Onda de Lown

A carne, mole, se desmancha ao meu toque. “Não se comporta como as letras”, penso enquanto enfaixo meu braço. Não, as letras não se desfazem assim tão fácil, como gelatina. Tomei uma série de cuidados — agora inúteis — para não chegar a esse ponto. Felizmente ainda posso confiar nos ossos, mas os músculos expostos produzem dores tão lancinantes… posso vê-los se retesando, obedecendo ao meu comando, aflitos com sua nudez, tentando evitar a rápida aproximação da onda de poeira, umidade e fungos. “As letras estão aqui, intactas!”, berro enquanto chuto uma grande pilha de livros preenchidos aleatoriamente com histórias recicladas. Corro para a última janela ainda por fechar, a onda se aproxima. Tropeço, meu joelho executa uma manobra semicircular e se estilhaça de encontro ao chão de concreto. Grito, meus pulmões parecem estourar e sinto um buraco abrir-se em meu pescoço. O sangue não me assusta mais, na verdade parece refrescar meu corpo nu enquanto corre pelo meu peito. “É apenas um jogo”, procuro me convencer ao levantar cambaleante, apoiando todo o meu peso na perna esquerda. A janela parece cada vez mais distante e mal consigo respirar através da traqueotomia. Uma descarga de 360 joules monofásicos me arremessa novamente ao chão. “O que acontecerá comigo agora?”, pergunto com a certeza de que nunca ouvirei a resposta, de que morrerei da forma mais lenta e dolorosa possível assim que a onda devastadora abraçar e devorar o que resta do meu corpo. Deitado, sentindo-me derrotado, olho para as lombadas dos livros espalhados e recito alguma Teoria Selvagem: “Grandes e afiadas mãos lindas que rasgam e dilatam tudo que tocam”. Recebo uma nova descarga de 360 J e dessa vez consigo abrir os olhos. Dentro da ambulância, minha mulher me abraça e sinto em meus lábios o gosto salgado das suas lágrimas.

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