Mesmo Delivery, de Rafael Grampá

cover mesmo delivery englishDemorou, mas finalmente consegui ter em mãos a versão nacional do ótimo álbum Mesmo Delivery, do brasileiro Rafael Grampá, que ganhou um Prêmio Eisner em 2008 na categoria antologia, junto com os compatriotas Gabriel Bá e Fábio Moon pela HQ independente 5, que também conta com trabalhos de Becky Cloonan e Vasilis Lolos.

Como explica Grampá, Mesmo Delivery é “um road-thriller em quadrinhos, muito influenciado pelo formato de minisséries de TV de quando eu era criança, com algumas experimentações gráficas. Na época, eu achava que os intervalos comerciais faziam parte dos filmes, como se fossem uma coisa só. Peguei tudo isso, misturei com minhas influências mais maduras em design e motion graphics, entre muitas outras coisas, e fiz o álbum”

Seu traço detalhista lembra muito o estilo de Geof Darrow, conhecido principalmente pela minissérie Hard Boiled, com roteiro de Frank Miller. Mas em sua página no Flickr Grampá afirma que Darrow não é uma influência: “TODO mundo me pergunta se o Geof Darrow é uma influência. Ele não é, mas nós dois gostamos de desenhar detalhes e não tem como não lembrar. O meu traço em si não tem nada a ver com o dele, sou muito mais caricato, porém a quantidade de detalhes aproxima. Eu acho ele um PUTA artista e sempre fico lisonjeado quando comparam.”

Em Mesmo Delivery o motorista Rufo é contratado para entregar uma encomenda que nem mesmo ele sabe o que é, precisando assinar um contrato em que se compromete a não abrir a porta do caminhão. Em sua companhia viaja o magrelo Sangrecco, homem de confiança da empresa que contratou Rufo. Tudo vai bem até que Rufo acaba caindo na porrada com um cara em um bar de beira de estrada. E alguém resolve inadvertidamente abrir as portas traseiras do caminhão…

O álbum é literalmente visceral, no sentido Tarantino da palavra e Grampá utiliza algumas experimentações legais no álbum, como uma vinheta estilo propaganda vintage no meio do álbum e também alguns personagens de desenho animado que lembram a história do Coiote na série do Animal Man roteirizada pelo Grant Morrison.

O último projeto de Grampá, em parceria com o escritor Daniel Pellizzari, é a minissérie Furry Water, que será lançado oficialmente na San Diego Comic-Com, que acontece entre os dias 23 e 26 de julho. A HQ será publicada por nada menos que a Dark Horse, umas das maiores editoras de quadrinhos independentes nos EUA atualmente, atrás apenas da Marvel e da DC.

Com esses trabalhos Rafael Grampá reafirma sua presença em uma nova geração de quadrinhistas brasileiros que vêm conquistando reconhecimento internacional, principalmente no vigoroso mercado estadunidense.

Mesmo Delivery
Editora Desiderata
Formato: 17 X 26 cm, 56 páginas

5
Revista independente
Autores: Becky Cloonan, Fábio Moon, Gabriel Bá, Rafael Grampá e Vasilis Lolos (roteiro e arte).
32 páginas

Evidências de Franklin Cascaes

No último dia 16 de outubro foi comemorado o centenário de nascimento de Franklin Cascaes e lembrei dum causo que ocorreu comigo em 1999, enquanto fazia parte do conselho editorial da revista Poité e fui encarrego de colocar os números anteriores da revista na rede. Meu trabalho era digitalizá-las; aplicar o OCR; revisar e publicar no antigo site da Poité. Decidimos que apenas alguns artigos seriam publicados na rede, entre eles um sobre Franklin Cascaes intitulado O conflito entre o ingênuo e o realismo fantástico na obra de Franklin Cascaes – uma primeira visão, por Evandro André de Souza. Naquela época os programas de OCR ainda eram muito antiquados e o resultado final não ficava muito bom. Assim, quando o programa tentou interpretar a legenda da segunda imagem do artigo, a frase “Viagem bruxólica à Índia” acabou se transformando em “Vingom braxólkcu k fndiu”. Fiquei intrigado com aquela combinação de caracteres, e registrei-a em um bloco de notas. Continuei o trabalho e esqueci da anotação. Alguns dias depois, revisando minhas anotações, encontrei aquela estranha frase e não consegui lembrar de imediato do que se tratava. Foi então que tive a idéia para o conto Evidências, que publiquei aqui no Bruxismo algum tempo atrás, onde conto a história da autópsia do Vingom. Mais tarde, em 2005, em parceria com o quadrinhista E. C. Nickel, Evidências foi adaptado para os quadrinhos junto com mais alguns de meus contos em um álbum de pouco mais de 50 páginas. Não sei se o conto ou a HQ têm alguma relação com a obra de Franlkin Cascaes, mas sem dúvida, não existiriam sem este incidente.

Desconstrução

Sandro e Alicia moraram cinco anos em um espaçoso apartamento alugado na Trindade, em Florianópolis. Era antigo; cheio de infiltrações; cupins no chão forrado de tacos de madeira, mas era um apartamento aconchegante. Um dia, um pedaço de reboco do teto caiu na cabeça de Sandro, pouco antes deles receberem a notícia de que teriam que sair do apartamento, pois o proprietário queria vender o imóvel. Mas, como mandam as regras, eles tinham o direito de fazer a primeira proposta, que foi automaticamente recusada, por não alcançar a metade do valor absurdo que a imobiliária estava pedindo. O casal ficou indignado e Sandro queria desforra.

Tinham três meses para procurar outro apartamento e nesse meio tempo, como ocorre nessas situações, os possíveis compradores poderiam entrar para ver o imóvel, mesmo com eles ainda lá estabelecidos. Eles consideraram um atentado mercantilista aos seus cinco anos de privacidade em um imóvel que já tinha a cara deles.

Antes da primeira visita, Sandro pegou todo o pó dos cupins que havia varrido e espalhou com cuidado por pontos estratégicos, depois o pedaço de reboco que havia caído do teto e por fim uma pilha de livros arruinada pelas goteiras.

Quando a cliente chegou, acompanhada do agente da imobiliária, Sandro os atendeu educadamente, ofereceu café e conduziu a visita. Fez questão de explicar tudo para a cliente, que chegou maravilhada, pronta para adquirir o imóvel:

— É um ótimo apartamento, mas veja ali no canto, nos rodapés, a quantidade de cupins que estão devorando completamente o assoalho. Sim, isso ali no chão é o reboco caído, lastimável, foi bem na minha cabeça, veja o calombo. Ah, e essa infiltração, arruinou todos os nossos livros.

O corretor ficou furioso, dava para ver em seus olhos. Mas também sabia que não havia nada a fazer. E a cliente compreendeu o recado, percebeu o péssimo negócio que faria e resolveu procurar outro imóvel.

Depois disso não ocorreram outras visitas de possíveis compradores e o casal pôde curtir os últimos dias do apartamento. Sandro ainda tem numa caixa todo aquele pó de cupim e parte do reboco do teto. São as únicas lembranças que restaram daquele apartamento.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 23/8/08. p.3)

Derrotista

Joe Sacco é um mestre em fazer jornalismo em quadrinhos e adora estar metido em áreas de guerra. Além disso, prefere sempre ouvir as vozes das minorias, dos menos favorecidos, criando obras politicamente críticas, mas nunca panfletárias. Seus primeiros trabalhos reconhecidos nesta área foram uma série de reportagens quadrinizadas que se transformaram no álbum Palestina, lançado no Brasil pela Conrad em dois volumes e vencedor nos EUA do American Book Award. Depois produziu Área de Segurança: Gorazde – A Guerra na Bósnia Ocidental 1992-1995, ganhador do Eisner Awards.

Mas o autor já ensaiava sua visão dos conflitos humanos bem antes do reconhecido sucesso. Derrotista é um misto de autobiografia com elementos underground, relatos de guerras e críticas escrachadas do estatus quo. Uma ótima introdução aos trabalhos de Sacco, onde podemos acompanhar também os seus conflitos interiores, sua insegurança, e seu humor ácido diante da miséria humana.

Se não bastasse isso, Sacco tem um domínio inigualável da pena, com cenas superdetalhadas, diagramações de página nem um pouco comportadas e belas cenas de página inteira em perspectiva tipo “olho de peixe”. Enfim, Derrotista é uma ótima introdução ao trabalho do jornalista e artista de quadrinhos.

224 páginas
Formato: 18 x 27 cm
ISBN: 85-7616-142-7

Epiléptico

Acabei de ler o segundo volume do Epiléptico, obra do francês David B. Epiléptico é a autobiografia do autor, que nasceu com o nome Pierre-François Beauchard. Na verdade é a biografia do seu irmão mais velho, vítima da epilepsia, que acabou envolvendo toda a família em uma busca incansável pela cura da doença. Sincero, violento, cruel e terno, Epiléptico é uma obra quadrinística-literária de uma densidade pouco encontrada (pelos que não conhecem a fundo esta forma de arte) no universo dos quadrinhos. David B. é um dos fundadores da L’Association, editora criada por um grupo de quadrinistas franceses alternativos na década de 90 na França. Na Escola de Artes Aplicadas de Duperré, em Paris, no final dos anos 70s, David foi aluno de Georges Pichard, um dos criadores de Blanche Épiphanie, publicado no Brasil pela editora Abril em 1990. Pichard não ensina quadrinhos em seu curso, mas incentiva e aconselha David no intervalo das aulas de publicidade. Assim, ele encontra uma linguagem para contar a sua história, a história do seu irmão, da sua família, tão intrinsecamente conectada, à procura de uma cura e uma explicação para a doença do seu irmão. A busca passa pela medicina tradicional, pela macrobiótica, alquimia, espiritismo e todas as possibilidades tradicionais ou esotéricas, envolvendo sempre toda a família. A autobiografia de B. é populada por monstros, espíritos, guerreiros ferozes e figuras mitológicas. Uma mistura intrincada de simbologias nascida da aflição de uma família na busca pela cura da doença de um de seus membros. Uma obra de primeira grandeza que recomendo a todos, amantes dos quadrinhos e os que acham que a nona arte é coisa de criança, Disney e Turma da Mônica. Os dois volumes da obra podem ser adquiridos em português, com um ótimo acabamento, diretamente no site da Editora Conrad, com um atraente desconto, neste endereço.

Formato: 21 x 27 cm
Plano da obra: 2 volumes
ISBN: 978-85-7616-279-7

Brat Pack

Outro dia eu estava conversando com o Ivan Jerônimo sobre a censura na DC e falei do caso do Alan Moore, que teve uma revista do Monstro do Pântano cancelada por fazer o personagem viajar no tempo e se encontrar com Jesus Cristo. Então o Ivan falou que eu estava errado, que não havia sido o Moore que escreveu esta história. Concordei com ele na hora. Engano meu, o Moore tinha um projeto para o Monstro do Pântano que conseguiu finalizar na DC, apesar de ter tido outros desentendimentos com a editora por motivos diversos. Mas eu lembrava dessa censura relacionada a Cristo e então fui pesquisar, descobrindo que havia sido o Rich Veitch o censurado neste caso específico, o que causou a sua saída da DC.

Descobri também a minissérie Bratpack. Publicado em 1998, foi uma resposta ácida de Veitch à censura da DC e também uma crítica ao mercado de quadrinhos daquela época, que explorava os artistas e os personagens, culminando com votações entre os leitores como a que decidiu o fim do Robin (Jason Todd) na época. Por isso, Bratpack acaba sendo datada, como bem lembrou o Zé Oliboni no Universo HQ, pois não vivemos mais esta época. Comprei a edição brasileira para conferir e realmente não é o que eu esperava. Sem a introdução do Neil Gaiman, que acompanha esta edição, e as notas da orelha e da contracapa, que descrevem o contexto em que a revista foi escrita, ela não tem muito sentido. Os personagens da trama: Trueman, Doninha Noturna, Senhora da Lua, Rei Rad e Juiz Júri se referem, respectivamente, ao Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde e Juiz Dredd. Os heróis de Slumburg, a cidade fictícia de Brat Pack, são junkies, homossexuais e degenerados, tudo o que a puritana DC não gostaria em seus maiores heróis, e estão mais preocupados com o licenciamento das suas imagens e dos seus parceiros mirins do que com o combate ao crime. Acho que vale a leitura, mas acaba sendo o desabafo de um autor descontente em uma época específica dos quadrinhos estadunidense. E se o leitor não estiver armado com todas estas informações, pode ficar sem entender bem a história.

Título: BRAT PACK (HQM Editora) – Edição especial
Autores: Rick Veitch (roteiro e arte).
Preço: R$ 29,90
Número de páginas: 176
Data de lançamento: Novembro de 2007

Black Hole

Black HoleFinalmente chega ao Brasil Black Hole, uma obra prima dos quadrinhos criada por Charles Burns, que iniciou sua carreira na extinta revista RAW, de Art Spiegelman. A incômoda história ambientada nos subúrbios de uma Seattle dos anos 70 conta a trajetória de um grupo de jovens contaminado por uma estranha doença que causa mutações diferentes e inesperadas em cada um dos contaminados. A comparação com o vírus da AIDS é inevitável, não só pelo clima de preconceito, mas também pelo fato da contaminação se espalhar através do ato sexual. Publicado originalmente em 12 edições irregulares nos EUA (a série demorou 10 anos para ser publicada, de 1995 a 2005), a editora Conrad colocou nas bancas o primeiro de dois volumes de 184 páginas. O escritor Daniel Pellizzari ficou encarregado da cuidadosa tradução.