Zona livre de Papai Noel

E para comemorar esta data comercial tão importante, segue um poeminha ruim que escrevi faz uma década e em seguida um ótimo cartaz de natal do Nicolas Gass.

Barulho na Telha!

Ouvi o ruído na telha
E chamei forte o meu marido
Ele correu, e atirou. Nem ouvi o alarido
Mas o desgraçado rapidinho se escondeu
Procuramos a noite toda
Em vão, não havia mais nada na telha, além de algum sangue
Dormi com um olho no barulho e o outro no compromisso do outro dia
Acordei mastigando nada na boca, parecia uma vaca
Fui para a cozinha e lá estava meu marido em pranto, precisava de uma maca!
— Lembra o barulho na telha?
Lembrava e não entedia, mas onde diabos estava nosso filho?
— Lembra do rastro de sangue?
— Deus, a chaminé!!
— Neste Natal não teremos lareira nem nosso filho…

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via: ng graphics.

Zona livre de Papai NoelLembrando também que estou aderindo à campanha da cidade alemã Fluorn-Winzeln e declarando este blog “Zona livre de Papai Noel”, como diz o selo ao lado. O problema é que os alemães têm o São Nicolau para substituir o Noel e nem isso nós temos por aqui.

Ainda no espírico crítico-natalino, confira mais cartazes de Nicolas Gass no playlife. E nos velhos tempos, Noel vendia cigarros e dava rifles de presente!

Trajetória profissional

Depois de preencher várias fichas de emprego, percebi que precisava fazer um curso para incrementar meu currículo, pois a disputa estava acirrada. A hibernação durante o trabalho estava em alta em algumas repartições comerciais, então resolvi me aprimorar na técnica para não ficar fora do mercado.

Cheguei atrasado no primeiro dia de aula e peguei a turma dormindo. O professor estava à frente, de óculos escuros, expressão séria e um fio de baba correndo da boca. Depois de um mês de curso, recebi o diploma. Formado em sonecas prolongadas, fui em busca de emprego e após uma triagem rigorosa, consegui finalmente uma posição como revisor estratégico de relatórios independentes.

Eu fazia a triagem de relatórios robustos, sem perder meu tempo examinando seus conteúdos. Um dia resolvi abrir uma das pastas. Uma daquelas revistas de coluna social, com atores de novela, caiu do meio da capa do relatório, que ficou vazio em minhas mãos. Não havia mais nada, apenas a capa, com o número do protocolo e seu autor. Fiquei irritado com o ocorrido e quando fui investigar os outros processos, descobri que todos eram assim, constituídos apenas da capa, e de um miolo inútil, de conteúdo variado. Fui até a direção revelar a farsa e antes de abrir a boca, o chefe falou:

— Senhor Vicente, vejo que o senhor é novo aqui e li em seu currículo que fez um curso de hibernação, mas, por uma falha na seleção, acabou parando neste setor da empresa, com pessoas formadas em enrolação. Não se preocupe, vou lhe mostrar como trabalhamos aqui.

E então ele ficou de pé, pegou uma capa de relatório, como aqueles que eu estava selecionando, e falou:

— O senhor pega uma dessas capas, coloca um conteúdo qualquer no meio, e quando alguém lhe pedir que leia, o senhor simplesmente improvisa, com o maior cuidado para não ser descoberto. Capriche na defesa das suas idéias!

Não acreditei naquilo, meu próprio chefe me ensinando e estimulando a fingir que eu trabalhava. Voltei para o meu posto completamente abatido. Então, pus em prática meus conhecimentos para mostrar que eu discordava daquilo: resolvi hibernar durante vinte anos! Aposentei-me e hoje olho com orgulho para minha trajetória profissional.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 20/12/08. p.3)

A Revelação

Aos quatro anos de idade, o garoto finalmente descobriu: as pessoas morriam, deixavam de funcionar, apodreciam e desintegravam, sobrando apenas a armação que dava sustentação ao amontoado de carne, nervos, cartilagens… Ele ficou triste, chorou, inconsolável no colo do pai. Mas também ficou intrigado com aquela revelação e começou a registrar o nome que os adultos davam àquela coisa horrível: ir para a cucuia, empacotar, estuporar-se, dar com o rabo na cerca, ir para o beleléu, vestir o paletó de madeira, virar presunto, bater a caçoleta, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, desencarnar, desviver, dizer adeus ao mundo, ir desta para uma melhor, ir para a cidade dos pés juntos, etecetera e tal.

A decepcionante revelação veio de uma de suas manias. Ele adorava brincar com insetos e toda sorte de pequenos animaizinhos. Ele tinha uma aranha de estimação, a Maricota, que guardava em um viveiro feito com os restos de um aquário desativado. Costumava colocá-la para brigar com outras que achava pelo quintal ou nos cantos escuros da garagem. Certa vez, em uma das brigas, a aranha adversária envolveu completamente Maricota com sua teia gosmenta e antes que ele pudesse fazer alguma coisa, a outra aranha começou a sugar os líquidos vitais de Maricota. Tentando remediar a situação, ele jogou longe a adversária com um peteleco e começou a tirar a teia que envolvia a pobre Maricota. Depois de soltá-la, viu que continuava encolhida, tremendo, enquanto o veneno de sua algoz espalhava-se por seu sistema circulatório. Não pôde fazer mais nada, nem respiração boca-a-boca funcionaria. Permaneceu impotente ao seu lado enquanto a vida se esvaía de sua pequena carcaça. Por semanas olhou o viveiro abandonado, lembrando dos bons momentos vividos com sua aranha de estimação.

Depois disso, logicamente, ele percebeu que as pessoas eram tão frágeis quanto a Maricota. “Bola pra frente”, o pai falou, usando mais uma dessas expressões que o garoto não entendia bem. “Filho, a vida continua, não dá pra parar”. Ele engoliu em seco, enxugou as lágrimas e seguiu o conselho do pai: viveu sua vida, envelheceu e fez de conta que aceitou as regras do jogo.

(escrito originalmente em 23/06/98 às 12h26 / publicada no Notícias do Dia em 13/12/08.)

Como viver junto

Durante o café, ela coloca o gravador em cima da mesa, aperta no record e ele pergunta:

— Pra que isso?

— Lembra que na segunda pela manhã você falou que iríamos ao cinema e à noite você falou que não havia prometido nada disso?

— Eu, não!

— Então, por isso que, a partir de hoje, antes de sairmos para o trabalho, vou gravar a nossa conversa, assim depois eu posso cobrar o que você fala e não cumpre.

— Mas isso é um absurdo, onde está a minha privacidade?

— Como assim? Só estamos nós dois aqui, só quero documentar o que você fala.

— E como é que eu vou saber que você não vai mostrar pra ninguém?

— Não se preocupe, vou utilizar apenas sete fitas, para gravar uma semana, depois volto a gravar todas por cima na semana seguinte. Não ficará nada arquivado.

— Sete fitas? Ficou louca, vai ficar gravando tudo o que a gente fala?

— Não precisa ficar histérico, já falei que vou guardar bem as fitas e não vou mostrar pra ninguém.

— Por outro lado, é bom que você grave mesmo, assim vamos ver as coisas que você fala e não cumpre.

— Como assim? Eu não sou como você, não, eu cumpro as minhas promessas.

— Essa é boa, tá parecendo político com amnésia. Lembra que você havia me prometido vestir aquela fantasia no sábado à noite e…

Ela rapidamente aperta o botão de stop do gravador e ele pergunta espantado:

— Mas o que é isso, por que parou a gravação?

— Que besteira que você estava falando, pra que é que eu vou gravar isso? E se alguém ouve a fita?

— Ah, muito bem, quer dizer que agora você está com medo que alguém ouça as nossas conversas, entendi. Agora eu já sei como sabotar o seu plano.

— Ah, assim não vale, assim você está apelando.

— Mas quem começou foi você, minha querida.

— Tá, tá bom, eu paro, mas isso foi jogo sujo seu!

No outro dia, durante o café:

— Querido, hoje à noite nós vamos ao cinema, não vamos?

— Vamos sim, prometo.

— Muito bem, então assine aqui.

— Como assim? Assinar o quê?

Ela lhe entrega uma ficha, com uma anotação contendo a data e o compromisso: “Quarta-feira, 19h — Ir ao cinema”.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 06/12/08. p.3)

Todo o tempo do mundo

A expressão “todo o tempo do mundo” pode ser uma armadilha, dependendo do ponto de vista. Um bom exemplo é aquela conta em aberto. Até o dia do vencimento, pode ser paga em qualquer banco e você acha que tem todo o tempo do mundo para resolver o assunto. Três da tarde do fatídico dia e você percebe que tem mais uma longa e infinita hora pra pagar a conta. Dá pra fazer muita coisa em uma hora, você pensa. Você pode ler um livro completo, assistir a um filme, escrever um romance, viver uma vida! Até que você decide — tarde demais — correr até o banco e dá com a cara na porta, enquanto o guarda, com expressão séria, recusa a sua entrada na agência. Você desiste, afinal é sexta-feira. Na segunda-feira, além de pagar multa por atraso e juros de três dias, você vai ter que ir à procura daquele banco que está no boleto, do qual nunca ouviu falar, e que provavelmente tem apenas uma agência na cidade, longe pra danar. Mas, na caminhada, você acaba descobrindo lugares diferentes na cidade.

Ou então é sábado e depois de meses chovendo finalmente deu um dia de sol em Florianópolis. Você decide beber uma cerveja com os amigos naquele barzinho no Morro das Pedras, 2h da tarde, quando alguém lembra do inevitável: “Melhor voltarmos logo, todo mundo resolveu aproveitar o sol e lá pelas 5h o trânsito fica parado até o trevo do aeroporto”. Você olha pro copo de cerveja, olha para as ondas quebrando na praia, e responde que o melhor é aproveitar a cerveja, pois vocês têm todo o tempo do mundo. Duas horas depois você resolve debandar e descobre que duas horas de prazer custaram outras duas de incomodação no crescente engarrafamento de Florianópolis. Mas, enquanto dirige vagarosamente o carro, acaba percebendo uma bela casinha à venda.

No final das contas, você tem seus oitenta e tantos anos e está lá sentado numa boa, apreciando um belo pôr-do-sol à sua frente, naquela casinha que comprou décadas atrás. Você chega até a fazer aquela analogia, do sol se pondo e da sua vida se esvaindo e lembra de todas as coisas que ainda precisa fazer na vida. Boceja e pensa tranquilamente: “Mas que pressa a minha, melhor esperar essa beleza de pôr-do-sol, afinal, ainda tenho todo o tempo do mundo”!

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 29/11/08. p.3)

Febre da desova

Com um pouco de espanto contido ele deparou-se com a febre da desova. A febre da desova pode ser percebida quando o fígado diz com veemência, depois de uma bela noitada: “aprume-se e ponha-se a caminho de casa”! Claro, isso depois de muita insistência e choradeira. Nesse momento a febre da desova já apresenta seus primeiros efeitos colaterais: boca seca e perda do intelecto. O indivíduo acredita ser possuidor de teorias mirabolantes que podem mudar completamente o sentido de toda a realidade. Algumas pessoas acreditam que a febre desperta certas capacidades adormecidas no cérebro humano, como a telepatia e o tele transporte. Mas a maioria dos afetados pela febre acaba confundindo delay com tele transporte. Junto com a febre da desova vem o consumo indiscriminado de álcool e alimentos com alto teor de gordura. Até hoje não se sabe se isso é resultado de efeitos colaterais psicológicos ou químicos. O fígado clama por paz e sossego afinal. Com poucas chances de viver bombardeado por todos os lados ele promete arrumar as malas e partir caso o doente não tome vergonha na cara.