O abraço de Natal

Era noite de Natal e Thiago estava sozinho em casa, deprimido. Precisava de um abraço, uma conversa amiga. Foi aí que o telefone tocou:

— Oi, querido, é a Lucinha, liguei pra te desejar Feliz Natal! Queria estar aí pra te dar um abraço!

— Certo, tô indo aí, me aguarde!

— Mas… peraí, não esquece que…

Thiago desligou antes que ela discordasse. Já estava na estrada quando o carro ficou sem combustível. Correu até o posto e só então percebeu que ainda estava usando suas pantufas do Mickey. Berrou para o frentista:

— Por favor, gasolina em um saco de emergência!

— Quanto?

Thiago vasculhou o bolso e encontrou apenas algumas moedas.

— Coloca aí: 65 centavos de gasolina! Da comum, hein!

O frentista colocou o combustível no saco e lhe entregou:

— Ok, tá aqui, foi R$ 2,65.

— Mas eu pedi só 65 centavos!

— É, mas o saco de emergência é R$ 2,00, então…

— Entendi, entendi. Faz assim, não tenho mais dinheiro, vou deixar o relógio de garantia, pode ser?

— Não é do Paraguai, né?

— Não, não, me entrega essa gasolina duma vez!

Thiago pegou a gasolina e correu em direção ao carro, que estava sendo guinchado naquele momento. Ainda tentou evitar, mas o motorista do guincho não ouviu seus gritos. Sem pensar duas vezes, correu pra casa de Lucinha. Faltavam apenas uns 3 km e a chuva que começava não estava tão forte assim.

Chegou quase sem fôlego. Tocou o interfone várias vezes, sem resposta. Então lembrou com espanto que Lucinha havia viajado para a casa dos pais e só voltaria em um mês. Não agüentando a pressão, Thiago perdeu a consciência…

Quando abriu os olhos, estava em um quarto de hospital, usando uma camisa-de-força. Uma enfermeira surgiu na porta e ele perguntou:

— O que aconteceu comigo?

— Você não lembra de nada?

— Não, o que houve?

— Lá pelas 3h30, recebemos uma ligação avisando que havia um louco gritando na rua. Quando a ambulância chegou, você estava lá, todo molhado, usando pantufas do Mickey, segurando um saco de gasolina e gritando sem parar: “Quero meu abraço de Natal! Quero meu abraço de Natal!”

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 27/12/08. p.3)

Zona livre de Papai Noel

E para comemorar esta data comercial tão importante, segue um poeminha ruim que escrevi faz uma década e em seguida um ótimo cartaz de natal do Nicolas Gass.

Barulho na Telha!

Ouvi o ruído na telha
E chamei forte o meu marido
Ele correu, e atirou. Nem ouvi o alarido
Mas o desgraçado rapidinho se escondeu
Procuramos a noite toda
Em vão, não havia mais nada na telha, além de algum sangue
Dormi com um olho no barulho e o outro no compromisso do outro dia
Acordei mastigando nada na boca, parecia uma vaca
Fui para a cozinha e lá estava meu marido em pranto, precisava de uma maca!
— Lembra o barulho na telha?
Lembrava e não entedia, mas onde diabos estava nosso filho?
— Lembra do rastro de sangue?
— Deus, a chaminé!!
— Neste Natal não teremos lareira nem nosso filho…

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via: ng graphics.

Zona livre de Papai NoelLembrando também que estou aderindo à campanha da cidade alemã Fluorn-Winzeln e declarando este blog “Zona livre de Papai Noel”, como diz o selo ao lado. O problema é que os alemães têm o São Nicolau para substituir o Noel e nem isso nós temos por aqui.

Ainda no espírico crítico-natalino, confira mais cartazes de Nicolas Gass no playlife. E nos velhos tempos, Noel vendia cigarros e dava rifles de presente!