Exobiologia

Meu pai sacode o jornal e olha para mim, concentrado atrás do balcão da oficina eletrônica enquanto tento conectar dois malditos microfios:

— Você sabia que o barbeiro de Neil Armstrong vendeu as mechas de cabelo dele para um colecionador fanático por 3.000 dólares e depois Neil processou o barbeiro e pediu que devolvesse ou o cabelo ou o dinheiro e como o barbeiro não conseguiu o cabelo, teve que dar o dinheiro a Neil, que doou para a caridade?

Respondo sem soltar o ferro de solda de estanho:

— Pai, desculpe não ter respondido sua carta antes. Você me pegou desprevenido e como sabe demoro muito para me decidir, para saber exatamente o que falar. Somos máquinas capazes de fazer certas combinações… Por que devo ler todos esses teóricos? Eu sabia que não deveria consultar tudo isso antes de escrever. Essa conversa infinita, esses pontos de convergência. Um dia assisti à defesa de uma tese e o réu falou disparates engraçadíssimos que quase me fizeram rir lá na retaguarda. Essa teia de relações que tento entender.

O velho fecha o jornal com calma, levanta da poltrona e sai em silêncio. Quando está na porta da oficina, para calmamente e olha para mim, que finjo me entreter com a soldagem dos fios. Coloca o jornal embaixo do braço e fala calmamente, antes de limpar o pé no capacho e me deixar com minhas dúvidas e eletrodos:

— Sempre disse que você deveria estudar exobiologia ou astrofísica.

Tão necessariamente fora de propósito

Como vem ocorrendo nos últimos dias, quando acordo, é como se estivesse sofrendo novamente a dor do nascimento. Tenho dificuldade para respirar, minha cabeça dói, a vida é uma droga, não entendo como poderei suportar o peso do meu corpo apenas com o uso de duas pernas e ainda assim acho que terei que treiná-las para que tenham músculos mais fortes, caso contrário cairei ao chão como um edifício com os alicerces fracos. E as coisas não poderiam ficar piores: por baixo da porta de entrada do apartamento, uma legião de formigas se desloca para minha cozinha. Pequenas, mas ágeis e pude contar algumas centenas, que se movimentam como autômatos, como mini-robôs teleguiados, provavelmente equipados com sofisticados sensores visuais que enviam para a base central as imagens do meu apartamento. Para não levantar suspeitas, um grupo delas já faz o caminho de volta com grãos de arroz retirados da minha cozinha. Se forem restos da minha mastigação, eles poderão estar interessados em investigar as minhas enzimas bucais e nem gosto de pensar que tipo de informação conseguirão a meu respeito. Minha respiração fica ainda mais ofegante enquanto me preparo para ligar o lança-chamas.