Peças esqueléticas

Acordou e olhou para o teto, tentando formar figuras geométricas com as estrelas fosforescentes. Suas costas doíam cada dia menos. Era sua primeira noite de sono depois que descobriu que uma de suas vértebras havia desaparecido há duas semanas enquanto dormia. No primeiro dia após o incidente começou o seu sofrimento: dores nas costas; de cabeça; de estômago; insônia; calafrios; disforia. Aturdido, ligou para seu amigo ourives, que ouviu silenciosamente seu lamento, avaliou a situação por alguns segundos, consultou seu Explicatio Tabularum Anatomicarum e relembrou Sêneca: “Até mesmo de um corpúsculo disforme pode sair um espírito realmente forte e virtuoso.” Desligou o telefone decepcionado e sentou no vaso sanitário, exausto, com os cotovelos ossudos machucando suas coxas. A vida parecia um martírio, sem nada de interessante para fazer, para se agarrar e lutar. Convalescente, folheava livros e zapeava pelos canais de TV, tentando encontrar algo que preenchesse aquele buraco em suas costas. Ficou tremendamente aborrecido com toda a ficção científica atual e decepcionado ao constatar que não restava nem um bom filme de deep space para aplacar a sua dor. “Os estúdios estão ficando velhos e repetitivos”, pensou e decidiu preparar um korean ginseng tea gold. Apesar da insistência da esposa, recusava-se a visitar um médico e preferia tratar sua dor abandonando o hábito vil de procurar escaramuças em frascos alcoólicos canforados; praticando a antiga técnica medicinal do suadouro; utilizando emplastros aromáticos e avaliando o cheiro da sua urina diariamente durante as dezenas de banhos com água superaquecida. Agora, lendo o artigo Benefits of Panax Ginseng, finalmente esboçava um sorriso, apesar de desconfiar que seu osso hióide fosse o próximo a abandoná-lo. A dor na parte da frente do pescoço já denunciava a retirada estratégica. Resolveu pensar apenas em coisas boas, como sugeria a esposa de Juan Ramirez ao seu marido após o assassinato do filho em Mavrak. Fechou os olhos sentindo os efeitos do chá e evocando seu mantra protetor: “blood and guts, slice and cut, blood and guts, slice and…” E quando o sono finalmente atendeu ao seu chamado, lembrou do Dr. Benway lambuzado de sangue e com aquele maldito tique nervoso no canto da boca enquanto colocava suas luvas de borracha.

Mimetismo

[Do gr. Mimetós, ‘imitado’, + -ismo.] S. m. Fenômeno que consiste em tomarem diversos animais a cor e configuração dos objetos em cujo meio vivem, ou de outros animais de grupos diferentes. Ocorre no camaleão, em borboletas etc.

Resolvi tomar aulas de mimetismo esta semana. Um professor de uma cidade eslovaca apareceu por aqui oferecendo um curso de algumas semanas. Um curso de mimetismo. Estava com vontade de fazer um cursinho diferente. Pensei em culinária, mas definitivamente, sou da geração microondas. Miojo e macarrão chinês instantâneo em potinho de isopor. “1 – complete com água; 2 – coloque no microondas por 2 min; 3 – Espere esfriar antes de degustar.” Prático, rápido e fulminante. Ultimamente tenho até usado aqueles pauzinhos para comer a gororoba chinesa instantânea. No início era uma tortura, meus dedos doíam, tinha vontade de jogar os pauzinhos longe e devorar tudo usando as mãos mesmo. Já me acostumei, apesar de ainda babar um pouco.

Estou gostando muito das aulas de mimetismo, difícil é todo dia ter que achar o professor. Na primeira aula uma aluna sentou nele pensando que fosse uma das cadeiras. Na hora em que resolveu colar um chiclete embaixo da cadeira sentiu algo peludo. “Ai! Tira a mão daí, menina!” Ela saiu correndo e berrando porta afora. Jogou um processo em cima dele por assédio sexual. Para a sorte do professor, o advogado dela ainda não conseguiu encontrá-lo para entregar a intimação!

Sinto que estou progredindo cada vez mais. Ontem me mimetizei tão bem que nem eu mesmo consegui me achar. Tive que berrar para minha irmã me ajudar, Ela veio correndo do quarto dela até o meu, ofegante: “qui foi, qui foi?” Expliquei a situação, na noite passada eu havia pegado no sono tentando criar a obra-prima do mimetismo, naquele momento não conseguia me lembrar mais no que havia me mimetizado. Ela procurou a manhã inteira, eu já estava morrendo de fome, sem saber o que fazer: “tá esquentando, tá esquentando, ih, esfriou”. Então pude ouvi-la sussurrando: “talvez com a luminária acessa eu consiga vasculhar melhor o ambiente”. Dei um berro de pavor antes que ela conectasse meus dedos do pé na tomada pensando que fosse o plug. Foi por pouco, quase que eu virava churrasquinho. Fiquei traumatizou com esta experiência, não sei se vou continuar com as aulas de mimetismo. Peguei o jornal de hoje e encontrei nos classificados um curso mais seguro pra fazer: “Aprenda a hibernar pelo resto do novo milênio em cinco lições práticas” Quem sabe, quem sabe…

(publicado na Revista Poté Nº6, EduFSC, 2000. p.24)

Seu animal

Quanto ao seu animal, algo me preocupa nele. Quando aceitei a tarefa de tratá-lo em sua ausência, não sabia exatamente o que precisava ser feito. “É apenas um animal”, pensei enquanto tomávamos o café de despedida e você instruía-me sobre como proceder. Lembro que quando você o trouxe ele parecia muito assustado e logo foi se esconder na despensa. Então, como sempre, fiquei perdido em meus próprios pensamentos enquanto você apontava o saco de ração e dizia algo que já nem sei mais o que era. Ah, caro amigo, nunca aprendi a ouvir as pessoas, sou um canalha, um egoísta. Fico entediado com tudo e com todos e espero o máximo de atenção destas mesmas pessoas que ignoro. Então eu balançava a cabeça e concordava com tudo o que você me falava, mastigando pães e bolachas e bebendo chá. Nem me dei ao trabalho de perguntar para onde você viajaria e quando voltaria. Quer dizer, perguntei sim, e você respondeu. Confesso agora que perguntei por educação, perguntei para mostrar interesse e para parecer um sujeito normal. Lembro que fingi estar feliz com sua viagem, seria de trem, se não me engano. Na porta, enquanto nos abraçávamos, você me passava as últimas recomendações a respeito do seu animal. Você levantou o dedo, gesticulou e balançou a cabeça de um lado para o outro.

A primeira noite foi horrível, o animal chorava sem parar e não me deixou dormir. Fiquei com muita raiva. Fui até a despensa e berrei com ele, que por um instante ficou em silêncio. Voltei para o meu quarto, e quando estava voltando a cochilar, o animal retornou com as lamúrias. Saltei da cama com raiva. Não conseguia ver nada dentro da despensa, pois a lâmpada estava queimada e não tenho lanterna. O choro do animal era insuportável. Eu já havia colocado potes com água e comida na porta da despensa mas ele continuava. De qualquer forma, mesmo com o choro, consegui dormir naquela noite.

Na manhã seguinte descobri que a água e a comida estavam intactas, como eu havia deixado na outra noite. Durante todo o dia não ouvi um único sinal de vida do animal. Aquilo me alegrou mais do que preocupou. Eu tinha muito o que ler durante o dia e não suportaria aquele choro infernal. Veja, adoro animais, mas deveria ter confessado antes para você que odeio tratá-los ou ouvir seus ruídos. Assim, era cômodo para mim o silêncio da criatura.

Três dias se passaram e eu esqueci completamente que tinha um hóspede na despensa. Durante esse tempo ele não mais me incomodou, não mais me lembrou de sua existência. Na quarta à noite, enquanto estava na cama lendo um conto de Cortázar, lembrei-me do animal e meu coração deu um pulo. Corri para a despensa, e na porta, vi que a água e a comida continuavam intocadas. O que havia acontecido com o desgraçado? Eu estava transtornado e enraivecido por ter aceitado a tarefa. Agora, na escuridão, eu não poderia fazer nada. Resolvi voltar para cama, onde não consegui continuar minha leitura de forma alguma. O sono demorou muito para chegar.

Entrei na despensa com um velho lampião de querosene, nas paredes, nos varais e nas laranjeiras, várias teias de aranha brilhavam e refletiam a luz do fogo. Teias vazias de suas donas. Avistei um quadrado de vidro um pouco mais à frente, como um grande aquário, estava habitado por várias aranhas. Como em uma arena elas se atacavam e se devoravam. Em um canto do “viveiro” um recém nascido balançava os minúsculos braços com um sorriso estampado na cara sem olhos. Aranhas entravam pelas suas narinas em uma ordenada fila indiana, como formigas operárias. Enquanto isso outras aranhas pareciam enrolar o pequeno corpo do bebê em suas teias. Aquilo me interessava muito e eu ficaria ali por horas vendo as aranhas devorarem o pequeno humano, mas precisava continuar minha procura.

Sentei em uma pedra e então finalmente vi o animal a uma certa distância, bebendo água em um riacho. Parecia estar recoberto com algo. O lampião não iluminava o suficiente. Cheguei mais perto dele, que parecia não se incomodar com minha presença, e então percebi que estava recoberto com sangue, talvez seu próprio sangue, que escapava de vários pequenos ferimentos pelo corpo. Precisava agora levá-lo dali, tratar seus ferimentos e dar-lhe comida e abrigo. Quando fui tentar pegá-lo no colo ele atacou e quase dilacerou minha mão, não fosse eu chutá-lo com força. A raiva então tomou conta de mim e mesmo com a mão arrebentada e sangrando eu resolvi ir a desforra. Peguei uma pedra e acertei-lhe o crânio. O animal caiu e começou a chorar, aquele mesmo choro que eu já conhecia. Não satisfeito eu bati sucessivas vezes com a pedra em sua cabeça, até que ele silenciasse completamente e eu conseguisse ver seus miolos! Sentei a seu lado e comecei a chorar, de pena, de raiva pela sua traição. Os animais não deveriam trair, apenas os homens. Levantei-me, peguei o lampião e fiz o caminho de volta, quando passei pelo viveiro de aranhas o bebê já estava completamente enrolado pela teia e se contorcia como uma larva. logo as aranhas iriam digeri-lo, sugar seus líquidos vitais. Passei pelas laranjeiras e pelos varais. Minha mão latejava muito, mas eu me recusava a olhá-la.

Almoço de domingo

Fugi quando minha mãe chamava todos os familiares para o almoço de domingo, que geralmente contém batatas em forma de maionese e desenhos animados na sala de estar. Corri antes mesmo que o caminhão com a mobília da nova vizinha manca abrisse as duas grandes portas da retaguarda e fizesse esvoaçar a conhecida poeira da mudança em dias de domingo nublado. Quando cheguei na banca da esquina o jornaleiro adivinhou que eu procurava me refugiar do frango assado e abriu o alçapão camuflado pela pilha de encalhe com os jornais de sábado, quando todos se recusaram a aceitar a manchete da capa sobre a queda da muralha da china por um grupo de cidadãos que se dispuseram a pular todos ao mesmo tempo com o pretexto de tirar a terra do seu eixo, mesmo que por alguns míseros instantes. Ainda tive tempo de encher o cantil com calda de picolé derretido antes que o jornaleiro me desse uma rasteira e eu caísse rolando em um grande poço de no mínimo (senão igual) a uma boa dezena de centenas de metros à direita do açougue, que sofria com o derretimento de quartos de boi do campo recém carimbados e vermelhos devido ao sangue drenado e transformado em morcela antes mesmo do frigorífico ter ficado sem energia elétrica. As pessoas se amontoavam para comprar velas no mercadinho da esquina quando entrei correndo e berrando “incêndio” a plenos pulmões apenas para não precisar enfrentar a fila do caixa e poder pegar meia dúzia de balas de banana e um pacote prateado de batatas fritas trangênicas sabor churrasco. Liguei para casa e falei com a camisa esticada em cima do fone, insistindo que o “prisioneiro” passava bem e seria entregue em poucos minutos, com uma amnésia crônica e por isso nunca poderia nos identificar, nós que estudávamos a raça humana por tanto tempo e tínhamos a capacidade de encher os estômagos desses “símios” com alimentação suficiente para agüentar até a janta, desde que ela não fosse composta de maionese gelada do meio dia. Do outro lado da linha o ser genitor parecia pensar cuidadosamente no caso: ouvia-se apenas uma respiração e (quase inaudível, em background) a contagem de números em ordem progressiva. Depois de uma rápida negociação passei os dígitos da minha conta em alguma ilha caribenha e lembrei que dentro de pouco tempo o alçapão mágico do jornaleiro se fecharia, merecendo minha atenção especial. Fui ao posto de gasolina e pedi cinco sacos de emergência, dizendo que meu rico pai diplomata pagaria em dobro se algum dos saudáveis rapazes que ali trabalhavam pudessem me acompanhar até o automóvel que estava lá embaixo atravancando o trânsito, pronto para ser multado por um guarda de quepe marrom e calças curtas atochadas em sua pequena bunda. Enquanto eu e o escolhido corríamos para o local do crime, cada um levando um saco e meio de combustível, ganhei sua confiança através da confissão das mais íntimas e infantis fantasias sexuais, e então proclamei que me pai preferia gasolina azul de antigos biplanos já em extinção devido à suja concorrência com os concordes de bicos retráteis. Choramos abraçados enquanto derramávamos quase a totalidade do líquido volátil sobre um conjunto de formigueiros feitos com palhas de milho bem à beira de uma estrada que fica a duas quadras da janela do sótão da minha casa. Puxei o capuz preto para que ninguém me reconhecesse, senão teria que solicitar a ajuda do frentista que admirava com seus olhos sorrateiros de homem santo enquanto o fogo torrava os milhares de corpos já negros das criaturas coletivas e descerebradas que talvez nem mesmo tivessem o bom hábito de sentar aos domingos em uma sala de jantar com os filhos para comer maionese com frango frito e ver desenhos animados. Depois de convencer o frentista de que o melhor remédio seria nos separarmos antes que os vietcongues sentissem o cheiro das formigas torradas, corri para a padaria disposto a comprar um pacote de finos pães sírios para agradar minha pobre mãe, que há esta hora já deveria estar ligando para o esquadrão antibomba ou outro aparelho do tipo, a fim de entrar em contato com os seqüestradores extraterrenos. Enquanto olhava para os números que não paravam de transmutar verdemente em meu relógio de pulso eu corria para a banca em busca do portal sagrado que me entregaria são e salvo para meus genitores. Durante o trajeto senti aquela incomoda sensação quando meu tênis fabricado pela infantil mão-de-obra barata de algum país oriental devorou completamente minha meia com a bandeira daquele país que explora o primeiro com suas propagandas de gente impossivelmente feliz, bonita e saudável correndo em dias maravilhosos. O ingênuo devaneio geopolítico não me impediu de rasgar a bandeira com nojo vomitesco e lançá-la na primeira grade de bueiro ainda em funcionamento àquela hora da tarde. Olhei então para as rugas da minha cara refletidas em uma poça d’água e me surpreendi com a velocidade com que aquele dia havia passado. Podia ver o zinco da banca refletindo o pouco sol amarelo do entardecer por trás da cadeia de montanhas forradas de mata atlântica reflorestada. Um tele-transporte seria arriscado naquela hora, por isso optei por dois pacotes de figurinhas de jogadores de futebol e o jornal de domingo, que pingava um pouco de calda de frutas dos picolés empilhados no freezer gorgolejante. Regateei com o jornaleiro e ele prometeu de joelhos que sua velha mãe precisava fazer uma dezena de cirurgias e por isso o melhor seria um tiro de carabina que estava tão cara que mesmo penhorando toda sua mobília seria impossível conseguir a quantia antes da jogatina do próximo final de semana. Levantei a mão em silêncio, desgostoso com suas lamúrias e ele me deu um caramelo em troca de minha compreensão. Quando cheguei em casa todos me esperavam no hall de entrada com suas caras estupefatas. Joguei com carinho o pacote de pães sírios no colo da minha mãe e durante um mortal por cima da mesa de centro (já estávamos todos na sala de estar), arremessei o jornal no colo de meu pai. Meu avô paterno foi o único que sorriu, mesmo sem tirar o cachimbo manchuriano da boca enrugada. Propus uma reunião em volta de uma fogueira no centro da cozinha, que era forrada de pisos não inflamáveis feitos de cerâmica refratária assada em fornos a temperaturas já tão escaldantes. Dessa vez não conquistei nem mesmo a simpatia de meu avô, podia ver isso em seu retratado rosto empoeirado. Sentei na cama e olhei os meus familiares em cima da penteadeira de madeira descascada, todos me acusando com seus estáticos olhares de reprovação. Tentei ainda argumentar em meu favor, mas obtive apenas o silêncio do grupo enfileirado como pedras de dominó.

(publicado no 5º Conto e Poesia do Sinergia, 2005. p.11)

Caro irmão

Hoje cheguei ao povoado. Nesse momento estou na casa de uma simpática senhora que costuma hospedas os inexistentes viajantes que misteriosamente surgem nesta região. Contei a ela meus planos de morar aqui e pedi informações sobre um possível terreno à venda. Ela ficou surpresa que um “moço da cidade” tivesse interesse de morar neste “lugar esquecida por deus”. Disse a ela que planejo passar apenas algum tempo. Senti hoje, logo que cheguei aqui, uma estranha sensação de paz interior. Confesso que sinto falta de computadores conectados a internet e outras bugigangas da mesma família, coisas às quais eu estava tão intimamente ligado no meu trabalho, na minha vida. Felizmente trouxe esta velha máquina de datilografar, pois não conseguiria lhe escrever esta carta à mão! De qualquer forma estou bem…

Ah, como sou incompetente em mentir! Não sou capaz disso meu irmão, não estou em paz! Estou tremendo, coisas me incomodam. Ao falar de meus planos tive a certeza de que esta senhora é um maldito lagarto! Quando desviei meus olhos dela por um instante vi algo, uma sombra nas lentes de meus óculos, algo que me deixou aterrorizado e faz minha barriga doer agora. Também antes de chegar aqui havia encontrado um velho senhor capinando na beirada da estrada, ele pareceu me dizer algo tão tranqüilo e simples e percebi no fundo de seu estômago algo se contorcendo, algum organismo vivo que havia sido frito com a gordura do próprio corpo. A cidade inteira parece ser habitada por esses simulacros de boa e simples gente, meu irmão. Você consegue imaginar meu terror? Esperei tanto tempo por este momento, tantos planos, tantas certezas, e agora isso! O horror, o profundo desconforto, a dor. Como posso colocar em palavras o que sinto? É algum castigo não poder me refugiar longe dos meus pesadelos? Eu vejo as coisas, não é minha vontade, mas eu sei, consigo ver a miséria no interior destas criaturas.

Pretendia escrever uma carta com boas notícias para você, pretendia esquecer o que vi hoje, mas precisava desabafar com alguém, mesmo não tendo certeza se você receberá esta carta. As palavras no papel ajudam a me acalmar. Ajudam sim. Queria poder viver em paz, parar de ser perseguido. O que querem de mim? Por que me torturam? Fugi porque resolvi parar de procurar respostas para estas questões. Tenho certeza agora de que nunca conseguirei, tenho a prova cabal disso em torno de mim, do outro lado destas paredes velhas.

Meus pés doem meu irmão, doem como se estivessem sendo devorados por formigas. É outra forma de ver a vida, é outra forma de criar os parâmetros! Preciso deles para poder me libertar desta prisão. Preciso lhe falar ainda a respeito das outras pessoas que me espreitam aqui, que fazem eu me sentir assim. Os objetos dançam vagarosamente aqui neste quarto simples. O homem da carroça, a filha da dona desta estalagem, o padre na frente da pequena igreja… Todos eles. Juro que não tomei nenhuma droga hoje, nem mesmo os fármacos receitados. Queria entrar puro em um reino que considerava puro. Meus batimentos cardíacos continuam acelerados.

(publicado no O Novo Conto Catarina, EduFSC, 2008. p.15, na versão on-line do jornal A Notícia e também no jornal Ô Catarina nº66. p.3, que pode ser baixado aqui)

Rosalie e os Spammers

Introdução

O conto a seguir nasceu através da técnica cut-up do Burroughs, depois com a ajuda do tradutor on-line do Google e finalmente da necessidade de uma continuação para o texto Primeiro Relatório, descaradamente inspirado no Naked Lunch. Rosalie… foi originalmente escrito em inglês, há dois anos atrás e publicado no Satunsat. Usei várias mensagens que habitavam minha caixa de spam para construí-lo. Cortadas e coladas a esmo em meu editor de texto, e depois minimamente organizadas e conectadas para tentar criar algo compreensível. No entanto persistiu uma ilegibilidade extrema, que parecia não levar a lugar algum. Mesmo assim resolvi publicá-lo no Tza, pois a idéia lá era experimentar. Quando voltei ao texto hoje, percebi que havia sim algumas boas construções aproveitáveis, nascidas de uma composição quase ao acaso. Então resolvi adicionar à equação as construções automatizadas de um tradutor eletrônico e depois retrabalhei o texto completamente, adicionando novas frases, corrigindo traduções truncadas, deslocando, apagando, concatenando, agregando, pontuando. O texto final tem pouco em comum com o original em inglês. Não chega a ser uma narrativa linear e convencional, mas tenta seguir certa linha de raciocínio, que não é completamente alcançada devido a condição na qual o narrador se encontra, portanto é proposital. Mas Rosalie e os Spammer não deve agradar todo mundo. Na verdade não deve agradar ninguém, já que pouquíssimas pessoas lêem esse blog (duas ou três, contando comigo e com os Spyders do Google e do Yahoo, que nunca deixam comentários). Bem, mas chega de balela, vamos ao conto:

Rosalie e os Spammers

Com o peito aberto na mesa de cirurgia, você tenta conectar os fatos. Pagando sua dívida, as botas vistas de trás, andando naquela noite chuvosa. Ela não pode esconder a admiração por você e observa metade do volume como ele seria pela dor na execução do procedimento pago a dois dólares por dia. Você conhece um homem que pretende utilizar este fundo para colocar em prática suas férias. Os outros querem oferecer-se para caçar o órgão solicitado ao Sr. Finny Monstros em Profundidade, que entrou em sintonia com os melhores poetas das casas ilegais. Sua esposa, uma mulher bonita, mas ainda desbotada, acolheu-nos com pouco entusiasmo, com a ajuda de vários frascos de tinta que havíamos trazido. Noel, Bong, Mailer, e mais uma aventureira chamada Dreary que tivemos de trazer conosco. Para nós Noel havia aprendido a sua hierarquia militar com seu servo, que se opôs a ele com uma vela, no primeiro lançamento de mísseis com a presença não solicitada dos deputados, a fim de descobrir o efeito da explosão nos municípios, como foi divulgado nas agências de correio de todo o país. Seu carro parou antes da porta e lá estava Rosalie derretida em lágrimas. “Escreva-me” disse ela. A casa havia sido ocupada por dezoito homens, como em um investimento arriscado de longo prazo. A lama foi se espalhando como crianças no jardim de infância até que surgiu sob seus pés e tomou a forma humana para se apossar do seu dinheiro, mas muitas outras vezes após a perfuração da parede pelas vacas no transcorrer da noite, foi condenado a uma pena não merecida. A anestesia fazendo efeito.

Ela fazia tanta questão de frisar todos os “erres” que precisei pular da cadeira com o instrumento na mão. Quem iria adivinhar que você seria aluno de uma trompetista da saúde em uma viagem de dois meses, com o seu coração pulsando, pressionado a cada momento pelos grandes lábios de Sophie, que sempre tinha mais uma pergunta sobre seu irmão britânico. Para que o tempo nunca tivesse adquirido qualquer vantagem importante entregou uma centena de milhar de noventa centavos ou privadas açucaradas, trinta ou quarenta coronéis, perto de todos os funcionários usando chapéus com o cordeiro assado, e renovando seu vestido vermelho que foi escondido na vala à procura de sua biografia, que ficará para a história como um exterminador de cupins. Ele irá produzir em menos tempo e com melhor qualidade, explodindo os cinco municípios que devem proceder com a evacuação antes do pôr-do-sol. Eu preferiria que ele tivesse me consultado antes de aceitar a não-filiação a um partido qualquer, mas era evidente que ele tentou evitar, no entanto parecia sucumbir à necessidade do seu ferrão teleguiado. O Senhor Y foi de fato, tal como os outros, portador de semelhantes tentativas e passou ao largo da sociedade para ridicularizar a maior parte dos seus investidores sem moral. Na manhã seguinte ela veio para corromper a sua mãe com uma proposta que a levou ao desespero. Seu comerciante tinha visto ela, e quis comprar a bela flor. A pornografia está lá fora e captura para nós a felicidade do glorioso pássaro de ouro, não deixando escapar nenhuma gota que anteriormente era utilizada para a polis, um lugar de arruaceiros que haviam realizado o trabalho por vinte anos. O estado se agarrou aos pés do prefeito Gang Plank, ele fatiando e devorando um editor com tetas e cantando a portinhola sobre a mesa de brilhar no momento em que nós andávamos para o banco dos réus. Estou muito impressionado com o comportamento de Cork, nos obrigando a jogar aquela partida contra a marinha e precisando agir como nosso inimigo, uma vez que o exército pode e deve ser a pedra na parede por onde as vacas caminharam. Irk Oracle Junket olhou para seus companheiros de equipe através dos óculos e das máscaras brancas. Retiram-se, não havia o que fazer, as máquinas foram desativadas.

O novo conto catarina

Na próxima terça-feira, dia 29 de abril, às 19 horas, lá no Hall da Reitoria da UFSC será o lançamento do livro “O novo conto catarina”, organizado pela Regina Carvalho. Este que vos escreve tem um conto publicado na coletânea. Segue abaixo o convite do lançamento. E estão todos convidados!

Segue o release do lançamento, retirado do site da EdUFSC:

Livro reúne 31 contos de novos autores catarinenses

Organizado pela professora Regina Carvalho, volume da EdUFSC junta escritores que já publicaram mas são pouco conhecidos, nomes que permanecem inéditos mesmo tendo qualidade e jovens que estão em busca de espaço para mostrar sua produção

Escritores nascidos entre 1943 e 1984, a maioria em território catarinense, estão no livro “O novo conto catarina”, que a Editora da UFSC lança no dia 29 de abril, às 19h, no hall da Reitoria da Universidade. O ‘novo’ diz respeito tanto à idade dos autores, na maioria dos casos nascidos nos anos 70 e 80 – e que estão, portanto, na faixa dos 25 aos 35 anos –, quanto ao ineditismo de seus textos. E o ‘catarina’ refere-se a contistas naturais do Estado ou que adotaram Santa Catarina e “trazem nossa terra como pano de fundo”, na expressão da escritora e professora aposentada Regina Carvalho, responsável pela seleção e organização dos 31 contos do volume.

A edição fecha as comemorações dos 25 anos da EdUFSC e foi viabilizada pelo apoio da Mongeral Seguros e Previdência, empresa criada em 1835 e que é especialista no desenvolvimento de soluções previdenciárias individuais. Parte dos 6.000 exemplares será distribuída à comunidade universitária.

No livro estão nomes que já publicaram, mas em outras áreas, como os poetas Dennis Radünz, Marco Vasques e Renato Tapado, o romancista Ivan Panchiniak e os jornalistas Dauro Veras e Raquel Wandelli. Há contistas respeitados como Carlos Henrique Schroeder, Maicon Tenfen, Inês Mafra, Jaime Ambrósio e Rubens Lunge e representantes da chamada ‘novíssima geração’, que nasceu na década de 80, como Vanessa Clasen, Willian Vieira e Camille Bropp. Alguns publicaram em suas cidades e, na prática, continuam inéditos, porque seus livros não romperam as fronteiras regionais.

“O livro reúne contos de horror, policiais, românticos e até infantis”, conta a organizadora, que ressalta, além da variedade dos temas, a qualidade dos autores, mesmo quando sua produção permanece nas gavetas. Regina Carvalho diz que a experiência foi trabalhosa, mas produtiva, porque permitiu o contato com autores de diferentes regiões, idades e profissões, alguns dos quais se tornaram seus amigos. Muitos indicaram outros nomes, pessoas conhecidas que também escreviam, e assim o processo de seleção foi se tornando cada vez mais árduo e revelador.

“Conheci novos autores, eu que vivo de lê-los, estudá-los, aprender com eles para minha própria produção, e para a de meus alunos nos oficinas ministradas”, relata ela no prefácio do livro. A organizadora diz que “está se fazendo de tudo” na literatura catarinense e que, neste sentido, o livro consegue ser tão eclético quanto é rica a configuração cultural do Estado. “Não pode haver coisa mais maravilhosa do que essa diversidade, como maravilhosa é a diversidade de olhares sobre a vida, sobre o ser humano, sobre todas as possibilidades de existência e criação que só a literatura nos sabe e pode proporcionar”, ressalta.

Professora do curso de Jornalismo da UFSC durante 10 anos, Regina Carvalho é mestre em Teoria da Literatura, faz parte do conselho editorial da Editora da UFSC e publicou os livros “O sapo azul”, “o sim da poesia” e “A sapinha meiga”. Atualmente, realiza pesquisas sobre a literatura catarinense e música popular brasileira, e prepara um livro sobre a obra do cantor João Bosco. Ela é neta do escritor Tito Carvalho e sobrinha do também escritor Almiro Caldeira, falecido no ano passado.

Quem está no livro

Os textos publicados em “O novo conto Catarina” são de Adriano Marcelo de Souza, Aleph Ozuas, Ana Paula Fehrlen, Camille Bropp, Carlos Henrique Schroeder, Charles Silva, Clarmi Regis, Dauro Veras, Denise Ravizzoni, Dennis Radünz, Egídio Mariano do Nascimento, Fernando Floriani Petry, Francisco Orlandi Neto, Inês da Silva Mafra, Isadora Pamplona Genecco Moreira, Ivan J. Panchiniak, Jaime Ambrósio, Ludmila Gadotti Bolda, Maicon Tenfen, Marco Vasques, Moacir Loth, Raquel Wandelli, Renato Tapado, Rodrigo Schwarz, Rubens Lunge, Sigval Schaitel, Suzana Mafra, Vanessa Clasen, Vera Maria Flesch, Werner Neuert e Willian Vieira.

O retorno dos pés

pés

Ele olhou para os pés descalços, ainda havia uma pequena chance. Poderia escalar a pilha de caixas de alho e depois de um breve mortal, iniciar a retomada da cidadela, a cidadela adormecida ao pé do morro dos homens de pescoços torcidos, como no sonho. Homens com cabeça de meio peixe. Depois de um pouco de leitura sobre a geopolítica ele dominaria todos os caminhos, cada nuance, para poder chegar até seu destino. Lembraria com calma de construir seus personagens tanto planos como também esféricos, mas que não morressem subitamente como os criados pelo senhor Foster. Poderia realmente deixar sua marca para que as gerações seguintes o venerassem como são venerados os grandes conquistadores? Ele ficou lá sentado por vinte anos, olhando para a cidadela, tentando decidir seu destino, depois se levantou e resolveu dormir, para retomar a tarefa no dia seguinte, quando teria mais umas duas décadas ao seu dispor. Um de seus pés se movimentava com fúria, o outro insistia em permanecer ali grudado ao solo, como se tivesse criado raízes invisíveis, brotadas por baixo da sola deste seu pé teimoso. Dedilhava com facilidade e pensava nos amigos próximos, como se sua realidade não fosse mais expansível do que esses meros níveis. Precisava ser mais compreensível com a humanidade, precisava ouvir pessoas novas, com novas idéias e começar a selecionar seu novo círculo de relacionamentos, como em uma grande bola de neve, sem ter as mãos presas. Mas os homens de pescoço torcido estariam vigiando a noite inteira, como caranguejos de patas lisas, com seu exoesqueleto rosado, suas cabeças de lagarto gordo. E ele estava fora de controle, havia bebido muito aiuasca misturada com hipnóticos farmacológicos. Sentou-se, o pé ainda imóvel, crente de que a terra o englobaria mais uma vez. Poderia ser como Paul Rabbit, tinha esta certeza, não fossem as vespas assassinas insistirem em chamá-lo, em coro, durante toda a madrugada. Aquele livrinho de física quântica, com desenhos bonitinhos, dado a ele pelo amigo barrigudo, seria um bom início para a nova revolução cultural, nada nos moldes da época de Mao, por Júpiter! Ele precisava de um bom banho de ácido, longe dos tubérculos que agora se enrolavam em sua perna. Entraria em seu guarda roupas, pegaria seu novo traje de lodo e iria ler um pouco do mestre Moore, com aquela barba enorme, mas conhecedor de alucinógenos inimagináveis, e também do tantrismo. Mestre Moore, que tanto o ensinou nos últimos dias e que tanto ainda o ensinará. Seu pé já dava sinais de afrouxamento, bastava falar um pouco sobre as realidades, mesmo que pastosas como manteiga, como dedilhadores eunucos ou pedaladores de bicicletas na chuva. Estas construções, esta vontade de fugir de si mesmo, de abandonar o próprio corpo e olhá-lo de fora ou mesmo de virá-lo do avesso, como em um experimento, ou de cortar todos os seus laços com o mundo exterior, seria o mais inumano que ele poderia fazer consigo mesmo, vigiando os homens com cabeça de peixe lá embaixo, sem vontade de escalar o amontoado de caixas de alho. A culpa era daquela criatura atrás de uma mesa, sentado com suas orelhas salientes, em um quarto escuro e pensando em abandonar a si mesmo. Plano, demasiadamente plano. Como poderia torná-lo real, de carne e osso?

Mas não é para a ficção bater à porta de madrugada, com frio e toda ensopada, pedindo abrigo e comida, soluçando coisas sem sentido. Matéria-prima dela mesma, se reconstruindo a cada segundo, congelada em um tempo-espaço completamente particular. O material de que somos construídos não passa de algumas dezenas de substâncias essenciais a nossa existência. Organicamente falando somos apenas uma coleção dessas substâncias. Mas não entendo o suficiente de química e biologia para poder explicar aos caros senhores, que agora me rodeiam nesta sala escura, para explicar aos senhores que não tenho as respostas que procuram, e não adianta entreolharem-se e cochicharem entre si, praguejarem sobre minha escolha estilística ou meu corte de cabelo. Como podem ver, o pé continua enraizado, entranhado neste solo movediço que os senhores chamam de arena, mesmo que ainda não tenham soltado o leão para me devorar. Os senhores me conhecem bem? Poderiam dar um testemunho de meu trabalho, de meus esforços para combater o exército de homens com cabeças de peixes, vestido nesta pele de homem com pés descalços?

Em meu escritório, com paletó e gravata, sentado à mesa de trabalho, relembro a reação daqueles imundos enquanto entrevisto seriamente este nobre rapaz que está à minha frente e insiste que eu leia seu currículo, que deposito com cuidado na lata de lixo, com toda a calma do mundo para que ele veja a mensagem nos meus olhos: para entrar na empresa ele precisará passar por alguns testes, alguns que criei para dificultar um pouco a vida de jovens novatos como ele. Digo a ele que hoje já dormi demais, já enfrentei dragões demais e agora busco apenas um pouco de sossego. Não deixo que ele perceba que meu pé está preso embaixo da mesa, como se estivesse colado no carpet. Apenas este pequeno detalhe para que eu não me esqueça de minha condição, de minha missão. O rapaz titubeia nas respostas e cai ferido aos meus pés. Tento a manobra de ressuscitamento cardio-pulmonar por alguns minutos, mas não tenho sucesso. Pego o desfibrilador e aplico milhares de volts em sua cabeça, mas também não consigo resultado. Subo a plataforma até os céus, onde os raios da tempestade poderão trazer novamente a vida à carne antes inerte. A turba continua tentando derrubar as portas de meu castelo e então eu fujo para baixo da terra, onde estarei à beira do Poço de Lazarus rodeado pelos morlocks, minha única saída, caso eu conseguisse mover meu pé direito, que de repente se solta e me faz sapatear como louco e juntos nós damos a volta ao mundo, dançando e cativando todos por onde passamos. Décadas e mais décadas de apresentações de sucesso, sempre bebendo e fumando além da conta, até que todos os meus órgãos internos não aceitam mais aquele tratamento imundo e me jogam para a rua, para o esgoto que é meu lugar, que desemboca no oceano quentinho. Flutuamos juntos por mais algumas décadas, sempre olhando para o sol e as estrelas, que correm tão rápido no céu, e nem ao menos torram ou congelam minha carcaça. Pego todas as correntes marítimas possíveis e depois de tantos milênios, nem sei mais como me comportar corretamente em uma ocasião social. Se eu escalar a pilha de caixas, não poderei ver com clareza a chaminé da minha casinha de campo. Não poderei cozinhar ou me banhar em paz.

Na praia, fui acordado pelas lambidas na cara de um cão com dois rabos. Quando um dos rabos abanava o cão estava feliz, quando nenhum dos rabos abanava o cão tinha fome, mas quando os dois rabos abanavam, uma catástrofe ocorria. Era meu cão e apenas eu sabia de sua capacidade, não é verdade Rex? Lembra de quando comeu meus dois amigos, depois que se mataram mutuamente naquela noite da autópsia? Rex abana os dois rabos em resposta e eu sinto uma pontada em meu coração, chega minha hora. Deito em seu colo e peço desculpas por tê-lo abandonado durante todos estes anos. Você me perdoa Rex? Poderia me contar uma estória para que eu possa dormir em paz?

A lesma

uma pequena lesmaAchei uma pequena lesma que parecia estar meio fraca, castigada pelo sol. Peguei e levei-a para meu apartamento, no terceiro andar. Chegando lá resolvi hidratá-la. Acabei deixando a coitada cair em uma panela de lentilha salgada que havia na mesa. Pobrezinha, todos sabem que lesmas odeiam sal. Levei-a para o chuveiro a fim de lavá-la e ela escorregou pelo ralo. Arranquei a tampa e consegui resgatá-la novamente. No entanto seu corpo se movimentava com dificuldade, com espasmos involuntários, resultados prováveis da quantidade de produtos químicos que fica depositada no sifão. Peguei-a e coloquei em cima do murinho de minha sacada. Pobrezinha, novamente eu a estava maltratando. O mármore que cobre o muro de minha sacada estava quente e ela começou a se contorcer. Pude perceber seu sofrimento. Então peguei água para jogar no mármore a fim de esfriá-lo. Foi o que fiz, mas ao jogar a água o seu fluxo acabou levando o animalzinho pela pequena correnteza e ele caiu lá embaixo, na pedra brita quente em frente à entrada do meu prédio. Desci correndo as escadas já pensando no pior. Chegando lá comecei a rastrear as pedras a sua procura. Olhei para cima e imaginei: “Se havia vento quando ela caiu, ela deve estar por aqui. Se não havia ela deve estar bem na reta da minha sacada”. O zelador do condomínio estava perambulando por ali e quis saber o que eu procurava. Tive que mentir: “Sou biólogo e estava fazendo umas experiências com uma lesma, ela acabou escapando e caiu pela minha janela. Como as experiências já estavam em um estágio avançado eu gostaria de achá-la ao invés de repetir todo o processo desde o começo com outra lesma”. Acabei de falar isso e vi a pobrezinha fritando em cima de umas pedras. Não sabia se ainda haveria tempo. Peguei-a e corri para uma torneira próxima, ela pareceu reagir mas notei que seu pequeno corpo estava todo machucado. Foi nessa hora que encontrei um jornalista que tinha uma jangada e com ela poderíamos dar uma volta no rio perto do cemitério, onde eu poderia soltar a lesma. Ele começou a resmungar umas coisas que não entendi e que não me interessavam, pois estava preocupado mesmo era com a lesma. Várias pessoas perambulavam pelo cemitério neste momento, havia algumas que carregavam eletrodomésticos, tvs e geladeiras nas costas, como um bando de formigas. O jornalista comentou então que poderíamos, por caridade, ajudar uma dessas pobre almas a carregar algo com a jangada. Consenti com a cabeça, mas primeiro precisava resolver algo pendente. Pedi que ele parasse em um ponto onde a correnteza era fraca e a água límpida. Peguei então a lesma que tinha em mãos e mal se movimentava e coloquei na água. No mesmo instante ela pareceu se transformar, ganhar uma nova vida. Sua cor até mudou e ela começou a nadar feliz, movimentando seu rabo e contorcendo o corpo. Em minha vontade cega de salvá-la acabei não percebendo um pequeno pássaro preto e faminto que nadava bem próximo. Talvez a sombra do barco o houvesse escondido. A ave investiu contra a lesma e ela escondeu-se em uma rachadura no leito do rio. O pássaro mergulhou seu bico na rachadura. Mergulhei a mão e puxei-o pelas penas, mas ele parecia não se preocupar com minha presença. Insisti e consegui tirá-lo para fora dágua, mas em seu bico estava a lesma, pega pelo rabo. Com um rápido movimento eu tentei arrancá-la do seu bico, mas a ave foi mais rápida e engoliu-o completamente. Fiquei com tanta raiva daquele animal que pensei em abrir sua barriga imediatamente, antes que digerisse a lesma. Mas no fim convenci-me de que o ciclo havia se fechado e deixei o animal ir em paz.

Evidências

Um dedoFaz duas horas que estou dando pela falta de algo no meu campo visual, logo acima da calculadora, sobre minha mesa de trabalho. Não consigo dar-me pela coisa. O que era? Não é do meu feitio falar sobre meus objetos perdidos, até mesmo porque isso não ocorre com freqüência, mas esse caso me chama a atenção em especial, porque tenho uma anotação referente a ele em meu bloco: “Vingom braxólkcu k fndiu”, apenas isso. Como sei que essa anotação se refere à coisa perdida e não sei o que é a coisa perdida? A resposta me parece óbvia. Organizo minha mesa de trabalho de forma metódica, avaliando a milimétrica distância entre os objetos. Às vezes, quando tenho algo sobre a mesa que merece algum comentário, eu o faço no bloco de notas que fica sempre no extremo superior esquerdo da mesa. Lembro-me que o objeto perdido foi o último colocado sobre ela, recebendo uma descrição no bloco. É horrível perder algo e procurá-lo freneticamente. Pior ainda é procurar sem saber se tem ou não importância. Torna-se perturbador quando vejo essa anotação em uma língua que nem ao menos conheço. Anotação essa feita pelo meu próprio punho. Mas a verdadeira razão pela qual escrevo este testemunho não é o objeto perdido, o incidente foi apenas um catalisador para que eu folhasse o bloco de anotações e verificasse que havia um pequeno inseto esmagado entre as folhas quadradas. Um pequeno inseto de asas transparentes, talvez assassinado. Desde já me isento de crime preterdoloso, mesmo porque não tinha a mínima idéia de que havia um cadáver na mesa. Algo me diz que alguém desovou o cadáver em minha ausência. Para provar essa tese terei que fazer uma necropsia ainda essa noite, e se não for muito exigente de minha parte chamarei duas testemunhas que assinarão o documento por mim redigido quando chegar à causa mortis da criatura. Batizei o morto de Vingom, rindo-me por batizar um morto. Chamei Ramus, um engenheiro civil, e Lobato, prefeito aposentado, para serem as testemunhas. Servi um modesto jantar antes da necropsia para deixar mais à vontade os convidados. No meio da janta, Ramus e Lobato começaram a lembrar nosso tempo de criança, quando brincávamos e pululávamos pela rua, sem compromisso com nada nem com ninguém. “E a Ana Maria, lembra dela? Aquela coisinha fofa.” Lobato olhou-o um pouco nervoso: “Ei, olha o que vai falar, Ramus, não esqueça que hoje ela é minha mulher!” “É verdade, quem diria, depois de passar pela mão do pessoal todo da rua ela foi virar sua mulher, o mundo dá voltas mesmo, e as vagabundas sempre encontram quem as sustente!” Lobato pulou por cima da mesa e agarrou o pescoço de Ramus, fazendo-o esganiçar palavras ininteligíveis enquanto caíam os dois no chão. De súbito, Ramus sacou uma pistola que tinha presa em um suporte na perna direita e desferiu um tiro na cabeça de seu algoz. Pedaços da cabeça de Lobato voaram por toda a sala, vindos do buraco feito pela bala. Espantei-me com a potência daquela pistola, que abrira um rombo na cabeça de meu amigo. Mal tive tempo de me recuperar, quando vi um novo esguicho de sangue e miolos provenientes da cabeça de Ramus, que desferia um tiro em sua própria boca. Vejam, a vida dá voltas. Eu estava desgraçado agora. Meus amigos, meus dois únicos amigos no mundo haviam me traído! No momento em que eu mais precisava deles para serem testemunhas de minha inocência no “Caso Vingom” eles me deixam, e como se não bastasse sujam toda a sala de jantar, que eu havia forrado com um papel de parede italiano lindo. Para quem eu mandaria a conta? Por mais amigos que eles me foram em vida eu nunca poderia deixar passar uma afronta desse tipo. Lembrei então do Rex, fazia um semana que eu não lhe dava comida, castigo por ter mijado no sofá vermelho da varanda. Chamei-o para uma limpeza rápida na sala de jantar enquanto punha em prática meus planos: a necropsia.

Relatório de Necropsia:
1. Quanto aos métodos adotados: O presente relatório não está atrelado a regras de qualquer tipo, tendo em vista que o necropsiador em questão não é profissional.
2. Quanto à descrição da criatura conhecida como Vingom: A criatura em estudo apresenta o corpo dividido em cefalotórax e abdome, com seis pares de apêndices representados pelas quelíceras, palpos e quatro pares de patas, e desprovido de antenas. Através da análise chegou-se à conclusão de que é um artrópode, do sub-ramo Bizarriforme.
3. Quanto à causa mortis: Descobriu-se que o ser Vingom possuía uma inflamação intersticial crônica no fígado, além disso a associação de lesões dos hepatócitos, desenvolvimento excessivo de tecido conjuntivo e formação de nódulos de regeneração caracterizam uma possível cirrose hepática. O quadro avançado da doença não deixa dúvidas de que Vingom foi derrotado pelo fígado.

Também não foi assassinato, mas de qualquer forma teimo em dizer que alguém colocou o Vingom em meu bloco, até mesmo porque debilitado como ele estava, nunca poderia ter se escondido ali. Chegando à sala, qual não foi minha surpresa ao ver Rex sorrindo de pança cheia! Ele não só comeu todos os miolos e lambeu todo o sangue de Ramus e Lobato que havia nas paredes, mas, além disso, comeu seus corpos, com osso e tudo. No chão apenas um dedo anular com uma aliança de casamento. A princípio achei que Rex queria fazer uma chacota comigo, deixando o dedo de meu amigo, depois me lembrei de um tratamento de canal que havia feito em meu cão anos atrás. O dentista preencheu a “panela” que tinha no seu molar cariado com um amálgama que provocava choques em Rex cada vez que ele mordia algo de metal. Diferença de potencial! Foi a única coisa que o dentista disse antes de Rex mostrar-lhe a força de sua mordida. Peguei o dedo de Lobato e o corpo do Vingom, coloquei-os em uma caixa de fósforos, embrulhei com papel verde e colei com fita adesiva transparente. Agora, sentado em minha velha poltrona de couro cru de vaca holandesa eu recordo as últimas horas, o quão monótonas foram. No fundo tive um saldo positivo, pois Rex fez todo o trabalho pesado por mim, e eu pude aprender um pouco mais sobre a fisiologia dos artrópodes. Mas algumas coisas ainda continuam sem solução: “Quem colocou o corpo do Vingom entre as folhas de meu bloco de anotações quadrado? Onde coloco a caixa de fósforos embrulhada com papel verde? E o que diabos eu perdi da minha mesa que não recordo mais?”