Dissimulado como um escargot

Ainda estou aguardando aqueles protetores auriculares que você me prometeu em nosso último encontro. O trabalho dos mineiros nessa região, com suas britadeiras e bananas de dinamite, produz uma poluição sonora tão ensurdecedora que mal consigo me concentrar enquanto lhe escrevo. Pensamentos e emoções conflitantes: é assim que posso definir a estadia nesse acampamento. Fiquei amargo como um adolescente; misantropo como um velho com uma doença terminal e descrente como um covarde. Agora a pouco quase travei contato com um desses mineiros. Ele estava alegre, até sorridente, você pode imaginar? Quase venci o orgulho para lhe oferecer um cigarro mentolado, mas então lembrei que poderia causar uma bela explosão com os vazamentos de gás nesta área. Então preferi uma abordagem mais conservadora e já estava repassando mentalmente as minhas falas quando o homem foi atingido por uma rocha imensa que desmontou o seu sorriso e cancelou sua respiração em uma fração de segundos. Se eu tivesse estendido o braço para oferecer-lhe o cigarro teria ficado maneta. Livrei-o então do peso de suas botas que confortavelmente calço enquanto lhe escrevo. Mas não tema, nunca desconfiarão de mim, farei a barba e emagrecerei durante a noite.

Capítulo trinta e cinco

A coleção de meu pai não era grande, mas, em compensação, era curiosa; e, por conseguinte, ele levou algum tempo a reuni-la; tivera, porém, muitíssima sorte e começara bem, ao conseguir quase de graça o prólogo de Bruscambille acerca de narizes compridos,—visto ter pago por ele apenas três coroas e meia, e isso porque o livreiro percebeu o entusiasmo de meu pai pelo livro desde o momento em que este lhe deitou mão.—Não existem mais do que três Bruscambilles em toda a Cristandade, —disse o livreiro, com exceção daqueles que estão bem acorrentados nas bibliotecas dos curiosos. Meu pai atirou o dinheiro sobre o balcão com a rapidez de um raio,—e, apertando o Bruscambille contra o peito, dirigiu-se à pressa para casa, de Picadilly até a rua Coleman, como se levasse consigo um tesouro, sem desgrudar a mão do Bruscambille uma única vez que fosse, durante todo o trajeto.

Jarbas e o Entregador de Frangos (Parte I)

JarbasEu estava com os gânglios à flor da pele naquela noite, quando Jarbas chamou-me na cozinha e mostrou o frango estilhaçado em cima da mesa. Tinha as bochechas encharcadas de sangue e logo percebi que ocorrera uma luta feroz naquele recinto. Recostei-me na cadeira acolchoada e pedi que Jarbas limpasse o rosto com o pano de prato e fizesse uma massagem em meus ombros, enquanto me explicava o que exatamente ocorrera em minha ausência. Ele começou com lamúrias e toda sorte de artifícios para evitar falar no assunto. Olhei-o nos olhos, ao contrário, reclinando minha cabeça para trás enquanto equilibrava a poltrona em apenas duas patas. Era uma manobra arriscada que eu não tentava há um bom tempo, mas eu precisava convencer o pobre Jarbas de que era necessário que ele me esclarecesse certos pontos, caso contrário eu não poderia ajudá-lo. Não foi necessário muito mais do que isso. Prontamente, ele lavou suas mãos na pia e sentou-se no banquinho chinês a minha frente, relatando de um fôlego só os últimos acontecimentos. Falou do entregador de frangos, que havia marcado de encontrá-lo na cozinha por volta das nove horas, para entregar uma encomenda ultra-secreta para um prato exótico. Pouco antes da hora combinada, Jarbas colocou seu melhor fraque, subiu no parapeito da janela do segundo andar e, tal qual um galo no cio, começou a cacarejar e ciscar minhocas e vermes. Nisso, o entregador de frangos estacionava seu carro em frente à casa, pouco depois de dar uma volta no chafariz. Nesse exato momento, eu estava pescando e flertando com mademoseille Rousseau, no Lago Albergue. Estava sorrindo, já com o bucho cheio de vinho e com uma ereção protuberante que despontava por baixo de minha calça colante francesa. Jarbas não conseguiu evitar que o entregador de frangos avistasse ele lá de baixo, pasmo, segurando um saco cheio de frangos holandeses ainda esperneando e tentando fugir dos recheios variados, que fariam lugar das suas vísceras tão logo Jarbas pudesse habilmente fazer as suas acrobacias com seu cutelo encantado. Acontece que a mulher do entregador de frangos é prima em terceiro grau da afilhada da avó de Jarbas, e seria contraprudente deixar o entregador sair daquela casa sem uma explicação adicional. Ele recompôs-se rapidamente e desceu para receber o entregador que passou por ele em direção à cozinha sem dizer uma só palavra. Parecia mais incomodado que o próprio Jarbas, que percebeu ali uma brecha para manobra. De repente, Jarbas apertava demais certos nervos sensíveis em meu pescoço e falei para ele tomar mais cuidado, pois parecia um pouco tenso. Eu não iria repreendê-lo, afinal tinha-o como filho e a segurança dos meus era mais importante do que qualquer coisa. Quanto ao seu comportamento suspeito na janela do segundo andar, era algo totalmente compreensivo, tamanha pressão que vinha sofrendo nos últimos dias, quando mademoisele Rousseau vinha rondando a casa com uma freqüência cada vez maior, trazendo suas amigas glutonas que solicitavam as mais absurdas iguarias a Jarbas que, apesar de ser um artista inigualável na cozinha, estava há semanas sem um repouso descente, e por essa razão, completamente fragilizado, sendo facilmente influenciado por fatores externos. Jarbas ouvia tudo com atenção, ficando mais calmo, como percebi pelo movimento de suas mãos. Subitamente, uma gota de sangue de suas bochechas mal lavadas caiu em minha testa, escorreu ao lado do meu nariz e foi se alojar em meu bigode. Dei uma fungada forte e pulei da poltrona, que caiu para trás derrubando Jarbas. Demônios, não era sangue de frango, como eu pensava desde o início, era sangue humano. Agora sim ele me devia explicações. Olhei para ele com preocupação e ordenei que terminasse de contar a história.

O pornógrafo veneziano (parte I)

Com este post inicio a categoria “inacabados”, uma série de contos e outros gêneros que não consigo ou não tenho a intenção de terminar. Às vezes são simples anotações, outras pretendem ser a primeira parte de um trabalho maior, como no caso do texto abaixo, que comecei a escrever para depois transformar em um roteiro para uma estória em quadrinhos. Em um futuro indeterminado um caçador de recompensas mutante e viciado em narcofarmacos persegue um produtor de filmes pornográficos não convencionais. Com vocês, “O pornógrafo veneziano”:

Ferd— O i-name dele é “=jack.ursinho”, não tenho mais informações adicionais.

— Você sabe que com isso será difícil descobrir algo — Astor colocou o i.name no oráculo e ordenou uma busca, o spider começou a rastrear a rede em tempo real enquanto eles comiam bolacha água e sal e chá inglês. Astor pensava na Estela, suas belas tetas firmes e bicos duros. Sua baba misturada com migalhas de bolacha pingava no teclado holográfico projetado na mesa.

— Muito bem, encontrei um node, mas parece que está em uma intranet. Consegui me infiltrar através da conexão Wi-Fi deles, mas a rede é protegida por firewall e os pacotes estão se arrastando por uma pequena brecha que consegui abrir através do eco de bits. Com essa taxa de transferência vou demorar uns 15 minutos para montar a imagem do vídeo.

— Vídeo?

— Sim, consegui localizar um vídeo com esse i-name. Tudo indica, pelos dados de cache, que nosso amigo é produtor de filmes pornôs, do tipo não convencional, se é que você me entende.

— Ora vejam só, por isso o i-name. Ele deve ter usado um i-broker norueguês, eles são muito liberais por lá. Está explicado porque os Homens o querem.

— Sem dúvida. Por favor, tire o cotovelo de cima dos meus papéis. Se nós conseguirmos o openID dele, podemos plotar um eixo de dobra com as coordenadas. Astor fez um malabarismo com seus dedos cegos, sussurrou algo para a máquina e sorriu com satisfação — E ai está: 27°34’39”S 48°31’34”W, parece que encontramos o esconderijo do nosso amigo.

— Meu velho, seus serviços valem cada centavo do que eu te pago.

— Eu sou o melhor.

— Você é — Ferd mergulhou seus longos e disformes braços no paletó que recolheu da mesa de Astor, conectou suas raquetes de andar na neve e arremessou para Astor um dobrão espanhol.

— Ei, esse não foi o combinado — protestou o amigo.

— Meu caro, primeiro preciso confirmar os seus dados, depois eu te dou a outra parte.

Caminhou para seu aeromóvel sob o olhar contrariado de Astor enquanto sacava o GPS e entrava com as coordenadas. Um mapa tridimensional se formou à sua frente, projetada por um pequeno feixe luminoso entre as lentes dos seus óculos. O sistema sugeriu a rota mais próxima, conectou com o sistema de navegação do aeromóvel, verificou o tráfego e confirmou a rota com Ferd, que grunhiu em consentimento. Precisava verificar suas cordas vocais, os narcofarmacos estavam fazendo mal pra ele. Já não bastasse as tripas, agora sua garganta começava a falhar. Precisava ingerir algumas fibras de psyllium, iriam corrigir o problema. Alguns minutos depois, estava no edifício, uma construção praticamente esquecida, uma sigla de 3 letras, foi um centro integrado com fins culturais no passado. O dinheiro era desviado para as pessoas erradas e já naquela época era uma construção quase esquecida, servindo apenas para a negociata e o enriquecimento ilícito, enquanto os eventos culturais eram deixados de lado. E agora um produtor de filmes proibidos, protegido atrás de um i.name vago e de um firewall de segunda mão, estava escondido por ali, provavelmente bolando sua próxima produção nefasta. Ferd deslizava seus tentáculos gosmentos pelos corredores empoirados. O cheiro de porra ressecada penetrava em suas narinas apuradas, que havia herdado da família de sua mãe, seres aquáticos abissais que, não tendo a visão para se guiar nas profundezas dos mares, precisavam ter os outros sentidos superaguçados.