cada um pode gostar do que quiser. Meu esporte preferido tem a ver com bicicletas, não com bolas. Se o Ashbery me perguntasse a respeito de campeonatos mundiais de mountain bike e downhill, eu poderia responder com autoridade. Falaria sobre os campeões brasileiros e catarinenses e sobre as novas tecnologias das magrelas, que estão a cada dia mais sofisticadas, rápidas e seguras. Mas, sou brasileiro, então as palavras chaves que ecoavam na cabeça do Ashbery eram “carnaval” e “futebol”. Talvez, também “Amazônia” e “caipirinha” e pelo menos esta última eu conheço e sei fazer, portanto escapo do perigo de ser deportado.

No dia 11 deste mês, lá pelas 17h, precisei ir à UFSC. Saí do Kobrasol, onde moro, e peguei a Via Expressa que, durante horários específicos do dia, não é tão expressa assim. Então, comecei a ver vários carros carregando bandeiras de um time de futebol, buzinando e fazendo festa. Não entendi exatamente o que significava tudo aquilo e achei que o time das bandeiras já era campeão de alguma coisa. Depois de passar a ponte e chegar ao outro lado do túnel de Florianópolis, avistei lá na frente, mais ou menos na altura do Armazém Vieira, um grande engarrafamento se formando. Concluí que ainda não havia um campeão e provavelmente a decisão aconteceria naquela noite, no estádio de futebol perto do aeroporto. Nesse momento eu já havia percebido que as bandeiras daquele time estavam espalhadas por toda parte. Fachadas de casas, camisetas dos pedestres, sacadas de apartamentos e tudo mais. Provavelmente, os torcedores deviam fazer aquele complexo ritual toda vez que havia jogo naquele estádio, foi o que pensei.

Fiz o que precisava na UFSC e voltei pra casa. Naquela mesma noite, não lembro exatamente o horário, comecei a ouvir uma grande festa na rua. Tem uma pizzaria aqui perto onde o pessoal reúne-se para assistir futebol em um telão e fazer festa dependendo do resultado. Mas naquela noite a festa era muito maior do que nas outras ocasiões e havia carreatas na avenida central do Kobrasol; gente buzinando e mesmo ouvindo uma música alta que exaltava Florianópolis. Lembro de algo tipo “minha ilhaaaaa,  formosaaa…”. Parecia final de copa do mundo.

Perguntei para a Leila se ela sabia o que estava acontecendo e ela falou que a música era o hino do Avaí, time de futebol de Florianópolis. Depois ela me disse que naquele dia o time finalmente havia passado para a primeira divisão, depois de 30 anos de jejum. Eu nem sabia que existia esse negócio de primeira e segunda divisão no futebol, mas ela me explicou como funcionava. Naquele instante, como em uma epifania, finalmente entendi todas aquelas ocasiões em minha vida quando ouvi as pessoas falando sobre esse assunto, dizendo que esse time estava na primeira e aquele estava na segunda divisão.

Mas, como eu falava lá no início, passei pelo Bar do Pierre na semana passada, lotado de freqüentadores que comemoravam o que eu finalmente sabia o que era — a passagem do Avaí para a primeira divisão. Eu estava na calçada do outro lado da rua e na minha frente, em sentido contrário, vinham pai e filho com a camisa do Avaí. Exaltados, quando os freqüentadores do Bar do Pierre avistaram aquela bela cena familiar, começaram a cantar o hino do time vencedor. O pai pegou o garoto, colocou-o nos ombros e começou a dançar, mostrando alegremente que pai e filho compartilhavam daquela alegria. Naquele momento me senti apenas um observador, um estrangeiro, e lembrei do Ashbery me perguntando se eu realmente era brasileiro.

Adeus às armas

O amolador de facas corre desesperadamente pelo calçadão da Conselheiro Mafra. Vira na esquina com a Deodoro, tropeça, cai, levanta, olha para trás preocupado, continua correndo e vira na Felipe Schmidt. Os pedestres não entendem o que está acontecendo, apenas olham, riem do amolador de facas ou fazem caretas enquanto o louco corre sem parar.

Alguns metros atrás do amolador de facas, derrubando tudo e todos no caminho, estão dois caçadores, desses que caçam animais selvagens na África. Com chapéu de pele de bicho morto na cabeça, espingarda de caça na mão e sorriso sádico decorando o rosto.

Os caçadores que perseguem o amolador de facas são colecionadores de cabeças e precisam completar suas coleções. Alguns dias atrás, eles estavam em um barzinho no Mercado Público, bebendo cerveja, comendo iscas de peixe e conversando sobre suas caçadas anteriores, até que um deles lembrou:

— Preciso da cabeça de um amolador de facas. Ficaria ótima em minha sala de estar.

O outro caçador respondeu, animado:

— Boa lembrança! Também preciso de uma. Vamos aos rifles!

A caçada prossegue, e na praça XV o amolador de facas é encurralado com um caçador de cada lado. Com os rifles apontados em sua direção, o amolador de facas pergunta desesperado:

— O que vocês querem de mim? Por que estão me perseguindo? Se foi alguma faca que não ficou bem amolada, posso refazer o serviço, garanto!

Um dos caçadores responde, ainda ofegante:

— Caçamos e colecionamos cabeças…

O outro caçador toma a palavra:

— Nossa coleção está quase completa, mas ainda precisamos da cabeça de um amolador de facas!

O amolador de facas olha amedrontado e pergunta aos caçadores, como última saída:

— E por acaso vocês já têm a cabeça de um caçador?

Os dois caçadores param por um instante, entreolham-se com os cantos dos olhos, vão se virando um para outro devagarzinho…

O amolador de facas abandona a cena tranquilamente, enquanto ouve o som dos tiros às suas costas.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 22/11/08. p.3)

Notas de um interrogatório

O policial recolhia o depoimento do assassino:

— Que dia ocorreu?

— Dia 8.

— De que mês?

— Março, eu acho…

— Como assim, “eu acho”?

— Março, março.

— Bom!

— Como aconteceu?

— Simplesmente aconteceu.

— Está querendo dificultar?

— Certo, por onde devo começar?

— Primeiro vamos estabelecer o horário.

— Tudo começou lá pelas 10h da noite.

— Foi premeditado?

— Não! Não, em hipótese alguma!

— Continue, por favor.

— Eu estava em meu quarto, quando a ouvi na cozinha, primeiro apenas um leve sussurro, depois um som mais forte que logo se tornou insuportável para mim!

— Então… foi premeditado!

— Bem… puxa vida! Foi!

— Por quanto tempo ouviu seu barulho?

— Por uns 15 minutos, talvez… Não conseguia dormir. Precisava fazer alguma coisa.

— Matou-a para dormir! Seu sono tem o preço de uma vida?

— Eu… Não sei o que dizer. Foi tudo muito rápido. Levantei-me e fui ao seu encalço. Peguei algo próximo da mão, algo com o peso suficiente para o que tinha em mente. Fui até a cozinha, de onde vinham seus ruídos. Ela fazia um lanche noturno como costumava fazer.

— Deus, matou-a enquanto ela se alimentava?!

— Pude vê-la, de costas, enquanto comia um pedaço de pão. Sem pensar duas vezes, levantei o braço e desferi uma forte pancada sobre sua cabeça. Apenas uma pancada foi o suficiente. Ainda pude vê-la, sua expressão de espanto e tristeza. Depois o silêncio. Voltei para a cama e dormi tranqüilo.

— Nem se deu ao trabalho de recolher o corpo! De qualquer forma ocultou o cadáver no dia seguinte, o que aumenta ainda mais sua pena. Nem o melhor advogado poderá lhe salvar. Bem, termine seu depoimento.

— No dia seguinte ela estava lá, na mesma posição da noite anterior. Quando a vi, primeiro senti um grande vazio. Minhas pernas começaram a tremer e precisei sentar, pois não conseguia suportar o peso do meu corpo. Olhei novamente para ela, ali estendida no chão, e senti um grande alívio.

— Acho que você nunca imaginou que encontraríamos o corpo.

— Não, nunca imaginei. Esse foi meu erro.

— Pobre barata, uma vida inteira pela frente e você a destruiu.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 15/11/08. p.3)

Aquilo que não me destrói fortalece-me

— Oi, Rubens, tudo bem contigo, querido?

— Infelizmente não, Lúcia! Minhas costas doem; minha barba está irritando meu rosto; estou com dor de barriga há alguns dias; sem dinheiro e sem trabalho. Tirando esses imprevistos, estou bem, ou pelo menos, vivo.

— Bem… Puxa… É assim mesmo, a vida é cheia de altos e baixos, também tenho os meus problemas.

— Sério?

— Claro! Por exemplo, estou com uma unha encravada neste momento, sei que não parece um grande problema, mas acredite: meu pé está doendo pra caramba, mas estou me esforçando para ignorar a dor.

— Melhor cuidar disso. Uma vez a minha tia Bilica estava com uma unha encravada. Era uma mulher forte e suportava a dor corajosamente, nunca deixando de usar seus belos sapatos por causa da unha. Mas a situação piorou, ela foi ao médico e ele disse que ela teria que arrancar a unha. Ela ignorou a opinião do médico e sua situação agravou-se. Resolveu então procurar outro especialista e obteve um diagnóstico ainda mais macabro: “A senhora terá que amputar o dedão do pé”! Depois de um mês tomando um coquetel de analgésicos para suportar a dor, nossa tia resolveu procurar por uma terceira opinião. Naquele mesmo dia, ela foi à nossa casa e relatou para a família sua última consulta: “Esse novo médico é o mais louco dos três. Disse que o problema deveria ter sido tratado antes e que a única solução no momento é amputar meu pé”. Falou isso e soltou uma gargalhada estridente enquanto nos deixava pensativos sobre sua sanidade. Seis semanas depois, tia Bilica morreu de gangrena. A autópsia constatou que os tecidos do pé estavam completamente necrosados e o problema havia se alastrado por toda a perna.

— Nossa, agora fiquei com medo Rubens, nunca imaginei que uma unha encravada pudesse dar tanto problema!

— Nem eu, até ver tia Bilica deitada no caixão com aquela perna podre.

— Bem, foi bom te encontrar depois de tanto tempo Rubens, espero que você consiga resolver todos os seus problemas. Se precisar de alguma coisa, não deixe de entrar em contato comigo, viu?

Lá se foi Lúcia, praticamente correndo de Rubens. E aquilo o fez refletir: será que ele tinha uma conversa tão chata assim?

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 08/11/08. p.3)

Biografia de Hupert Campolino

Hupert acordou sem lembranças. Corpo doendo após 48h deitado. Caminhou ao banheiro deixando um rastro de letras que se desprendiam do seu corpo. Quando olhou no espelho percebeu que faltava algo em seu rosto, mas não pôde dizer com certeza o que era, pois lhe faltava palavras para descrever.

Dois dias depois Hupert resumia-se a uma lembrança falha sobre ele mesmo. Inerte com fome sem ar. Ainda conseguia formar algumas cadeias de palavras que pouco a pouco transbordavam dos orifícios sem nome que restavam em seu corpo. Tornou-se uma descrição mal feita de uma pessoa e desvaneceu-se por completo em uma semana.

Ninguém nunca o conheceu e não há nenhuma prova de sua existência.

Sentido adâmico

A procura pelo sentido adâmico de uma palavra parece-me um jogo de duas turbinas que giram em sentido oposto em um quarto fechado, adaptadas em paredes opostas. Uma sala vazia sobrevoando o vácuo. Quando sentencio uma palavra a carregar uma acepção, estou condenando-a ao meu entendimento. Como último recurso, posso roer meus polegares ou torcer meu pescoço para trás. Assim, tenho uma pequena chance de não deslizar sobre interpretações primordiais e provavelmente não conseguirei um efeito similar em outra ocasião, mesmo sob condições similares.