Antologia premonitória

Hoje encontrei um depósito de cotonetes no bolso esquerdo da minha velha jaqueta de couro. Era de um amigo, mas acabei tomando posse em uma noite, faz quase cinco anos. Enchemos a cara e eu estava de mochila. Lá pelas seis da manhã, enquanto caminhávamos para o posto 24 horas à procura de provisões, me ofereci para levar sua jaqueta. Não foi algo planejado e ele nunca mais falou comigo. Começou sua turnê pelo mundo logo após esse episódio e de tempos em tempos me envia uma carta ou e-mail perguntando pela tal jaqueta. Digo que está bem guardada e esperando por ele em meu armário, mas na verdade torço para que ele não venha pegá-la, pois é de couro legítimo e tem me acompanhado nos finais de semana solitários. Em geral, a luz provoca movimentos de atração na maioria dos animais, como se observa nos insetos que rodeiam uma lâmpada poderosa. No entanto eu não esperava por esse ninho de hastes flexíveis com pontas de algodão no bolso esquerdo. Estava me aprontando para sair quando me deparei com o achado, enquanto vasculhava os bolsos a procura de dinheiro. No momento em que apalpei aqueles objetos higiênicos no bolso da jaqueta, pensei sentir o bafo morno de um texto antigo tentando insinuar-se sobre o testemunho acima, esticando grotescamente seus tentáculos insistentes para que eu conte minha experiência tal qual um conto escrito há mais de dez anos. Sabiamente, recuso-me a colaborar e penso nos cotonetes como uma mandinga feita pelas meninas da lavanderia, que conhecem meu celibato involuntário de solteirão preguiçoso. Sento-me na cama, abro o novo testamento e leio: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

Poesia Modernista

Falar sobre a poesia de Rubén Darío e Leopoldo Lugones sempre me deixa embaraçado. O beletrismo fin de siècle desses dois foi motivo de uma das piores aulas que assisti na pós-graduação. Eu gostaria de dizer que minha indisposição naquele dia havia sido em decorrência do risoto ou do misturado de vegetais do RU, mas não estava nem perto de encontrar a causa da minha dispersão, do mal-estar ao me deparar com a cópia do Intermezzo Tropical do Darío. Quando cheguei ao início da segunda estrofe, ao ler estupefato a linha “Es la isla de Cardón, em Nicaragua” algo me atingiu em cheio no estômago, que já ardia há semanas. Lembrei de Nicaragua, tan violentamente dulce, de Cortázar e da ilha fantástica de Morel, que coloquei na cabeça, naquele momento de delírio, eram a mesma ilha. Corri para o banheiro sem conseguir enfrentar meus colegas, que provavelmente hipnotizados pela explicação da Dra Scramin não perceberam minha artimanha. Lavei o rosto com água gelada e repeti em voz alta, em frente ao espelho: “destruir um edifício não significa abandonar um terreno”. Para não estabelecer o sentido último das coisas, passei pelo bebedouro e me refresquei um pouco enquanto pensava na angustiante noção de tempo cíclico do barroco, no mundo decadente a beira da extinção. Pensei determinado, bravo com minha dispersão: “O novo homem é um coletivo”. Respirei fundo e regressei à pequena sala, preparado para retomar meus planos. A lógica do ocidente, afinal, sempre foi negar ao adversário uma próxima chance, pensei enquanto enfiava a mão através do zíper da minha mochila e armava o mecanismo regressivo.

Componentes de passagens

Viajei dez anos no passado hoje pela manhã. Foi uma viagem rápida. Quando lá cheguei me encontrei sentado na varanda da casa dos nossos pais, junto com um rapaz dez anos mais novo, que descobri depois, havia viajado dez anos no futuro para a reunião. Os dois estavam me esperando e fui enfático quando disse: “desculpem, mas as coisas não mudaram muito, vocês precisam tentar uma nova abordagem”. Os dois pareciam já saber da notícia e olharam um pouco apáticos por sobre meu ombro. Quando olhei para trás me encontrei mais velho, olhando para nós. O fantasma ou simulacro e as três figuras do idêntico em relação à diferença, pensei enquanto ouvia o eco da música Cristóbal, de Devendra Banhart: “No te vayas si te vas”. Os três olhavam para mim, como se eu tivesse a solução para nosso problema. Então comecei meu monólogo: “nada é mais exemplar do que a expansão, a ampliação do espaço geográfico e relaxamento da guarda. As formas do negativo aparecem nos termos atuais, mas somente como separados da virtualidade e do movimento de sua atualização”. Fui elegantemente interrompido em minha fala pelo mais velho, que sussurrou em meu ouvido: “Não preocupe nossos jovens amigos com essas ultrapassadas masturbações pós-estruturalistas”. E então, dirigindo-se para todos, tirou do bolso uma caixinha de baralhos e falou: “desfaçam já essas caras apáticas e me consigam uma mesa, vou mostrar alguns truques que venho treinando nos últimos anos”.

A cidade quando acorda

Em 1665, na Antuérpia, em uma ruela imunda e infestada de ratos, acordava aquele que seria um dos maiores revolucionários da história. Vejam que nesta noite ele dormiu na rua, mas não porque lhe falta um teto, longe disso. Poderíamos dizer que ele dormiu na rua para poder observar melhor o céu, em um de seus experimentos, mas a verdade é que na noite passada Jan Ortélius teve um desses momentos de revelação que mudaram para sempre o curso das coisas. Sentado em um boteco com seus amigos o nosso homem foi acometido pela seguinte questão: se o fluxo temporal realmente segue apenas em um sentido, o que ocorre quando ele esquece de nos convidar a embarcar em sua viagem? Bastaria dormir fora de seu lugar habitual? Correr para uma ruela quando ele não estivesse olhando? Se Jan não estivesse tão mergulhado em velhos paradigmas, perceberia que o estamos observando neste momento, através de um pequeno buraco de fechadura, rindo de sua teoria. Nosso erro foi pensar que estávamos sozinhos.

Playing with the pieces

Textos são feitos de pedaços da realidade do autor ou um simulacro da mesma, das suas leituras, da sua interpretação e observação do mundo, dos seus medos, traumas e certezas. Temos à nossa disposição as ideias de um crescente número de pessoas e o acesso a essas informações é muito mais popularizado, não está mais apenas nas mãos de um grupo privilegiado de indivíduos como era no passado. No entanto, nós nos tornamos reféns da mass media, do marketing e da propaganda. O que vemos também é determinado pelo que ouvimos. Não somos completamente livres para ler ou escrever o que quisermos. Como um vírus, a linguagem nos obriga a construir a realidade de uma forma específica. Precisamos seguir e obedecer as regras, não podemos transgredir o sistema. Por outro lado, podemos utilizar a voz de múltiplos indivíduos, desconstruir seus discursos e recombinar as peças, quebrando as regras e produzindo novos resultados.

Possíveis combinações

Cada palavra em um texto é uma voz em nossa história, até chegar ao texto presente e o ciclo se repete cada vez que esta palavra é utilizada novamente, simultaneamente. Por mais hiperbólico que seja, quando lemos um texto, estamos lendo a compilação de todos os escritos da humanidade, desde que o homem inventou a escrita. Nós estamos ouvindo as vozes multiplicadas, com um som de fundo diferente em cada palavra, que sofreu transformações com o passar dos anos, desde que foi criada. É como se estivéssemos entoando um mantra milenar, adicionando nossa própria voz ao conjunto e cada vez que lemos essa palavra específica, nós não a estamos lendo apenas neste instante, nós estamos dando continuidade a sua existência, preservando e recuperando seu passado e adicionando um novo significado neste momento, quando a pronunciamos novamente.

Memórias

Meus amigos conhecem meu comportamento, sabem que prezo pela verdade dos fatos, minha visão, meu ponto de vista. Sabem que meu encantamento pela anatomia da existência, pelo farfalhar das folhas e pela comunicação entre os insetos é mais do que um hobby pueril, um passatempo para adolecentes. Enquanto escrevo este relato posso sentir os efeitos do oxigênio que respirei há poucos instantes e que deve chegar ao ápice do seu efeito em vinte ou trinta minutos. Até lá a minha percepção poderá se alterar e algum detalhe do meu relato poderá ficar irremediavelmente deturpado. É uma anestesia contínua, diária, que devora minha vontade há anos. Felizmente escrevo isso de um ponto futuro, amarro os fatos, combino as palavras, me esmero na capacidade de reabilitação.

Síndrome do encarceramento

O mecanismo parece estar quase completamente restabelecido. Com seus tubos, câmaras, válvulas, fluidos, sensores… A pane anterior abre espaço para o funcionamento mais harmônico do conjunto. É claro, tomei as decisões corretas no decorrer do processo para conseguir atingir este novo desempenho. Alguns componentes podem ter ficado irremediavelmente danificados, mas só saberei disso dentro de alguns anos. Ou, se tiver sorte, poderei ainda aproveitar o seu bom funcionamento por um longo período até o desligamento automático. Poderia viajar para a Moldávia e comprar alguns componentes novos no mercado negro, no entanto odeio vestir aquele avental branco aberto nas costas.

O rumor da língua

Não há como negar minha participação no crime. É claro, falo isso para vocês, que nunca terão coragem de informar as autoridades sobre os meus atos. Também não há provas, pois cuidei de limpar cada traço das minhas ações. A operação durou três ou quatro anos, mas foi diária, contínua. Por vezes quase fui descoberto, mas tratava de convencê-la que eram apenas experimentações inócuas, e que meus atos não de repetiriam. Durante todo este tempo, comportei-me como um zumbi teleguiado interessado no prazer anestésico das minhas sórdidas ações. Assumi riscos. Minha auto-reabilitação tem sido dolorosa.