Perdido em classificações

Venho tentando me organizar desde 1974, sem muito sucesso. Gavetas, pilhas, pastas, arquivos, fogueiras, classificações. Quando me disponho a colocar em ordem uma de minhas coleções de papéis, não sem antes tomar uma cerveja ou um calmante, pois o processo é realmente cansativo e altera meu humor, sei que o trabalho pela frente será árduo e depois de algumas horas provavelmente eu desistirei da tarefa e tudo estará perdido. A coisa começa realmente a ficar doentia no momento em que as categorias são criadas. Lembranças, xerox acadêmicos, folders e encartes de visitas a museus, contas… Mas então começam a surgir novas categorias, subcategorias ou então mesmo os papéis inclassificáveis. Receitas médicas, atas de reuniões de condomínio, anotações feitas ao telefone, manuais técnicos de eletrodomésticos, fotografias antigas, artigos de assuntos diversos… A certa altura, meu escritório está coberto de papéis, torres curvas e disformes.

Então comprei seis belas caixas plásticas para “arquivo-morto” e comecei a classificar meus papéis. Depois peguei meu bloco de notas e desenhei as seis caixas, descrevendo o conteúdo de cada uma delas com belas legendas coloridas.

Ontem, quando minha mulher me pediu um texto específico e falou “ah, esqueci que você nunca encontra suas coisas”, saquei meu bloco de notas do bolso e falei com autoridade: “Epa, vamos ver aqui no meu esquema”. E lá estava localizado o texto que ela queria: caixa cinco, após os folders das exposições de arte e antes das bulas de remédio – que podem parecer coisa de hipocondríaco. Mas, quando peguei a caixa, que deveria ser a quinta, lá estavam as multas de trânsito, as contas pagas e as lembranças de infância. Ela olhou pra mim, com aquele sorriso de “sabia que você não encontraria” e deu meia-volta. Da próxima vez vou lembrar de etiquetar as caixas por fora, pensei enquanto despejava todo o conteúdo no chão à procura do texto que ela queria.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 31/5/08. p.3)

Epiléptico

Acabei de ler o segundo volume do Epiléptico, obra do francês David B. Epiléptico é a autobiografia do autor, que nasceu com o nome Pierre-François Beauchard. Na verdade é a biografia do seu irmão mais velho, vítima da epilepsia, que acabou envolvendo toda a família em uma busca incansável pela cura da doença. Sincero, violento, cruel e terno, Epiléptico é uma obra quadrinística-literária de uma densidade pouco encontrada (pelos que não conhecem a fundo esta forma de arte) no universo dos quadrinhos. David B. é um dos fundadores da L’Association, editora criada por um grupo de quadrinistas franceses alternativos na década de 90 na França. Na Escola de Artes Aplicadas de Duperré, em Paris, no final dos anos 70s, David foi aluno de Georges Pichard, um dos criadores de Blanche Épiphanie, publicado no Brasil pela editora Abril em 1990. Pichard não ensina quadrinhos em seu curso, mas incentiva e aconselha David no intervalo das aulas de publicidade. Assim, ele encontra uma linguagem para contar a sua história, a história do seu irmão, da sua família, tão intrinsecamente conectada, à procura de uma cura e uma explicação para a doença do seu irmão. A busca passa pela medicina tradicional, pela macrobiótica, alquimia, espiritismo e todas as possibilidades tradicionais ou esotéricas, envolvendo sempre toda a família. A autobiografia de B. é populada por monstros, espíritos, guerreiros ferozes e figuras mitológicas. Uma mistura intrincada de simbologias nascida da aflição de uma família na busca pela cura da doença de um de seus membros. Uma obra de primeira grandeza que recomendo a todos, amantes dos quadrinhos e os que acham que a nona arte é coisa de criança, Disney e Turma da Mônica. Os dois volumes da obra podem ser adquiridos em português, com um ótimo acabamento, diretamente no site da Editora Conrad, com um atraente desconto, neste endereço.

Formato: 21 x 27 cm
Plano da obra: 2 volumes
ISBN: 978-85-7616-279-7

Mimetismo

[Do gr. Mimetós, ‘imitado’, + -ismo.] S. m. Fenômeno que consiste em tomarem diversos animais a cor e configuração dos objetos em cujo meio vivem, ou de outros animais de grupos diferentes. Ocorre no camaleão, em borboletas etc.

Resolvi tomar aulas de mimetismo esta semana. Um professor de uma cidade eslovaca apareceu por aqui oferecendo um curso de algumas semanas. Um curso de mimetismo. Estava com vontade de fazer um cursinho diferente. Pensei em culinária, mas definitivamente, sou da geração microondas. Miojo e macarrão chinês instantâneo em potinho de isopor. “1 – complete com água; 2 – coloque no microondas por 2 min; 3 – Espere esfriar antes de degustar.” Prático, rápido e fulminante. Ultimamente tenho até usado aqueles pauzinhos para comer a gororoba chinesa instantânea. No início era uma tortura, meus dedos doíam, tinha vontade de jogar os pauzinhos longe e devorar tudo usando as mãos mesmo. Já me acostumei, apesar de ainda babar um pouco.

Estou gostando muito das aulas de mimetismo, difícil é todo dia ter que achar o professor. Na primeira aula uma aluna sentou nele pensando que fosse uma das cadeiras. Na hora em que resolveu colar um chiclete embaixo da cadeira sentiu algo peludo. “Ai! Tira a mão daí, menina!” Ela saiu correndo e berrando porta afora. Jogou um processo em cima dele por assédio sexual. Para a sorte do professor, o advogado dela ainda não conseguiu encontrá-lo para entregar a intimação!

Sinto que estou progredindo cada vez mais. Ontem me mimetizei tão bem que nem eu mesmo consegui me achar. Tive que berrar para minha irmã me ajudar, Ela veio correndo do quarto dela até o meu, ofegante: “qui foi, qui foi?” Expliquei a situação, na noite passada eu havia pegado no sono tentando criar a obra-prima do mimetismo, naquele momento não conseguia me lembrar mais no que havia me mimetizado. Ela procurou a manhã inteira, eu já estava morrendo de fome, sem saber o que fazer: “tá esquentando, tá esquentando, ih, esfriou”. Então pude ouvi-la sussurrando: “talvez com a luminária acessa eu consiga vasculhar melhor o ambiente”. Dei um berro de pavor antes que ela conectasse meus dedos do pé na tomada pensando que fosse o plug. Foi por pouco, quase que eu virava churrasquinho. Fiquei traumatizou com esta experiência, não sei se vou continuar com as aulas de mimetismo. Peguei o jornal de hoje e encontrei nos classificados um curso mais seguro pra fazer: “Aprenda a hibernar pelo resto do novo milênio em cinco lições práticas” Quem sabe, quem sabe…

(publicado na Revista Poté Nº6, EduFSC, 2000. p.24)

Seu animal

Quanto ao seu animal, algo me preocupa nele. Quando aceitei a tarefa de tratá-lo em sua ausência, não sabia exatamente o que precisava ser feito. “É apenas um animal”, pensei enquanto tomávamos o café de despedida e você instruía-me sobre como proceder. Lembro que quando você o trouxe ele parecia muito assustado e logo foi se esconder na despensa. Então, como sempre, fiquei perdido em meus próprios pensamentos enquanto você apontava o saco de ração e dizia algo que já nem sei mais o que era. Ah, caro amigo, nunca aprendi a ouvir as pessoas, sou um canalha, um egoísta. Fico entediado com tudo e com todos e espero o máximo de atenção destas mesmas pessoas que ignoro. Então eu balançava a cabeça e concordava com tudo o que você me falava, mastigando pães e bolachas e bebendo chá. Nem me dei ao trabalho de perguntar para onde você viajaria e quando voltaria. Quer dizer, perguntei sim, e você respondeu. Confesso agora que perguntei por educação, perguntei para mostrar interesse e para parecer um sujeito normal. Lembro que fingi estar feliz com sua viagem, seria de trem, se não me engano. Na porta, enquanto nos abraçávamos, você me passava as últimas recomendações a respeito do seu animal. Você levantou o dedo, gesticulou e balançou a cabeça de um lado para o outro.

A primeira noite foi horrível, o animal chorava sem parar e não me deixou dormir. Fiquei com muita raiva. Fui até a despensa e berrei com ele, que por um instante ficou em silêncio. Voltei para o meu quarto, e quando estava voltando a cochilar, o animal retornou com as lamúrias. Saltei da cama com raiva. Não conseguia ver nada dentro da despensa, pois a lâmpada estava queimada e não tenho lanterna. O choro do animal era insuportável. Eu já havia colocado potes com água e comida na porta da despensa mas ele continuava. De qualquer forma, mesmo com o choro, consegui dormir naquela noite.

Na manhã seguinte descobri que a água e a comida estavam intactas, como eu havia deixado na outra noite. Durante todo o dia não ouvi um único sinal de vida do animal. Aquilo me alegrou mais do que preocupou. Eu tinha muito o que ler durante o dia e não suportaria aquele choro infernal. Veja, adoro animais, mas deveria ter confessado antes para você que odeio tratá-los ou ouvir seus ruídos. Assim, era cômodo para mim o silêncio da criatura.

Três dias se passaram e eu esqueci completamente que tinha um hóspede na despensa. Durante esse tempo ele não mais me incomodou, não mais me lembrou de sua existência. Na quarta à noite, enquanto estava na cama lendo um conto de Cortázar, lembrei-me do animal e meu coração deu um pulo. Corri para a despensa, e na porta, vi que a água e a comida continuavam intocadas. O que havia acontecido com o desgraçado? Eu estava transtornado e enraivecido por ter aceitado a tarefa. Agora, na escuridão, eu não poderia fazer nada. Resolvi voltar para cama, onde não consegui continuar minha leitura de forma alguma. O sono demorou muito para chegar.

Entrei na despensa com um velho lampião de querosene, nas paredes, nos varais e nas laranjeiras, várias teias de aranha brilhavam e refletiam a luz do fogo. Teias vazias de suas donas. Avistei um quadrado de vidro um pouco mais à frente, como um grande aquário, estava habitado por várias aranhas. Como em uma arena elas se atacavam e se devoravam. Em um canto do “viveiro” um recém nascido balançava os minúsculos braços com um sorriso estampado na cara sem olhos. Aranhas entravam pelas suas narinas em uma ordenada fila indiana, como formigas operárias. Enquanto isso outras aranhas pareciam enrolar o pequeno corpo do bebê em suas teias. Aquilo me interessava muito e eu ficaria ali por horas vendo as aranhas devorarem o pequeno humano, mas precisava continuar minha procura.

Sentei em uma pedra e então finalmente vi o animal a uma certa distância, bebendo água em um riacho. Parecia estar recoberto com algo. O lampião não iluminava o suficiente. Cheguei mais perto dele, que parecia não se incomodar com minha presença, e então percebi que estava recoberto com sangue, talvez seu próprio sangue, que escapava de vários pequenos ferimentos pelo corpo. Precisava agora levá-lo dali, tratar seus ferimentos e dar-lhe comida e abrigo. Quando fui tentar pegá-lo no colo ele atacou e quase dilacerou minha mão, não fosse eu chutá-lo com força. A raiva então tomou conta de mim e mesmo com a mão arrebentada e sangrando eu resolvi ir a desforra. Peguei uma pedra e acertei-lhe o crânio. O animal caiu e começou a chorar, aquele mesmo choro que eu já conhecia. Não satisfeito eu bati sucessivas vezes com a pedra em sua cabeça, até que ele silenciasse completamente e eu conseguisse ver seus miolos! Sentei a seu lado e comecei a chorar, de pena, de raiva pela sua traição. Os animais não deveriam trair, apenas os homens. Levantei-me, peguei o lampião e fiz o caminho de volta, quando passei pelo viveiro de aranhas o bebê já estava completamente enrolado pela teia e se contorcia como uma larva. logo as aranhas iriam digeri-lo, sugar seus líquidos vitais. Passei pelas laranjeiras e pelos varais. Minha mão latejava muito, mas eu me recusava a olhá-la.

O que é um CMS?

Costumo falar com freqüência sobre os CMSs no 11pixels, mas muitas pessoas ainda não sabem muito bem o que eles são. Os CMSs (content management system), algo como sistemas de gerenciamento de conteúdo em português, são softwares que ficam hospedados em seu servidor e podem ser acessados pelo seu computador pessoal conectado a Internet. Estes gerenciadores servem para administrar o conteúdo do seu site, simplificando tarefas simples, como acrescentar ou editar uma página ou funcionalidade do site, como uma seção de notícias ou galeria de imagens. Depois que você acessa o sistema e salva as inclusões ou modificações em seu site, o conteúdo é publicado automaticamente na Web.

Quando você não utiliza um CMS, precisa de um programa de edição WYSIWYG para editar o seu HTML ou então de um programa como o Notepad++ para editar o código na unha, se for um usuário mais avançado. Além disso, quando precisar fazer uma alteração em todas as páginas do site, precisará alterar uma por uma ou, na melhor das hipóteses, utilizar algum comando (uma macro ou action) que altere todas ao mesmo tempo no programa que está utilizando para editar seu website. Depois disso, ainda precisará fazer o upload de todos os arquivos alterados, tornando todo o processo muito mais trabalhoso. Se você utilizar um CMS, nada disso será necessário e o processo ficará bem mais dinâmico, pois todas as alterações são feitas online e entram em funcionamento automaticamente, depois de efetuadas. A maioria desses sistemas utiliza templates (ou temas) customizáveis que serão a parte visual do seu site. Dessa forma, você tem um template para cada seção específica e também templates para blocos do site, como o menu de navegação, o rodapé e o cabeçalho. Então, se precisar colocar alguma informação no rodapé do seu site, em todas as páginas ao mesmo tempo, basta alterar um único arquivo e voilá, todas as centenas de páginas do seu site serão alteradas ao mesmo tempo.

Normalmente os sistemas que indico no 11pixels constroem as páginas dinamicamente quando acessados por um visitante, através do uso da linguagem de programação PHP e do banco de dados MySQL. Esta combinação de tecnologia é a mais difundida atualmente, mas também existem sistemas que trabalham com outras linguagens como o Perl ou o Python. Além disso, existem sistemas que funcionam com conteúdo estático no servidor, páginas que não são construídas dinamicamente cada vez que são acessadas, mas sim uma única vez, quando o administrador do site cadastra um novo conteúdo, gerando páginas estáticas com terminação HTML ou PHP. Normalmente quem defende esta abordagem tem o bom argumento de que desta forma o processador do servidor onde está hospedado o website não fica sobrecarregado, pois não precisa trabalhar com ações como acessos ao banco de dados e processamento PHP cada vez que a página é acessada. Mas para contornar este problema das páginas dinâmicas (que pode até causar o bloqueio da sua conta pelo seu administrador se o seu CMS não for bem otimizado) existem plugins que criam páginas estáticas e caches do conteúdo do seu site no servidor, diminuindo assim o poder de processamento. Em defesa das páginas dinâmicas também está a agilidade para atualizar seu website, que não precisa ser completamente reconstruído cada vez que é feita uma atualização estrutural.

Além de utilizar mais os sistemas dinâmicos baseados em PHP/MySQL, tenho uma preferência pelos sistemas de código aberto e gratuitos (que são duas coisas diferentes). Acredito no software livre e não tenho grana para investir em um sistema robusto, que pode ser muito caro. Gosto também da maneira colaborativa como os problemas são resolvidos e os sistemas aperfeiçoados nas comunidades de código aberto. Não concordo com a idéia de sistemas pagos e proprietários, mas acho que cada um tem a liberdade para acreditar no que quiser e trabalhar da forma como melhor lhe convêm. E sei que existem ótimos sistemas pagos no mercado, com ótimos profissionais trabalhando em torno deles para torná-los sistemas de ponta. Um bom exemplo é o Expression Engine, que também oferece uma opção grátis com menos funcionalidades que a versão paga. A vantagem de um sistema pago é que você geralmente tem direito a suporte técnico e não precisa ficar fuçando os fóruns de discussão para encontrar as respostas para sua dúvida. Se você tem pouco tempo e algum dinheiro para desembolsar, pode ser uma boa opção.

Listo abaixo os 11 CMSs que considero os mais importantes atualmente, a maioria de código aberto e rodando em ambiente LAMP (Linux, Apache, MySQL e PHP). São sistemas variados e muito diferentes entre si, alguns próprios para sites pequenos, outros originalmente desenvolvidos para blogs e alguns potentes o suficiente para administrar mega-portais. Nos próximos posts, vou falar sobre cada um desses sistemas. Minha experiência com cada um deles, seus prós e contras.

CMS Made Simple
Drupal
WordPress
Textpattern
sNews
Typo3
Typolight
Joomla
SilverStripe
ExpressionEngine
Movable Type

Brat Pack

Outro dia eu estava conversando com o Ivan Jerônimo sobre a censura na DC e falei do caso do Alan Moore, que teve uma revista do Monstro do Pântano cancelada por fazer o personagem viajar no tempo e se encontrar com Jesus Cristo. Então o Ivan falou que eu estava errado, que não havia sido o Moore que escreveu esta história. Concordei com ele na hora. Engano meu, o Moore tinha um projeto para o Monstro do Pântano que conseguiu finalizar na DC, apesar de ter tido outros desentendimentos com a editora por motivos diversos. Mas eu lembrava dessa censura relacionada a Cristo e então fui pesquisar, descobrindo que havia sido o Rich Veitch o censurado neste caso específico, o que causou a sua saída da DC.

Descobri também a minissérie Bratpack. Publicado em 1998, foi uma resposta ácida de Veitch à censura da DC e também uma crítica ao mercado de quadrinhos daquela época, que explorava os artistas e os personagens, culminando com votações entre os leitores como a que decidiu o fim do Robin (Jason Todd) na época. Por isso, Bratpack acaba sendo datada, como bem lembrou o Zé Oliboni no Universo HQ, pois não vivemos mais esta época. Comprei a edição brasileira para conferir e realmente não é o que eu esperava. Sem a introdução do Neil Gaiman, que acompanha esta edição, e as notas da orelha e da contracapa, que descrevem o contexto em que a revista foi escrita, ela não tem muito sentido. Os personagens da trama: Trueman, Doninha Noturna, Senhora da Lua, Rei Rad e Juiz Júri se referem, respectivamente, ao Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Arqueiro Verde e Juiz Dredd. Os heróis de Slumburg, a cidade fictícia de Brat Pack, são junkies, homossexuais e degenerados, tudo o que a puritana DC não gostaria em seus maiores heróis, e estão mais preocupados com o licenciamento das suas imagens e dos seus parceiros mirins do que com o combate ao crime. Acho que vale a leitura, mas acaba sendo o desabafo de um autor descontente em uma época específica dos quadrinhos estadunidense. E se o leitor não estiver armado com todas estas informações, pode ficar sem entender bem a história.

Título: BRAT PACK (HQM Editora) – Edição especial
Autores: Rick Veitch (roteiro e arte).
Preço: R$ 29,90
Número de páginas: 176
Data de lançamento: Novembro de 2007

Almoço de domingo

Fugi quando minha mãe chamava todos os familiares para o almoço de domingo, que geralmente contém batatas em forma de maionese e desenhos animados na sala de estar. Corri antes mesmo que o caminhão com a mobília da nova vizinha manca abrisse as duas grandes portas da retaguarda e fizesse esvoaçar a conhecida poeira da mudança em dias de domingo nublado. Quando cheguei na banca da esquina o jornaleiro adivinhou que eu procurava me refugiar do frango assado e abriu o alçapão camuflado pela pilha de encalhe com os jornais de sábado, quando todos se recusaram a aceitar a manchete da capa sobre a queda da muralha da china por um grupo de cidadãos que se dispuseram a pular todos ao mesmo tempo com o pretexto de tirar a terra do seu eixo, mesmo que por alguns míseros instantes. Ainda tive tempo de encher o cantil com calda de picolé derretido antes que o jornaleiro me desse uma rasteira e eu caísse rolando em um grande poço de no mínimo (senão igual) a uma boa dezena de centenas de metros à direita do açougue, que sofria com o derretimento de quartos de boi do campo recém carimbados e vermelhos devido ao sangue drenado e transformado em morcela antes mesmo do frigorífico ter ficado sem energia elétrica. As pessoas se amontoavam para comprar velas no mercadinho da esquina quando entrei correndo e berrando “incêndio” a plenos pulmões apenas para não precisar enfrentar a fila do caixa e poder pegar meia dúzia de balas de banana e um pacote prateado de batatas fritas trangênicas sabor churrasco. Liguei para casa e falei com a camisa esticada em cima do fone, insistindo que o “prisioneiro” passava bem e seria entregue em poucos minutos, com uma amnésia crônica e por isso nunca poderia nos identificar, nós que estudávamos a raça humana por tanto tempo e tínhamos a capacidade de encher os estômagos desses “símios” com alimentação suficiente para agüentar até a janta, desde que ela não fosse composta de maionese gelada do meio dia. Do outro lado da linha o ser genitor parecia pensar cuidadosamente no caso: ouvia-se apenas uma respiração e (quase inaudível, em background) a contagem de números em ordem progressiva. Depois de uma rápida negociação passei os dígitos da minha conta em alguma ilha caribenha e lembrei que dentro de pouco tempo o alçapão mágico do jornaleiro se fecharia, merecendo minha atenção especial. Fui ao posto de gasolina e pedi cinco sacos de emergência, dizendo que meu rico pai diplomata pagaria em dobro se algum dos saudáveis rapazes que ali trabalhavam pudessem me acompanhar até o automóvel que estava lá embaixo atravancando o trânsito, pronto para ser multado por um guarda de quepe marrom e calças curtas atochadas em sua pequena bunda. Enquanto eu e o escolhido corríamos para o local do crime, cada um levando um saco e meio de combustível, ganhei sua confiança através da confissão das mais íntimas e infantis fantasias sexuais, e então proclamei que me pai preferia gasolina azul de antigos biplanos já em extinção devido à suja concorrência com os concordes de bicos retráteis. Choramos abraçados enquanto derramávamos quase a totalidade do líquido volátil sobre um conjunto de formigueiros feitos com palhas de milho bem à beira de uma estrada que fica a duas quadras da janela do sótão da minha casa. Puxei o capuz preto para que ninguém me reconhecesse, senão teria que solicitar a ajuda do frentista que admirava com seus olhos sorrateiros de homem santo enquanto o fogo torrava os milhares de corpos já negros das criaturas coletivas e descerebradas que talvez nem mesmo tivessem o bom hábito de sentar aos domingos em uma sala de jantar com os filhos para comer maionese com frango frito e ver desenhos animados. Depois de convencer o frentista de que o melhor remédio seria nos separarmos antes que os vietcongues sentissem o cheiro das formigas torradas, corri para a padaria disposto a comprar um pacote de finos pães sírios para agradar minha pobre mãe, que há esta hora já deveria estar ligando para o esquadrão antibomba ou outro aparelho do tipo, a fim de entrar em contato com os seqüestradores extraterrenos. Enquanto olhava para os números que não paravam de transmutar verdemente em meu relógio de pulso eu corria para a banca em busca do portal sagrado que me entregaria são e salvo para meus genitores. Durante o trajeto senti aquela incomoda sensação quando meu tênis fabricado pela infantil mão-de-obra barata de algum país oriental devorou completamente minha meia com a bandeira daquele país que explora o primeiro com suas propagandas de gente impossivelmente feliz, bonita e saudável correndo em dias maravilhosos. O ingênuo devaneio geopolítico não me impediu de rasgar a bandeira com nojo vomitesco e lançá-la na primeira grade de bueiro ainda em funcionamento àquela hora da tarde. Olhei então para as rugas da minha cara refletidas em uma poça d’água e me surpreendi com a velocidade com que aquele dia havia passado. Podia ver o zinco da banca refletindo o pouco sol amarelo do entardecer por trás da cadeia de montanhas forradas de mata atlântica reflorestada. Um tele-transporte seria arriscado naquela hora, por isso optei por dois pacotes de figurinhas de jogadores de futebol e o jornal de domingo, que pingava um pouco de calda de frutas dos picolés empilhados no freezer gorgolejante. Regateei com o jornaleiro e ele prometeu de joelhos que sua velha mãe precisava fazer uma dezena de cirurgias e por isso o melhor seria um tiro de carabina que estava tão cara que mesmo penhorando toda sua mobília seria impossível conseguir a quantia antes da jogatina do próximo final de semana. Levantei a mão em silêncio, desgostoso com suas lamúrias e ele me deu um caramelo em troca de minha compreensão. Quando cheguei em casa todos me esperavam no hall de entrada com suas caras estupefatas. Joguei com carinho o pacote de pães sírios no colo da minha mãe e durante um mortal por cima da mesa de centro (já estávamos todos na sala de estar), arremessei o jornal no colo de meu pai. Meu avô paterno foi o único que sorriu, mesmo sem tirar o cachimbo manchuriano da boca enrugada. Propus uma reunião em volta de uma fogueira no centro da cozinha, que era forrada de pisos não inflamáveis feitos de cerâmica refratária assada em fornos a temperaturas já tão escaldantes. Dessa vez não conquistei nem mesmo a simpatia de meu avô, podia ver isso em seu retratado rosto empoeirado. Sentei na cama e olhei os meus familiares em cima da penteadeira de madeira descascada, todos me acusando com seus estáticos olhares de reprovação. Tentei ainda argumentar em meu favor, mas obtive apenas o silêncio do grupo enfileirado como pedras de dominó.

(publicado no 5º Conto e Poesia do Sinergia, 2005. p.11)

Domínio “.com.br” liberado para pessoa física

Finalmente o Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), órgão criado pelo governo em 2003 para coordenar e integrar todas as iniciativas de serviços Internet no país, decidiu liberar o registro de domínios “.com.br” para pessoas físicas, bastando a utilização do CPF. É uma mudança muito aguardada para todos que trabalham com web e para os internautas brasileiros em geral. Até ontem, só empresas com CNPJ podiam registrar os domínios “.com.br”, que é a terminação mais procurada e difundida na web, não apenas por estabelecimentos comerciais, como sugere a terminação, mas também por pessoas físicas ou projetos sem fins comerciais. Devido a esse empecilho, muitos optavam por registrar um domínio internacional “.com”, já que lá fora essa burocracia nunca existiu. Dessa forma são as empresas estrangeiras que lucram e esses sites deixam de constar na relação de domínios brasileiros, fazendo com que os números não representam a proporção real de site brasileiros. É bem provável que essa liberação incentive uma corrida ao registro de domínios nos próximos dias. Por isso, se você ainda não havia registrado seu domínio por não ter uma empresa, melhor reservar o seu através de uma visita ao Registro.br.

Para registrar seu domínio, além do seu endereço completo e do CPF, precisa também de um host para hospedá-lo. Se você não deseja fazer o seu website agora, mas apenas garantir seu domínio antes que um espertinho pegue, existem algumas alternativas. Uma delas é contratar uma “reserva de domínio” que muitas empresas de hospedagem oferecem, por valores médios de R$50,00 anuais. Mas se você não quiser desembolsar nada além da anuidade do registro.br, que é de R$30,00, basta utilizar um ótimo serviço grátis chamado DNS Park. Lá você se cadastra e gera os DNSs necessários para registrar seu domínio. Tem ainda a opção de redirecionar o seu site para seu blog hospedado no Blogspot ou no WordPress, por exemplo. Assim você tem o seu site, com domínio personalizado, pagando apenas R$30,00 ao ano, não é uma maravilha?