Onda de Lown

A carne, mole, se desmancha ao meu toque. “Não se comporta como as letras”, penso enquanto enfaixo meu braço. Não, as letras não se desfazem assim tão fácil, como gelatina. Tomei uma série de cuidados — agora inúteis — para não chegar a esse ponto. Felizmente ainda posso confiar nos ossos, mas os músculos expostos produzem dores tão lancinantes… posso vê-los se retesando, obedecendo ao meu comando, aflitos com sua nudez, tentando evitar a rápida aproximação da onda de poeira, umidade e fungos. “As letras estão aqui, intactas!”, berro enquanto chuto uma grande pilha de livros preenchidos aleatoriamente com histórias recicladas. Corro para a última janela ainda por fechar, a onda se aproxima. Tropeço, meu joelho executa uma manobra semicircular e se estilhaça de encontro ao chão de concreto. Grito, meus pulmões parecem estourar e sinto um buraco abrir-se em meu pescoço. O sangue não me assusta mais, na verdade parece refrescar meu corpo nu enquanto corre pelo meu peito. “É apenas um jogo”, procuro me convencer ao levantar cambaleante, apoiando todo o meu peso na perna esquerda. A janela parece cada vez mais distante e mal consigo respirar através da traqueotomia. Uma descarga de 360 joules monofásicos me arremessa novamente ao chão. “O que acontecerá comigo agora?”, pergunto com a certeza de que nunca ouvirei a resposta, de que morrerei da forma mais lenta e dolorosa possível assim que a onda devastadora abraçar e devorar o que resta do meu corpo. Deitado, sentindo-me derrotado, olho para as lombadas dos livros espalhados e recito alguma Teoria Selvagem: “Grandes e afiadas mãos lindas que rasgam e dilatam tudo que tocam”. Recebo uma nova descarga de 360 J e dessa vez consigo abrir os olhos. Dentro da ambulância, minha mulher me abraça e sinto em meus lábios o gosto salgado das suas lágrimas.

Peças esqueléticas

Acordou e olhou para o teto, tentando formar figuras geométricas com as estrelas fosforescentes. Suas costas doíam cada dia menos. Era sua primeira noite de sono depois que descobriu que uma de suas vértebras havia desaparecido há duas semanas enquanto dormia. No primeiro dia após o incidente começou o seu sofrimento: dores nas costas; de cabeça; de estômago; insônia; calafrios; disforia. Aturdido, ligou para seu amigo ourives, que ouviu silenciosamente seu lamento, avaliou a situação por alguns segundos, consultou seu Explicatio Tabularum Anatomicarum e relembrou Sêneca: “Até mesmo de um corpúsculo disforme pode sair um espírito realmente forte e virtuoso.” Desligou o telefone decepcionado e sentou no vaso sanitário, exausto, com os cotovelos ossudos machucando suas coxas. A vida parecia um martírio, sem nada de interessante para fazer, para se agarrar e lutar. Convalescente, folheava livros e zapeava pelos canais de TV, tentando encontrar algo que preenchesse aquele buraco em suas costas. Ficou tremendamente aborrecido com toda a ficção científica atual e decepcionado ao constatar que não restava nem um bom filme de deep space para aplacar a sua dor. “Os estúdios estão ficando velhos e repetitivos”, pensou e decidiu preparar um korean ginseng tea gold. Apesar da insistência da esposa, recusava-se a visitar um médico e preferia tratar sua dor abandonando o hábito vil de procurar escaramuças em frascos alcoólicos canforados; praticando a antiga técnica medicinal do suadouro; utilizando emplastros aromáticos e avaliando o cheiro da sua urina diariamente durante as dezenas de banhos com água superaquecida. Agora, lendo o artigo Benefits of Panax Ginseng, finalmente esboçava um sorriso, apesar de desconfiar que seu osso hióide fosse o próximo a abandoná-lo. A dor na parte da frente do pescoço já denunciava a retirada estratégica. Resolveu pensar apenas em coisas boas, como sugeria a esposa de Juan Ramirez ao seu marido após o assassinato do filho em Mavrak. Fechou os olhos sentindo os efeitos do chá e evocando seu mantra protetor: “blood and guts, slice and cut, blood and guts, slice and…” E quando o sono finalmente atendeu ao seu chamado, lembrou do Dr. Benway lambuzado de sangue e com aquele maldito tique nervoso no canto da boca enquanto colocava suas luvas de borracha.