O telefone toca

— Olá, senhor, aqui é da Grossinvest, aguarde enquanto transfiro a ligação para um de nossos atendentes.

— Peraí, eu não tenho inte…

A ligação é transferida e um outro atendente passa a falar:

— Boa noite, o senhor foi selecionado pela nossa central de relações. A Grossinvest é líder no mercado nacional de crédito ao consumo e tem uma proposta irrecusável para o senhor.

— Mas eu tentei avisar a telefonista anterior, eu não tenho inte…

— Deixe-me coletar os seus dados, que serão armazenados e negociados com outras empresas de telemarketing, quer dizer, que serão utilizados para conhecer melhor o seu perfil e assim oferecer a melhor oferta ao senhor.

— Que tipo de oferta? Estou desempregado e completamente endividado. O que vocês podem me oferecer para reverter esta situação?

— O senhor está sendo muito pessimista. Nossos juros de um milhão ao ano são os menores da praça. Se o senhor não assinar o contrato conosco, provavelmente será obrigado a assinar com outra empresa de crédito e eles arrancarão seu couro a curto prazo.

— Mas eu não tenho interesse em assinar com empresa de crédito nenhuma. Minha única preocupação no momento é pagar as contas de água, luz e o aluguel. Se sobrar para o almoço está bom. Na verdade nem sei como você conseguiu me ligar, esse telefone estava cortado.

— Nós temos nossos contatos. Seu telefone foi temporariamente reativado para podermos resolver esta emergência.

— Que emergência?

— Constatamos que o senhor não tem uma linha de crédito e todo cidadão tem o direito e o dever de ter crédito pessoal, apólices de seguros e um título de capitalização que melhor atendem às suas necessidades e expectativas.

— Mas como eu posso ter todas essas coisas se nem tenho previsão de quando poderei pagar por tudo isto.

— Isso não é conosco. Nosso dever é oferecer ao senhor a possibilidade de ter linha de crédito. O que vem a seguir é função de outros setores da empresa. O senhor tem os dois rins?

— Os dois rins? Como assim? Claro que tenho…

— Então está tudo bem, o senhor tem crédito. Parabéns pela escolha, o senhor é nosso novo cliente.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 30/8/08. p.3)

A humanização da Internet

O Mozilla Labs lançou um novo plugin para Firefox chamado “Ubiquity”, algo como “Onipresença” em português. O nome um tanto hiperbólico do experimento é justificado quando você descobre o que a versão 0.1 já é capaz e fazer. A proposta do sistema é tornar mais humanos os comandos quando você navega na web e assim agilizar ações e processos, permitindo que operações antes trabalhosas, como anexar um mapa de localização do Google Maps a um e-mail, seja possível com certa agilidade.

Por exemplo: você ativa o programinha com o comando Ctrl+barra de espaço e digita este comando na caixa de entrada que surge: “translate ubiquity from english to portuguese” e tem a tradução da palavra automaticamente, sem precisar acessar nenhum site de tradução. Ok, essa ficou um pouco longa, mas que tal pesquisar algum termo na Wikipedia? Basta acessar o plugin (sempre com o comando Ctrl+barra de espaço) e digitar algo como “w mozilla” e o resultado aparece automaticamente. E se você digitar “w mozilla” e a tecla Enter em seguida, será direcionado para o termo na Wikipedia.

Outro comando legal é esse do mapa, que citei no primeiro parágrafo. Digamos que você resolveu aproveitar o sábado ensolarado para remar na Lagoa do Peri. O pessoal já está lá embaixo esperando no carro, com os caiaques no rack, impacientes, mas você precisa avisar o seu amigo paulista que não conhece Floripa onde fica a lagoa. Nos velhos tempos você acessava o Google Maps; procurava a localização; ampliava a imagem; fazia um print screen da tela; abria o seu programa de manipulação de imagens; editava a tela com o mapa; salvava e anexava ao e-mail, ufa… A essa hora o pessoal já foi embora sem esperar por você. Com Ubiquity, basta escrever o e-mail rapidinho com a mensagem: “encontre-me na Lagoa do Peri”, selecione o nome do local, acesse o plugin e digite “map”. E voilá, o mapa com a localização da Lagoa aparece, você clica nele para ampliar e no link “Insert map in page” para incluir em seu e-mail. Muito mais rápido que o processo tradicional e também mais acessível para quem não tem muita intimidade com as ferramentas gráficas.

Como observado nos exemplos acima, os comandos ainda devem ser todos em inglês, mas à medida que o sistema se populariza devem surgir traduções para outras línguas, incluindo o português, além de novas funcionalidades e correções de possíveis bugs. Para saber mais sobre o Ubiquity, visite a página do experimento no Mozilla Labs; veja o vídeo tutorial no Vimeo e leia o tutorial no Mozilla Wiki.

Desconstrução

Sandro e Alicia moraram cinco anos em um espaçoso apartamento alugado na Trindade, em Florianópolis. Era antigo; cheio de infiltrações; cupins no chão forrado de tacos de madeira, mas era um apartamento aconchegante. Um dia, um pedaço de reboco do teto caiu na cabeça de Sandro, pouco antes deles receberem a notícia de que teriam que sair do apartamento, pois o proprietário queria vender o imóvel. Mas, como mandam as regras, eles tinham o direito de fazer a primeira proposta, que foi automaticamente recusada, por não alcançar a metade do valor absurdo que a imobiliária estava pedindo. O casal ficou indignado e Sandro queria desforra.

Tinham três meses para procurar outro apartamento e nesse meio tempo, como ocorre nessas situações, os possíveis compradores poderiam entrar para ver o imóvel, mesmo com eles ainda lá estabelecidos. Eles consideraram um atentado mercantilista aos seus cinco anos de privacidade em um imóvel que já tinha a cara deles.

Antes da primeira visita, Sandro pegou todo o pó dos cupins que havia varrido e espalhou com cuidado por pontos estratégicos, depois o pedaço de reboco que havia caído do teto e por fim uma pilha de livros arruinada pelas goteiras.

Quando a cliente chegou, acompanhada do agente da imobiliária, Sandro os atendeu educadamente, ofereceu café e conduziu a visita. Fez questão de explicar tudo para a cliente, que chegou maravilhada, pronta para adquirir o imóvel:

— É um ótimo apartamento, mas veja ali no canto, nos rodapés, a quantidade de cupins que estão devorando completamente o assoalho. Sim, isso ali no chão é o reboco caído, lastimável, foi bem na minha cabeça, veja o calombo. Ah, e essa infiltração, arruinou todos os nossos livros.

O corretor ficou furioso, dava para ver em seus olhos. Mas também sabia que não havia nada a fazer. E a cliente compreendeu o recado, percebeu o péssimo negócio que faria e resolveu procurar outro imóvel.

Depois disso não ocorreram outras visitas de possíveis compradores e o casal pôde curtir os últimos dias do apartamento. Sandro ainda tem numa caixa todo aquele pó de cupim e parte do reboco do teto. São as únicas lembranças que restaram daquele apartamento.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 23/8/08. p.3)

Além da Ilha

O Zé é meu amigo eremita, que mora lá no Morro das Pedras, em uma casa feita por ele mesmo. Não vê TV nem ouve rádio, mas lê vorazmente tudo que lhe cai nas mãos. Ele tem uma esquisitice que nunca consegui entender: apesar de aparentemente bem informado, acredita que o mundo se resume aos poucos lugares por onde ele caminha. Duvida até mesmo da existência do continente e acha que a Ilha de Florianópolis é a única coisa que existe. Se aparece algum estrangeiro ele afirma, irredutível: “Esse aí deve morar do outro lado da Ilha, mas eu não sabia que falavam outra língua por lá”.

Esses dias o Zé passou mal e tive que levá-lo com urgência ao hospital. Enquanto ele fazia uma careta de sofrimento e se agarrava ao banco do passageiro como um caranguejo, eu dirigia como um louco, furando vários sinais fechados no caminho. Como não tínhamos nem um centavo em nossos bolsos, eu precisava encontrar um hospital público para atendê-lo, mas todas as portas pareciam fechadas e só atendiam em caso de risco de morte. “É Zé, você precisa morrer para ser atendido”, arrisquei a piada mórbida quando deixamos o estacionamento do Hospital Universitário à procura de outro hospital. A última opção era o Hospital Regional de São José. Enquanto atravessávamos a ponte, avisei:

– Prepare-se, Zé, você vai finalmente conhecer o continente.

– Mentira! – ele ainda conseguiu grunhir incrédulo por baixo do seu sofrimento, antes de desmaiar.

Preocupado, corri o máximo que pude rumo ao hospital. Naquele estado, ele finalmente foi atendido com urgência no Regional de São José. Aplicaram um bom analgésico nele e trataram de fazer exames para avaliar sua condição. Descobriram que era cálculo renal e receitaram uns remédios, caso as dores retornassem. Levei-o para casa, ainda sob efeito dos remédios. Agora era fazer mais alguns exames e consultar um especialista. Já estávamos chegando novamente ao Morro das Pedras quando o Zé se recobrou. Olhou para mim satisfeito e falou:

– Rapaz, eu passei muito mal mesmo, teve uma hora que parecia que eu tava morrendo, a Ilha tava ficando pra trás e a gente tava sobrevoando o mar rumo ao infinito.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 16/8/08. p.3)

Caminhos compartilhados

A espécie humana pode locomover-se, grosso modo, com a ajuda de quatro dispositivos pessoais terrestres: automóveis, motocicletas, bicicletas e pés. Estas quatro categorias não costumam se relacionar muito bem e podem trabalhar pela extinção uma da outra.

O mais frágil de todos são os pés, seguidos das bicicletas e das motocicletas. Em acidentes envolvendo grupos diferentes, os pés costumam ser apontados como um dos principais culpados, apesar de estarem restritos a trechos muito menores para se locomover, em comparação com os automóveis e motocicletas. Os automóveis são dispositivos pesados envolvidos por uma couraça metálica que os protege em caso de colisões com algum dos outros três dispositivos. O problema é quando os automóveis colidem entre si, ou quando encontram pela frente uma barreira mais sólida do que eles, como objetos de concreto, árvores ou então outro dispositivo robusto como um caminhão.

Em alguns locais do planeta as bicicletas ainda são praticamente ignoradas e relegadas a raros caminhos por onde podem circular suas rodas emborrachadas e não poluentes. Seus predadores naturais, assim como os pés, são os automóveis. Este fato poderia indicar uma união natural entre estas duas categorias mais frágeis, mas não é o que acontece. Apesar de viverem em aparente paz, bicicletas e pés costumam amaldiçoar-se quando ocorre algum encontrão entre os dois e não se unem para melhorar suas situações.

Motocicletas e automóveis também não costumam sorrir alegremente um para o outro em nossas ruas movimentadas. Os primeiros reclamam da folga dos segundos, que trafegam entre os automóveis. Por outro lado os automóveis também não respeitam as motocicletas, achando que elas estão ocupando espaço demais à sua frente, quando andam corretamente. Estes dois dispositivos motorizados e bebedores de combustíveis fósseis também costumam ignorar as faixas de segurança, caminho natural dos pés, que são vilões quando ignoram estas faixas e não são respeitados quando reivindicam o seu direito natural de utilizá-las.

E assim, os humanos se locomovem sobre seus pés ou suas rodas, esperando que o outro não corte a sua frente e seu caminho seja respeitado e, sobretudo, que possam obedecer seus horários.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 9/8/08. p.3)

Datas comemorativas

Quando viemos morar aqui e descobrimos a voz das crianças no colégio em frente, brincando nos intervalos das aulas, ficamos felizes. Afinal, quem não gosta de ouvir crianças se divertindo, não é verdade? Mesmo quando suas vozes são estridentes ou desafinadas, a alegria delas é contagiante. Era o que pensávamos no início.

Nunca fui muito de datas comemorativas, mas agora fica difícil esquecer. Páscoa, Dia das Mães, festas juninas, Dia dos Pais, Sete de Setembro, Dia das Crianças e todas as outras datas possíveis e impossíveis. Sempre com uma ou duas semanas de antecedência as crianças começam a ensaiar as músicas para comemorar alguma dessas datas e não economizam na voz.

Outro dia encontramos nossa vizinha no corredor do prédio e conversávamos com ela sobre o barulho do bar da esquina, outro que gosta de exagerar no som, mas no horário noturno. É claro que não queríamos parecer rabugentos falando mal do colégio, mas ela interrompeu a conversa e desabafou:

– E estas crianças, que fazem questão de nos acordar às 7h30 da manhã, cantando sempre a mesma música? Quando pensamos que vão nos dar uma folga, que poderemos descansar, surge um aniversário ou outra data extraordinária para comemorar. Chegam a voltar das férias com antecedência para ter tempo de ensaiar melhor a mesma música, durante a manhã e a tarde, como acontece agora com o dia dos pais. Não consigo nem tirar o meu cochilo da tarde. Ah, eu que não vou colocar os meus netos para estudar neste colégio!

Mas decidimos não fazer uma reunião de condomínio para propor um abaixo-assinado solicitando que eles coloquem um isolamento acústico no colégio, pois as crianças costumam cantar no pátio ao ar livre e não ficaria bem uma enorme redoma, como um aquário ao redor delas. O máximo que podemos fazer é ficar torcendo para que chova nos dias de ensaio ou, em último caso, comprar aqueles tapa-ouvidos de segurança utilizados por trabalhadores de equipamentos pesados como britadeiras.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 2/8/08. p.3)