Exobiologia

Meu pai sacode o jornal e olha para mim, concentrado atrás do balcão da oficina eletrônica enquanto tento conectar dois malditos microfios:

— Você sabia que o barbeiro de Neil Armstrong vendeu as mechas de cabelo dele para um colecionador fanático por 3.000 dólares e depois Neil processou o barbeiro e pediu que devolvesse ou o cabelo ou o dinheiro e como o barbeiro não conseguiu o cabelo, teve que dar o dinheiro a Neil, que doou para a caridade?

Respondo sem soltar o ferro de solda de estanho:

— Pai, desculpe não ter respondido sua carta antes. Você me pegou desprevenido e como sabe demoro muito para me decidir, para saber exatamente o que falar. Somos máquinas capazes de fazer certas combinações… Por que devo ler todos esses teóricos? Eu sabia que não deveria consultar tudo isso antes de escrever. Essa conversa infinita, esses pontos de convergência. Um dia assisti à defesa de uma tese e o réu falou disparates engraçadíssimos que quase me fizeram rir lá na retaguarda. Essa teia de relações que tento entender.

O velho fecha o jornal com calma, levanta da poltrona e sai em silêncio. Quando está na porta da oficina, para calmamente e olha para mim, que finjo me entreter com a soldagem dos fios. Coloca o jornal embaixo do braço e fala calmamente, antes de limpar o pé no capacho e me deixar com minhas dúvidas e eletrodos:

— Sempre disse que você deveria estudar exobiologia ou astrofísica.

Resoluções

Decidi não mais utilizar adjetivos nos meus próximos posts. Também não falarei mais bem ou mal de ninguém, não darei opiniões sobre livros lidos ou filmes assistidos e não falarei do meu dia-a-dia, que não tem nada para ser contado. Quase utilizei um adjetivo agora, para qualificar os meus dias, depreciá-los… Não falarei do clima nem de qualquer espécie de evento que irá ocorrer. Também não pedirei aos leitores que comentem meus posts. Pessoalmente, não gosto da palavra “post”, prefiro o mais próximo em português, como “entrada” ou “atualização”, mas não vou utilizar esse blog para pregar meu inexistente desprezo pelos anglicismos. Não vou abandonar o blog e muito menos me comprometer a atualizá-lo diariamente. Não há o que falar ou mostrar todos os dias. Não há interesse pelos meus passos, pelos meus cliques, pelas minhas percepções, interpretações ou decisões. Quem me conhece sabe que não gosto de computadores. Já me ouviu confessar que gostaria de quebrá-los com um machado e jogá-los pela janela do meu apartamento, no oitavo andar. Que torço para que a rede mundial de computadores entre em pane e deixe de funcionar, para que as TVs e rádios deixem de captar suas transmissões, para que as tomadas fiquem vazias de energia elétrica. Assim o mato crescerá rapidamente e tomará as grandes cidades. Os animais voltarão a tomar os lugares de onde foram enxotados e as pessoas precisarão aprender a viver da terra, do que plantam, caçam ou pescam. Não desejo o mal aos humanos e não é porque um dia fui obrigado a matar uma galinha com meus próprios dentes e beber o seu sangue que me sinto em vantagem. Não poderei ser contratado para fazer esse serviço sujo para os outros, pois eles não terão como me pagar. Dinheiro não valerá mais. Por isso decidi deixar de seguir as minhas regras nos próximos posts! Afinal, mesmo com os dentes afiados, ainda sou um homem, não uma besta. Tenho o direito de mudar de opinião.

Manipulador Quasímodo de Sonhos

Manipulador Quasimodo de SonhosSenhores, tenho o prazer de apresentar o Manipulador Quasímodo de Sonhos. O dispositivo MQS permite manipular o sonho de qualquer pessoa remotamente, através de uma interface ergonômica e biocibernética. Mas vamos ao funcionamento do dispositivo: com as mãos mergulhadas nessas duas belezinhas, qualquer um pode navegar no tecido pantanoso do sonho de um indivíduo XY, macho ou fêmea, com estatura média de 1,5m em diante. Infelizmente o engenho não funciona corretamente em espécimes abaixo dessa altura e não há explicação lógica para isso até o momento, mas suspeitamos que o ângulo de plotagem do eixo de dobra esteja alcançando um pico um pouco acentuado, fazendo com que a sublimação dos resultados, quando em impressoras matriciais de 24 agulhas, sofra influência da umidade helicoidal. Nada que um prognóstico mais cartesiano não resolva, no entanto chegamos à conclusão que o prejuízo é mínimo, mesmo que nossa decisão seja politicamente incorreta. Sim, temos amizades várias e mesmo influências nas mais altas camadas do poder público e privado, como naquele jogo de cordões chineses, em que, quanto mais se tenta escapar, mais os dedos ficam presos. Mas como eu ia dizendo, o MQS permite moldar os sonhos como se molda argila fresca, ou como se manipula marionetes. Olhos grudados no monitor, ok? Prestem muita atenção no movimento do espécime enquanto meus dedos sentem as possibilidades, as entranhas da realidade se contorcendo e roendo os cantos das unhas e sem esperar, estou dentro da cabeça do nosso XY, escorregando pela sua garganta viscosa e febril; colhendo maçãs com chapéu panamá em um pomar cercado de paredes lisas e opacas; bebendo café descalço ao lado da torre francesa de metal, que emite ondas de rádio sólidas como teias de aranha feitas de mingau de aveia; correndo por uma floresta de duplicáceas, que imitam um espaçoporto em Singapura, abandonado e enferrujado, que custou 115 milhões de dólares, vindos do setor privado e da comissão de um construtor que ajudou a erguer um patíbulo em Buenos Aires, que causou irritação dos vizinhos e de uma centena de texugos herbívoros e esfomeados loucos para sacrificar um esquadrão de alfaces abandonadas na geladeira…

Por um momento você sacode em sua cadeira, suas mãos deslizam para fora do dispositivo MQS e você percebe que todo o projeto foi uma grande perda de tempo. Engaveta a idéia, toma um café forte o suficiente para acordar dos seus sonhos e lembrar do discurso de apresentação, da alusão aos sonhadores anões e a teia de relações duvidosas. Tudo um erro, sempre o mesmo erro repetitivo e insistente. Anos de pesquisas e experimentos para desenvolver um amontoado de borracha, sensores táteis e microprocessadores orgânicos. Você abre a janela e encara o sol lá fora com seus tentáculos dourado-flamejantes. Sempre aceitando as ordens ditadas pelo destino, sempre se ajoelhando ao capital e a necessidade epicurista destes que insistem em chamá-lo de amigo, pagando refeições caras, sorrindo e pedindo estes dispositivos estúpidos em troca. Agora chega, nada mais terão de você, suas próximas ações, suas próximas palavras, mostrarão que você sabe como virar a mesa, que nada foi em vão, que a matéria-prima de anos de subordinação intelectual será bem utilizada.

Com vocês, uma palavra dos nossos patrocinadores: “Olá, quero lhe falar sobre tubos. Seus tubos são antiquados? Os novos desenhos de tubos dos Serviços Centrais estão agora disponíveis em centenas de cores para satisfazer seus gostos individuais. Corra enquanto ainda é tempo, visite a loja mais próxima dos Serviços Centrais. Cores desenvolvidas para satisfazer seu gosto sofisticado”.

Um homem empurrando um carrinho de compras passa pela frente dos seus olhos. Você vê a loja explodindo e o título “O nascimento do Brasil” preenche toda a tela. Mudança de cena, parágrafo novo.

Esse é o dispositivo MQS senhores, algo que vai transformar a maneira como as pessoas vêem o mundo, algo que vai… transformar as pessoas, a realidade e o mundo. Esse e os outros. Perdoem os meus clichês, mas não tenho dúvida de que a Valis Inc. dá um passo gigantesco para a construção de uma nova era com o dispositivo MQS. Boa noite e passem bem.

Arte aos pedaços

Cut-up executado por William BurroughsTodos os trabalhos intelectuais e artísticos são feitos de pedaços da realidade do autor, da sua interpretação e observação do mundo, partes dos seus medos, traumas e certezas. Atualmente temos à nossa disposição as idéias de um crescente número de pensadores, porque há mais pessoas produzindo e a produção intelectual não está mais apenas nas mãos de um grupo privilegiado de indivíduos como era no passado. No entanto nós nos tornamos escravos da mass media, do marketing e da propaganda. O que nós vemos também é determinado pelo que nós ouvimos. Não somos completamente livres para ler ou escrever o que quisermos, como podemos ingenuamente pensar. Como um vírus, a linguagem nos obriga a construir a realidade de uma forma específica. Temos que dançar a música, seguir e obedecer as regras, não podemos transgredir o sistema. Por outro lado, podemos utilizar a voz de múltiplos indivíduos, desconstruir os seus discursos e recombinar as peças, quebrando as regras gramaticais e produzindo resultados diferentes. Escritores como William Burroughs levaram ao extremo a idéia de utilizar textos de outras fontes e autores para compor sua própria obra. Ele utilizou com sucesso a técnica conhecida como cut-up para compor narrativas esquizofrênicas em sua trilogia cut-up, composta dos livros Soft Machine (1961), The Ticket that Exploded (1962) e Nova Express (1964). Burroughs utilizava textos de várias fontes, encontrados a esmo ou cuidadosamente selecionados, e combinava com seus próprios textos para compor intrincadas narrativas, onde as ações ocorriam em lugares e tempos simultâneos, com novas vozes sussurrando e gritando a cada nova página.

Vários artistas e escritores, cada um em sua época, local e cultura, escaparam da idéia de autor como criador de cada mínima combinação de seus trabalhos. Como Marcel Duchamp uma vez falou, “todo mundo é artista”, porque o simples ato de observar e mentalmente colecionar partes da realidade, é um ato artístico. Como Duchamp gostava de afirmar, o que ele mais gostava era respirar e a sua respiração, superestimada, tornou-se objeto de arte. Fazer arte é representar e descrever o mundo a nossa volta com as peças que temos disponíveis a mão. Neste momento podemos ser Transformadores ou Repetidores, o Transformador será afetado pela combinação de elementos que está produzindo e em resposta irá afetar a combinação de uma forma proporcionalmente igual, enquanto o Repetidor irá se comportar como um espelho frio, que irá refletir e repetir a mesma coisa sem mudanças, ad infinitum.

* A imagem que ilustra este post mostra o escritor William Burroughs executando um cut-up com seu texto datilografado. Sequência de imagens do vídeo “Documentary on the life of William Burroughs”, dirigido por Howard Brookner.

A ficção do real

isto não é um cachimboEu”despubliquei” este artigo temporariamente, para poder dar uma geral, aparar algumas arestas e acrescentar novos desvios milimetricamente calculados. Se você chegou aqui procurando por ele, sinta-se a vontade para fuçar meus outros textos e volte daqui a alguns dias, quando voltarei a publicar este artigo. E lembre-se: o segredo da boa macarronada está no molho!