Jack the Ripper

Ontem, enquanto apreciava um quadro de Arthur Sarnoff sem prestar atenção no jogo, rasguei o pano verde da mesa de sinuca profissional do Lacerda, recém adquirida. Ele berrou por detrás do balcão, enquanto deixava cair um bolinho de carne pronto pra colocar na frigideira. Pegou exasperado o telefone e me remeteu um olhar fumegante. Os oficiais chegaram logo em seguida, mal tive tempo de amaldiçoar os cães do Sarnoff.

O que estava de pé parecia curioso e entretido com o meu relato. Olhou para mim, arrastou uma cadeira e pediu que eu contasse minha versão. Enquanto isso o outro se propôs a escrever o relatório. Sentou-se confortavelmente em um banquinho e começou a apontar com um estilete uma pilha de lápis cuidadosamente dispostos sobre a mesa de sinuca. Tomei de sua mão o lápis que apontava no momento, exasperado pela sua falta de habilidade e estendi a mão requisitando o estilete e perguntando: “posso?”. Os dois oficiais se entreolharam, deram de ombros e o sargento De Paula me entregou a lâmina. É claro, eu bem poderia cortar minha jugular naquele instante ou então subir na mesa e proceder com a famosa dança manchuriana acrobática, mas queria mostrar ao sargento como um profissional trabalha em um lápis. Muito bem, o primeiro passo é fazer um vinco com o estilete delimitando a área que será desbastada. A lâmina deve estar bem afiada, por isso fiz questão de partir o módulo inicial, para desespero do sargento, que não conseguiu me impedir da manobra, abriu a boca para reclamar, mas apenas pude imaginar um “não!” gutural. Depois é preciso respeitar o vinco, cortar com calma, aos poucos, rotacionando o lápis enquanto se retira milímetros a cada passada da lâmina. Nessa etapa a mina de grafite deve ser ignorada, pois o que importa é moldar a madeira. Quando finalmente chega a vez de esculpir a grafite, é imprescindível uma Guitt’s bem gelada e uma pausa para conversar, colocar em dia os assuntos de família, reclamar da alta dos combustíveis, da geopolítica e da péssima música dos vizinhos. Após este breve interlúdio, e nesse momento já será segunda-feira, com a choradeira no café da manhã, os espancamentos fumegantes denunciando mais um dia de trabalho e aquela chuva finíssima convidando para uma caminhada rumo ao metrô, você deve se concentrar em um belo núcleo de grafite em forma de cone alongado. É um trabalho de mestre, de ourives, de especialistas em desarmamento de bombas de trinitrotolueno. Qualquer movimento em falso e você estará novamente ajoelhado ao chão, tentando acompanhar as pequenas formigas levando metade de uma coxinha para seus ninhos. Detectores de movimento, de pressão atmosférica, diafragmas de borracha utilizados em aquecedores a gás, todo o tipo de dispositivo de pressão e movimento será utilizado para comprometer você. Uma bela ponta alongada, a grafite era porosa e macia, perfeita para este trabalho. Estendi a minha obra prima ao sargento De Paula, que recebeu com admiração, fez um malabarismo com o lápis entre os dedos, tomou o estilete de minha mão e pegou um novo lápis para tentar repetir meu trabalho. Pediu que eu continuasse minha história, enquanto fazia um belo vinco com a lâmina.

Diferença e Repetição

Na cidade, vez ou outra você parece estar num labirinto, e não sabe exatamente onde virar, se à esquerda, ou à direita. Pára, dá uma olhada com calma para os lados, procura por placas de sinalização, alguém para pedir informação, mas não encontra nada. Então você toma o caminho que parece o mais fácil e lógico: Vira à direita na primeira esquina, sobe a rua, pega a escadaria, vira novamente, pega o calçadão, passa por dentro da praça, pega a rua de lajotas e num passe de mágica, acaba chegando ao ponto de partida. Você fica espantado, olha em volta para se certificar de onde está e percebe que realmente voltou ao ponto inicial desse labirinto dentro da cidade. Por sorte, dessa vez você percebe um simpático boteco logo ali na calçada do outro lado da rua e decide, antes de tentar seguir um novo caminho, refrescar um pouco a garganta. Senta-se e pede uma cerveja. Bebe sossegado, enquanto observa o fluxo de pedestres. Nesse momento, percebe um homem na calçada do outro lado da rua, estranhamente parecido com você, vestindo até a mesma roupa, parado no mesmo local onde você estava da primeira vez. O homem olha para um lado, olha para o outro, troca um olhar rápido e espantado com você e toma o mesmo caminho que você havia tomado anteriormente. Você fica intrigado com as similaridades. Paga a cerveja e sai apressado atrás daquele homem, que parece a sua cópia. Mas ele vai apressado e você quase não consegue acompanhá-lo. O homem vira à direita na primeira esquina, sobe a rua, pega a escadaria, vira novamente, pega o calçadão, passa por dentro da praça, pega a rua de lajotas e você acaba perdendo o sujeito no final, mas chega ao mesmo ponto inicial novamente. Você olha para aquele boteco do outro lado da rua e lá está aquele homem, estranhamente parecido com você, bebendo cerveja. De repente ele olha para você, como se o conhecesse. Você fica aflito e sai correndo, enquanto percebe que, às suas costas, o homem paga a cerveja e sai em seu encalço. Você vira à direita na primeira esquina, sobe a rua, pega a escadaria, vira novamente, pega o calçadão, passa por dentro da praça…

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 10/01/09  p.3)

Grandes Esperanças

Adamastor sentou-se em frente à folha de papel, com a caneta em punho. Era o último dia do ano e os fogos deixavam claro que o momento mágico se aproximava, o momento da transmutação do tempo, quando o relógio imaginário e arbitrário mudaria a última casa do número oito para o nove. E lá estava ele, preparado para escrever uma lista com os projetos para 2009, coisa que nunca fez na vida e que sempre achou de uma cretinice sem tamanho, mas acabou se rendendo dessa vez. Afinal, com todas as dívidas que Adamastor havia contraído neste ano que acabava, com todas as desilusões com as mulheres e amigos, não custava nada tentar uma última saída, fazer seus planos e desejar, sozinho em seu apartamento na virada do ano, que 2009 fosse diferente.

Faltando poucos minutos para a virada, Adamastor já havia escrito uma relação de projetos, uma lista de pedidos e também havia enumerado todas as promessas para o ano que estava ali batendo à sua porta. E não é que alguém realmente bateu à porta naquele instante? Adamastor foi atender e deu de cara com um ancião, que foi entrando sem pedir licença, sentou-se no sofá e colocou os pés em cima da mesinha de centro. A barriga transbordava para fora da camisa. Adamastor não teve dúvidas e exclamou convencido:

— Ano Velho! Você veio se despedir?

— Que Ano Velho, o quê Adamastor, eu sou o Ano Novo, o Velho já está na UTI desde o início do ano e estive substituindo ele desde então, nos bastidores, e agora vou ter que trabalhar mais um ano inteiro. E ainda por cima, todo mundo espera muito de mim!

De repente, o Ano Novo caiu no choro, desesperado, trêmulo, pensando no trabalho enorme que teria pela frente, sem descansar, sem férias e provavelmente logo teria que pedir ajuda para 2010, pois não aguentaria o tranco. Adamastor olhou então para as dez páginas que havia escrito, com projetos, pedidos e promessas. Enquanto o Ano Novo chorava no sofá, ele rasgou todos os papéis e colocou na lixeira. Foi até a cozinha e pegou uma espumante e dois copos.

— Não fique assim, meu velho, tome um gole e vamos para a varanda ver os fogos.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 03/01/09  p.3)

O abraço de Natal

Era noite de Natal e Thiago estava sozinho em casa, deprimido. Precisava de um abraço, uma conversa amiga. Foi aí que o telefone tocou:

— Oi, querido, é a Lucinha, liguei pra te desejar Feliz Natal! Queria estar aí pra te dar um abraço!

— Certo, tô indo aí, me aguarde!

— Mas… peraí, não esquece que…

Thiago desligou antes que ela discordasse. Já estava na estrada quando o carro ficou sem combustível. Correu até o posto e só então percebeu que ainda estava usando suas pantufas do Mickey. Berrou para o frentista:

— Por favor, gasolina em um saco de emergência!

— Quanto?

Thiago vasculhou o bolso e encontrou apenas algumas moedas.

— Coloca aí: 65 centavos de gasolina! Da comum, hein!

O frentista colocou o combustível no saco e lhe entregou:

— Ok, tá aqui, foi R$ 2,65.

— Mas eu pedi só 65 centavos!

— É, mas o saco de emergência é R$ 2,00, então…

— Entendi, entendi. Faz assim, não tenho mais dinheiro, vou deixar o relógio de garantia, pode ser?

— Não é do Paraguai, né?

— Não, não, me entrega essa gasolina duma vez!

Thiago pegou a gasolina e correu em direção ao carro, que estava sendo guinchado naquele momento. Ainda tentou evitar, mas o motorista do guincho não ouviu seus gritos. Sem pensar duas vezes, correu pra casa de Lucinha. Faltavam apenas uns 3 km e a chuva que começava não estava tão forte assim.

Chegou quase sem fôlego. Tocou o interfone várias vezes, sem resposta. Então lembrou com espanto que Lucinha havia viajado para a casa dos pais e só voltaria em um mês. Não agüentando a pressão, Thiago perdeu a consciência…

Quando abriu os olhos, estava em um quarto de hospital, usando uma camisa-de-força. Uma enfermeira surgiu na porta e ele perguntou:

— O que aconteceu comigo?

— Você não lembra de nada?

— Não, o que houve?

— Lá pelas 3h30, recebemos uma ligação avisando que havia um louco gritando na rua. Quando a ambulância chegou, você estava lá, todo molhado, usando pantufas do Mickey, segurando um saco de gasolina e gritando sem parar: “Quero meu abraço de Natal! Quero meu abraço de Natal!”

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 27/12/08. p.3)

Trajetória profissional

Depois de preencher várias fichas de emprego, percebi que precisava fazer um curso para incrementar meu currículo, pois a disputa estava acirrada. A hibernação durante o trabalho estava em alta em algumas repartições comerciais, então resolvi me aprimorar na técnica para não ficar fora do mercado.

Cheguei atrasado no primeiro dia de aula e peguei a turma dormindo. O professor estava à frente, de óculos escuros, expressão séria e um fio de baba correndo da boca. Depois de um mês de curso, recebi o diploma. Formado em sonecas prolongadas, fui em busca de emprego e após uma triagem rigorosa, consegui finalmente uma posição como revisor estratégico de relatórios independentes.

Eu fazia a triagem de relatórios robustos, sem perder meu tempo examinando seus conteúdos. Um dia resolvi abrir uma das pastas. Uma daquelas revistas de coluna social, com atores de novela, caiu do meio da capa do relatório, que ficou vazio em minhas mãos. Não havia mais nada, apenas a capa, com o número do protocolo e seu autor. Fiquei irritado com o ocorrido e quando fui investigar os outros processos, descobri que todos eram assim, constituídos apenas da capa, e de um miolo inútil, de conteúdo variado. Fui até a direção revelar a farsa e antes de abrir a boca, o chefe falou:

— Senhor Vicente, vejo que o senhor é novo aqui e li em seu currículo que fez um curso de hibernação, mas, por uma falha na seleção, acabou parando neste setor da empresa, com pessoas formadas em enrolação. Não se preocupe, vou lhe mostrar como trabalhamos aqui.

E então ele ficou de pé, pegou uma capa de relatório, como aqueles que eu estava selecionando, e falou:

— O senhor pega uma dessas capas, coloca um conteúdo qualquer no meio, e quando alguém lhe pedir que leia, o senhor simplesmente improvisa, com o maior cuidado para não ser descoberto. Capriche na defesa das suas idéias!

Não acreditei naquilo, meu próprio chefe me ensinando e estimulando a fingir que eu trabalhava. Voltei para o meu posto completamente abatido. Então, pus em prática meus conhecimentos para mostrar que eu discordava daquilo: resolvi hibernar durante vinte anos! Aposentei-me e hoje olho com orgulho para minha trajetória profissional.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 20/12/08. p.3)

A Revelação

Aos quatro anos de idade, o garoto finalmente descobriu: as pessoas morriam, deixavam de funcionar, apodreciam e desintegravam, sobrando apenas a armação que dava sustentação ao amontoado de carne, nervos, cartilagens… Ele ficou triste, chorou, inconsolável no colo do pai. Mas também ficou intrigado com aquela revelação e começou a registrar o nome que os adultos davam àquela coisa horrível: ir para a cucuia, empacotar, estuporar-se, dar com o rabo na cerca, ir para o beleléu, vestir o paletó de madeira, virar presunto, bater a caçoleta, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, desencarnar, desviver, dizer adeus ao mundo, ir desta para uma melhor, ir para a cidade dos pés juntos, etecetera e tal.

A decepcionante revelação veio de uma de suas manias. Ele adorava brincar com insetos e toda sorte de pequenos animaizinhos. Ele tinha uma aranha de estimação, a Maricota, que guardava em um viveiro feito com os restos de um aquário desativado. Costumava colocá-la para brigar com outras que achava pelo quintal ou nos cantos escuros da garagem. Certa vez, em uma das brigas, a aranha adversária envolveu completamente Maricota com sua teia gosmenta e antes que ele pudesse fazer alguma coisa, a outra aranha começou a sugar os líquidos vitais de Maricota. Tentando remediar a situação, ele jogou longe a adversária com um peteleco e começou a tirar a teia que envolvia a pobre Maricota. Depois de soltá-la, viu que continuava encolhida, tremendo, enquanto o veneno de sua algoz espalhava-se por seu sistema circulatório. Não pôde fazer mais nada, nem respiração boca-a-boca funcionaria. Permaneceu impotente ao seu lado enquanto a vida se esvaía de sua pequena carcaça. Por semanas olhou o viveiro abandonado, lembrando dos bons momentos vividos com sua aranha de estimação.

Depois disso, logicamente, ele percebeu que as pessoas eram tão frágeis quanto a Maricota. “Bola pra frente”, o pai falou, usando mais uma dessas expressões que o garoto não entendia bem. “Filho, a vida continua, não dá pra parar”. Ele engoliu em seco, enxugou as lágrimas e seguiu o conselho do pai: viveu sua vida, envelheceu e fez de conta que aceitou as regras do jogo.

(escrito originalmente em 23/06/98 às 12h26 / publicada no Notícias do Dia em 13/12/08.)

Como viver junto

Durante o café, ela coloca o gravador em cima da mesa, aperta no record e ele pergunta:

— Pra que isso?

— Lembra que na segunda pela manhã você falou que iríamos ao cinema e à noite você falou que não havia prometido nada disso?

— Eu, não!

— Então, por isso que, a partir de hoje, antes de sairmos para o trabalho, vou gravar a nossa conversa, assim depois eu posso cobrar o que você fala e não cumpre.

— Mas isso é um absurdo, onde está a minha privacidade?

— Como assim? Só estamos nós dois aqui, só quero documentar o que você fala.

— E como é que eu vou saber que você não vai mostrar pra ninguém?

— Não se preocupe, vou utilizar apenas sete fitas, para gravar uma semana, depois volto a gravar todas por cima na semana seguinte. Não ficará nada arquivado.

— Sete fitas? Ficou louca, vai ficar gravando tudo o que a gente fala?

— Não precisa ficar histérico, já falei que vou guardar bem as fitas e não vou mostrar pra ninguém.

— Por outro lado, é bom que você grave mesmo, assim vamos ver as coisas que você fala e não cumpre.

— Como assim? Eu não sou como você, não, eu cumpro as minhas promessas.

— Essa é boa, tá parecendo político com amnésia. Lembra que você havia me prometido vestir aquela fantasia no sábado à noite e…

Ela rapidamente aperta o botão de stop do gravador e ele pergunta espantado:

— Mas o que é isso, por que parou a gravação?

— Que besteira que você estava falando, pra que é que eu vou gravar isso? E se alguém ouve a fita?

— Ah, muito bem, quer dizer que agora você está com medo que alguém ouça as nossas conversas, entendi. Agora eu já sei como sabotar o seu plano.

— Ah, assim não vale, assim você está apelando.

— Mas quem começou foi você, minha querida.

— Tá, tá bom, eu paro, mas isso foi jogo sujo seu!

No outro dia, durante o café:

— Querido, hoje à noite nós vamos ao cinema, não vamos?

— Vamos sim, prometo.

— Muito bem, então assine aqui.

— Como assim? Assinar o quê?

Ela lhe entrega uma ficha, com uma anotação contendo a data e o compromisso: “Quarta-feira, 19h — Ir ao cinema”.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 06/12/08. p.3)

Todo o tempo do mundo

A expressão “todo o tempo do mundo” pode ser uma armadilha, dependendo do ponto de vista. Um bom exemplo é aquela conta em aberto. Até o dia do vencimento, pode ser paga em qualquer banco e você acha que tem todo o tempo do mundo para resolver o assunto. Três da tarde do fatídico dia e você percebe que tem mais uma longa e infinita hora pra pagar a conta. Dá pra fazer muita coisa em uma hora, você pensa. Você pode ler um livro completo, assistir a um filme, escrever um romance, viver uma vida! Até que você decide — tarde demais — correr até o banco e dá com a cara na porta, enquanto o guarda, com expressão séria, recusa a sua entrada na agência. Você desiste, afinal é sexta-feira. Na segunda-feira, além de pagar multa por atraso e juros de três dias, você vai ter que ir à procura daquele banco que está no boleto, do qual nunca ouviu falar, e que provavelmente tem apenas uma agência na cidade, longe pra danar. Mas, na caminhada, você acaba descobrindo lugares diferentes na cidade.

Ou então é sábado e depois de meses chovendo finalmente deu um dia de sol em Florianópolis. Você decide beber uma cerveja com os amigos naquele barzinho no Morro das Pedras, 2h da tarde, quando alguém lembra do inevitável: “Melhor voltarmos logo, todo mundo resolveu aproveitar o sol e lá pelas 5h o trânsito fica parado até o trevo do aeroporto”. Você olha pro copo de cerveja, olha para as ondas quebrando na praia, e responde que o melhor é aproveitar a cerveja, pois vocês têm todo o tempo do mundo. Duas horas depois você resolve debandar e descobre que duas horas de prazer custaram outras duas de incomodação no crescente engarrafamento de Florianópolis. Mas, enquanto dirige vagarosamente o carro, acaba percebendo uma bela casinha à venda.

No final das contas, você tem seus oitenta e tantos anos e está lá sentado numa boa, apreciando um belo pôr-do-sol à sua frente, naquela casinha que comprou décadas atrás. Você chega até a fazer aquela analogia, do sol se pondo e da sua vida se esvaindo e lembra de todas as coisas que ainda precisa fazer na vida. Boceja e pensa tranquilamente: “Mas que pressa a minha, melhor esperar essa beleza de pôr-do-sol, afinal, ainda tenho todo o tempo do mundo”!

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 29/11/08. p.3)

O Avaí está na primeira divisão

campeonato de sadoku em singapura

Fiquei sabendo que no último dia 15 de novembro ocorreu em Singapura uma competição mundial de sudoku, um jogo onde o objetivo é a colocação de números de 1 a 9 em cada uma das células vazias numa grade de 9×9, constituída por 3×3 subgrades. Parece um jogo metódico, mas instigante e talvez um dia acabe entrando nas olimpíadas, assim como o xadrez está presente nos Jogos Abertos de Santa Catarina (JASC). Algumas pessoas jogam ou apreciam sadoku, outras, xadrez e muitas outras, futebol. Dos três jogos, o único que entendo é o xadrez. As regras do sadoku são tão estranhas para mim como são as do futebol.

Semana passada, enquanto aproveitava uma trégua da chuva para caminhar, passei por um simpático boteco, que sempre tenho vontade de entrar, mas nunca tenho sede no momento em que passo por ele e por isso vou prorrogando a visita. Chama-se Bar do Pierre e fica aqui em Campinas, São José. Muitas vezes o bar transborda, passa para o lado de fora de suas paredes e invade as calçadas de esquina com cadeiras e mesinhas plásticas. Nesse dia ele estava assim, lotado, com vários dos seus freqüentadores usando a camisa de um time de futebol, que passei a conhecer melhor nos últimos dias, por incapacidade de desligar meus canais auditivos em lugares públicos.

Há alguns anos passei uma semana no Rio de Janeiro, em um albergue localizado bem no centrão. Foi uma semana antes do carnaval e voltei para Florianópolis antes da grande festa começar. Na ocasião, o albergue estava lotado e eu era um dos poucos brasileiros. Havia chilenos, argentinos, alemães, estadunidenses, dinamarqueses, australianos… Uma noite fizemos uma festinha no albergue e fui eleito, como representante legítimo da terra, para fazer a caipirinha. Então, o Ashbery, um amigo australiano que fiz na ocasião, perguntou-me porque eu não iria ficar para o carnaval. Respondi que não gostava da festa e por isso voltaria para casa antes dos desfiles. Ele ficou um pouco admirado com a minha resposta e dali a pouco estava me perguntando sobre futebol. Falei que também não apreciava nem acompanhava este esporte. Naquele momento ele me perguntou, surpreso: “but… aren’t you Brazilian?”

Sim, os estereótipos existem, não há como fugir deles. Recriminam quem usa em excesso os estereótipos, mas eles estão aí. Como pode um brasileiro não gostar de carnaval ou futebol, pensou meu amigo australiano. Naquele momento eu fazia, com orgulho, o papel de destruidor de estereótipos. Penso que cada um pode gostar do que quiser. Meu esporte preferido tem a ver com bicicletas, não com bolas. Se o Ashbery me perguntasse a respeito de campeonatos mundiais de mountain bike e downhill, eu poderia responder com autoridade. Falaria sobre os campeões brasileiros e catarinenses e sobre as novas tecnologias das magrelas, que estão a cada dia mais sofisticadas, rápidas e seguras. Mas, sou brasileiro, então as palavras chaves que ecoavam na cabeça do Ashbery eram “carnaval” e “futebol”. Talvez, também “Amazônia” e “caipirinha” e pelo menos esta última eu conheço e sei fazer, portanto escapo do perigo de ser deportado.

No dia 11 deste mês, lá pelas 17h, precisei ir à UFSC. Saí do Kobrasol, onde moro, e peguei a Via Expressa que, durante horários específicos do dia, não é tão expressa assim. Então, comecei a ver vários carros carregando bandeiras de um time de futebol, buzinando e fazendo festa. Não entendi exatamente o que significava tudo aquilo e achei que o time das bandeiras já era campeão de alguma coisa. Depois de passar a ponte e chegar ao outro lado do túnel de Florianópolis, avistei lá na frente, mais ou menos na altura do Armazém Vieira, um grande engarrafamento se formando. Concluí que ainda não havia um campeão e provavelmente a decisão aconteceria naquela noite, no estádio de futebol perto do aeroporto. Nesse momento eu já havia percebido que as bandeiras daquele time estavam espalhadas por toda parte. Fachadas de casas, camisetas dos pedestres, sacadas de apartamentos e tudo mais. Provavelmente, os torcedores deviam fazer aquele complexo ritual toda vez que havia jogo naquele estádio, foi o que pensei.

Fiz o que precisava na UFSC e voltei pra casa. Naquela mesma noite, não lembro exatamente o horário, comecei a ouvir uma grande festa na rua. Tem uma pizzaria aqui perto onde o pessoal reúne-se para assistir futebol em um telão e fazer festa dependendo do resultado. Mas naquela noite a festa era muito maior do que nas outras ocasiões e havia carreatas na avenida central do Kobrasol; gente buzinando e mesmo ouvindo uma música alta que exaltava Florianópolis. Lembro de algo tipo “minha ilhaaaaa,  formosaaa…”. Parecia final de copa do mundo.

Perguntei para a Leila se ela sabia o que estava acontecendo e ela falou que a música era o hino do Avaí, time de futebol de Florianópolis. Depois ela me disse que naquele dia o time finalmente havia passado para a primeira divisão, depois de 30 anos de jejum. Eu nem sabia que existia esse negócio de primeira e segunda divisão no futebol, mas ela me explicou como funcionava. Naquele instante, como em uma epifania, finalmente entendi todas aquelas ocasiões em minha vida quando ouvi as pessoas falando sobre esse assunto, dizendo que esse time estava na primeira e aquele estava na segunda divisão.

Mas, como eu falava lá no início, passei pelo Bar do Pierre na semana passada, lotado de freqüentadores que comemoravam o que eu finalmente sabia o que era — a passagem do Avaí para a primeira divisão. Eu estava na calçada do outro lado da rua e na minha frente, em sentido contrário, vinham pai e filho com a camisa do Avaí. Exaltados, quando os freqüentadores do Bar do Pierre avistaram aquela bela cena familiar, começaram a cantar o hino do time vencedor. O pai pegou o garoto, colocou-o nos ombros e começou a dançar, mostrando alegremente que pai e filho compartilhavam daquela alegria. Naquele momento me senti apenas um observador, um estrangeiro, e lembrei do Ashbery me perguntando se eu realmente era brasileiro.

Adeus às armas

O amolador de facas corre desesperadamente pelo calçadão da Conselheiro Mafra. Vira na esquina com a Deodoro, tropeça, cai, levanta, olha para trás preocupado, continua correndo e vira na Felipe Schmidt. Os pedestres não entendem o que está acontecendo, apenas olham, riem do amolador de facas ou fazem caretas enquanto o louco corre sem parar.

Alguns metros atrás do amolador de facas, derrubando tudo e todos no caminho, estão dois caçadores, desses que caçam animais selvagens na África. Com chapéu de pele de bicho morto na cabeça, espingarda de caça na mão e sorriso sádico decorando o rosto.

Os caçadores que perseguem o amolador de facas são colecionadores de cabeças e precisam completar suas coleções. Alguns dias atrás, eles estavam em um barzinho no Mercado Público, bebendo cerveja, comendo iscas de peixe e conversando sobre suas caçadas anteriores, até que um deles lembrou:

— Preciso da cabeça de um amolador de facas. Ficaria ótima em minha sala de estar.

O outro caçador respondeu, animado:

— Boa lembrança! Também preciso de uma. Vamos aos rifles!

A caçada prossegue, e na praça XV o amolador de facas é encurralado com um caçador de cada lado. Com os rifles apontados em sua direção, o amolador de facas pergunta desesperado:

— O que vocês querem de mim? Por que estão me perseguindo? Se foi alguma faca que não ficou bem amolada, posso refazer o serviço, garanto!

Um dos caçadores responde, ainda ofegante:

— Caçamos e colecionamos cabeças…

O outro caçador toma a palavra:

— Nossa coleção está quase completa, mas ainda precisamos da cabeça de um amolador de facas!

O amolador de facas olha amedrontado e pergunta aos caçadores, como última saída:

— E por acaso vocês já têm a cabeça de um caçador?

Os dois caçadores param por um instante, entreolham-se com os cantos dos olhos, vão se virando um para outro devagarzinho…

O amolador de facas abandona a cena tranquilamente, enquanto ouve o som dos tiros às suas costas.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 22/11/08. p.3)