Sistema de Animação

Uma amostra do documentário independente longa-metragem Sistema de Animação, a ser lançado no dia 6 de outubro de 2008 (segunda-feira) às 20h no TAC (Teatro Álvaro de Carvalho), em Florianópolis/SC. Ingressos antecipados R$10 no TAC, na Batuka Groove e na Escola de Musica Rafael Bastos.

Trata-se de um espontâneo e dinâmico retrato do igualmente inusitado baterista Toucinho, lenda do underground musical brasileiro. O filme, dirigido pelos premiados Guilherme Ledoux e Alan Langdon, levou 5 anos para ser feito sem nenhum apoio financeiro e já recebeu uma Menção Especial da Critica Especializada no CATARINA Festival de Documentários 2008.

Seleção de atores

A TIRO NO PÉ PRODUÇÕES está selecionando ator e atriz para o curta-metragem PURA, a ser realizado entre os meses de outubro e novembro de 2008, em Florianópolis-SC.

Os interessados em conhecer a proposta do filme e em participar do processo de seleção podem obter informações no site da Tiro no Pé Produções.

Confira a sinopse do filme:

O destino ou o acaso põe de encontro duas realidades distintas numa relação marcada pela ruína. De um lado, Otávio, um homem de família, quiçá um profissional de respeito, envolvido em uma vida secreta e perigosa – a marginalidade e o vício. Do outro lado, Pura, uma jovem cuja trajetória é marcada pela perda da inocência, advinda da promessa de um futuro melhor, que desde cedo se esvai, esmagado por uma realidade cruel. Nesse encontro, raiva, violência e amor podem não ser tão distintos e o que parece estar perdido talvez possa ser encontrado na busca por uma essência que seja, de alguma forma, pura.

Ao senhor diretor

Fiquei sabendo de uma vaga em sua empresa e creio poder ocupá-la. Para isso estou redigindo esta carta, onde devo ser o mais sincero e obtuso possível. Escrevo a contragosto, mas sua secretária avisou que era um dos passos fundamentais para o processo de seleção. Agora estou aqui nesta sala ocupada por essas pessoas que disputam o cargo comigo. Acho deprimente e opressora essa situação, quero deixar isso bem claro desde o princípio, mas estou disposto a dar uma chance ao senhor diretor, apesar de parecer patético em seu terno cheirando a naftalina.

Senhor diretor, confesso não estar nem um pouco atraído por esta função, mas é uma das poucas opções que achei no jornal: vender sapatos nesta loja decrépita. No entanto, preciso do baixo salário que estão oferecendo para os cigarros, a bebida e o pagamento da pensão, que já está atrasado. Então, estou aqui para convencê-lo a empregar-me.

Enquanto escrevo esta carta tenho a certeza de que serei o selecionado. Sei disso quando olho ao redor e vejo todos os que estão disputando esta vaga comigo, porque eles não têm o brilho da sinceridade em seus olhares. Porém, seria arrogância de minha parte levantar e avisar: “vão para casa consultar o jornal novamente, pois esta vaga já é minha”. E se tem uma coisa que não gosto, é a arrogância!

Penso que o trabalho em sua loja de sapatos será entediante, e até cogito recusar quando, maravilhado com meu poder de persuasão, o senhor me chamar em sua sala e implorar-me de joelhos que trabalhe em sua loja. Mas fique sossegado: como já falei, preciso do dinheiro para minhas necessidades básicas. De qualquer forma, não posso evitar que certos pensamentos invadam minha mente: o mau cheiro dos pés dos clientes, a íntima visão das meias velhas e rasgadas, e assim por diante.

Creio que já basta. Deixarei o endereço e o telefone da pensão no verso da folha para que o senhor ou sua secretária entrem em contato comigo. Ligue-me à tarde, pois costumo dormir na parte da manhã. É bom que isso fique claro, para que juntos possamos chegar a um acordo quanto ao meu horário de trabalho, que deve ser mais flexível do que o dos seus funcionários atuais.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 20/9/08. p.3)

Salada especial

Morar em apartamento é um malabarismo de relações e sempre tento resolver os problemas da forma mais amigável possível. Outro dia um cheiro ruim se espalhou pelos corredores do nosso andar e ninguém sabia o que era. Até que detectamos que partia do apartamento 111 e me escolheram para conversar com o vizinho novo. Toquei a campainha e ele atendeu:

— Olá, tudo bem, sou o vizinho do 109, posso ter uma palavrinha com o senhor?

— Entre, estava preparando um café, aceita uma xícara?

— Claro, vou entrando então.

— O café fica pronto em um minuto. A que devo a surpresa da sua visita?

— Bem, imagino que o senhor deve ter sentido esse cheiro ruim que tem se espalhado pelo corredor nos últimos dias.

— Ah, é isso. O senhor sabe, moro aqui com a minha avó. Antes morávamos no sítio e sempre tínhamos um belo quintal com algumas hortaliças plantadas. O senhor gosta de tomates cereja?

— Tomates cereja?

— Aqueles pequenininhos. Pois nós sempre plantamos tomates cerejas para consumo próprio. Sabia que para uma boa horta o melhor é utilizar esterco de gado? Com ou sem açúcar? O seu café?

— Sem açúcar, por favor. Não sei muito sobre plantação, não.

— Já percebeu que aqui na cidade não temos vacas, para pegar o esterco?

— Felizmente o senhor e a sua avó não precisam mais delas, não é mesmo?

— Mas a minha avó adorava aqueles tomates e o nosso apartamento tem uma bela sacada. Temos uns vasos grandes e pensamos em plantar os tomatinhos. Terra é fácil de encontrar numa loja de jardinagem aqui perto, mas o bom e fresco esterco é praticamente impossível.

— É verdade, aqui na cidade você só encontra vacas nas churrascarias ou nos açougues.

— Então, mas a minha avó é persistente e outro dia assistíamos a um programa sobre agricultura no Japão. O senhor sabia que eles usam excremento humano como adubo e dizem que é ainda melhor que o de gado?

— Não me diga? Então, este cheiro…?

No outro dia o meu amigo Moacir, do 112, foi almoçar lá em casa:

— E aí? Descobriu o que o nosso vizinho anda aprontando pra catingar assim o corredor?

— Ah, nada demais, parece que o sifão da pia dele entupiu, mas logo deve resolver.

— Bom que resolva mesmo. Mas rapaz, me diga uma coisa, onde é que você conseguiu estes tomatinhos deliciosos?

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 13/9/08. p.3)

O engarrafamento final

O causo a seguir se passa no futuro, quando todos os cidadãos terão condições de ter o seu carro próprio e os engarrafamentos serão tão gigantes que qualquer pedacinho livre de estrada será disputado a tapa. E num belo dia, quando todos resolverem sair de casa ao mesmo tempo, os carros ficarão todos encaixados igual um quebra-cabeça. O nosso repórter dá mais detalhes:

— E atenção, estamos aqui na ponte Pedro Ivo, onde os carros estão parados desde ontem no maior engarrafamento da história. Descobrimos que o último pedaço de estrada livre do planeta é aqui em Florianópolis, lá na av. Rio Branco, onde um carro emperrou, fazendo tudo parar. E agora vamos falar com o sr. João, que está aqui no carro dele preparando o seu almoço. Com licença, sr. João, o que o senhor está achando de Florianópolis entrar para a história com o último espaço de estrada disponível no planeta?

— Bem, eu acho uma barbaridade ficar aqui desde ontem esperando por um carro encrencado lá na Rio Branco. Onde é que estão as autoridades? Ninguém faz nada? Mas que baita sacanagem.

— Mas, o senhor não acha um orgulho pra cidade, ter o último pedacinho de estrada livre do planeta para se movimentar?

— Olha, meu rapaz, pode apostar que não estou nem um pouco contente de estar 36 horas nessa fila. E não é porque a cidade entra para a história que vou arreganhar meus dentes pra tua câmera.

— Ok, não fique nervoso, sr. João. Mas vamos contatar o nosso correspondente Nestor, que está lá na av. Rio Branco, falando com o proprietário do veículo enguiçado que fez a cidade entrar pra história. Fala Nestor!

— Oi Edson, estou aqui com o Cláudio, tentando entrevistá-lo, mas as buzinadas dos impacientes estão muito altas. Sr. Cláudio, uma palavrinha para a TV:

— Eu queria mandar um abraço pros meus pais e dizer que estou muito orgulhoso de participar desse evento. Não foi planejado e ainda estou um pouco emocionado, mas com certeza isso mudou minha vida…

E assim, com muito bom humor, os cidadãos da Ilha da Magia conseguem lidar com a situação, enquanto motoristas de todo o planeta aguardam o nosso amigo Cláudio dar sua entrevista, consertar seu carro e liberar a estrada para que os carros vagarosamente voltem a rodar.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 06/9/08. p.3)