Die-Cast Miniature Box

Die-Cast Miniature Box

Esta é a caixinha de um apontador que é a miniatura de um barco feita com metal fundido. Foi fabricada na China e encontrada na Av. Lauro Linhares no dia 7 de fevereiro de 2004, às 11h24 de um sábado ensolarado. Muitas pessoas devem ter pisoteado esta pobre embalagem até eu tê-la encontrado e adicionado à minha coleção particular. Na época eu escrevia um artigo sobre Duchamp e ela me lembrou a obra Unhappy Readymade do artista. Mas no caso da caixa chinesa os agentes transformadores foram os pés das pessoas, ao contrário da obra de Duchamp, que foi transformada pelo poder do vento. Então eu resolvi batizá-la de Mistreated Readymade em homenagem à obra de Duchamp.

Arte aos pedaços

Cut-up executado por William BurroughsTodos os trabalhos intelectuais e artísticos são feitos de pedaços da realidade do autor, da sua interpretação e observação do mundo, partes dos seus medos, traumas e certezas. Atualmente temos à nossa disposição as idéias de um crescente número de pensadores, porque há mais pessoas produzindo e a produção intelectual não está mais apenas nas mãos de um grupo privilegiado de indivíduos como era no passado. No entanto nós nos tornamos escravos da mass media, do marketing e da propaganda. O que nós vemos também é determinado pelo que nós ouvimos. Não somos completamente livres para ler ou escrever o que quisermos, como podemos ingenuamente pensar. Como um vírus, a linguagem nos obriga a construir a realidade de uma forma específica. Temos que dançar a música, seguir e obedecer as regras, não podemos transgredir o sistema. Por outro lado, podemos utilizar a voz de múltiplos indivíduos, desconstruir os seus discursos e recombinar as peças, quebrando as regras gramaticais e produzindo resultados diferentes. Escritores como William Burroughs levaram ao extremo a idéia de utilizar textos de outras fontes e autores para compor sua própria obra. Ele utilizou com sucesso a técnica conhecida como cut-up para compor narrativas esquizofrênicas em sua trilogia cut-up, composta dos livros Soft Machine (1961), The Ticket that Exploded (1962) e Nova Express (1964). Burroughs utilizava textos de várias fontes, encontrados a esmo ou cuidadosamente selecionados, e combinava com seus próprios textos para compor intrincadas narrativas, onde as ações ocorriam em lugares e tempos simultâneos, com novas vozes sussurrando e gritando a cada nova página.

Vários artistas e escritores, cada um em sua época, local e cultura, escaparam da idéia de autor como criador de cada mínima combinação de seus trabalhos. Como Marcel Duchamp uma vez falou, “todo mundo é artista”, porque o simples ato de observar e mentalmente colecionar partes da realidade, é um ato artístico. Como Duchamp gostava de afirmar, o que ele mais gostava era respirar e a sua respiração, superestimada, tornou-se objeto de arte. Fazer arte é representar e descrever o mundo a nossa volta com as peças que temos disponíveis a mão. Neste momento podemos ser Transformadores ou Repetidores, o Transformador será afetado pela combinação de elementos que está produzindo e em resposta irá afetar a combinação de uma forma proporcionalmente igual, enquanto o Repetidor irá se comportar como um espelho frio, que irá refletir e repetir a mesma coisa sem mudanças, ad infinitum.

* A imagem que ilustra este post mostra o escritor William Burroughs executando um cut-up com seu texto datilografado. Sequência de imagens do vídeo “Documentary on the life of William Burroughs”, dirigido por Howard Brookner.