Trajetória profissional

Depois de preencher várias fichas de emprego, percebi que precisava fazer um curso para incrementar meu currículo, pois a disputa estava acirrada. A hibernação durante o trabalho estava em alta em algumas repartições comerciais, então resolvi me aprimorar na técnica para não ficar fora do mercado.

Cheguei atrasado no primeiro dia de aula e peguei a turma dormindo. O professor estava à frente, de óculos escuros, expressão séria e um fio de baba correndo da boca. Depois de um mês de curso, recebi o diploma. Formado em sonecas prolongadas, fui em busca de emprego e após uma triagem rigorosa, consegui finalmente uma posição como revisor estratégico de relatórios independentes.

Eu fazia a triagem de relatórios robustos, sem perder meu tempo examinando seus conteúdos. Um dia resolvi abrir uma das pastas. Uma daquelas revistas de coluna social, com atores de novela, caiu do meio da capa do relatório, que ficou vazio em minhas mãos. Não havia mais nada, apenas a capa, com o número do protocolo e seu autor. Fiquei irritado com o ocorrido e quando fui investigar os outros processos, descobri que todos eram assim, constituídos apenas da capa, e de um miolo inútil, de conteúdo variado. Fui até a direção revelar a farsa e antes de abrir a boca, o chefe falou:

— Senhor Vicente, vejo que o senhor é novo aqui e li em seu currículo que fez um curso de hibernação, mas, por uma falha na seleção, acabou parando neste setor da empresa, com pessoas formadas em enrolação. Não se preocupe, vou lhe mostrar como trabalhamos aqui.

E então ele ficou de pé, pegou uma capa de relatório, como aqueles que eu estava selecionando, e falou:

— O senhor pega uma dessas capas, coloca um conteúdo qualquer no meio, e quando alguém lhe pedir que leia, o senhor simplesmente improvisa, com o maior cuidado para não ser descoberto. Capriche na defesa das suas idéias!

Não acreditei naquilo, meu próprio chefe me ensinando e estimulando a fingir que eu trabalhava. Voltei para o meu posto completamente abatido. Então, pus em prática meus conhecimentos para mostrar que eu discordava daquilo: resolvi hibernar durante vinte anos! Aposentei-me e hoje olho com orgulho para minha trajetória profissional.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 20/12/08. p.3)

Mimetismo

[Do gr. Mimetós, ‘imitado’, + -ismo.] S. m. Fenômeno que consiste em tomarem diversos animais a cor e configuração dos objetos em cujo meio vivem, ou de outros animais de grupos diferentes. Ocorre no camaleão, em borboletas etc.

Resolvi tomar aulas de mimetismo esta semana. Um professor de uma cidade eslovaca apareceu por aqui oferecendo um curso de algumas semanas. Um curso de mimetismo. Estava com vontade de fazer um cursinho diferente. Pensei em culinária, mas definitivamente, sou da geração microondas. Miojo e macarrão chinês instantâneo em potinho de isopor. “1 – complete com água; 2 – coloque no microondas por 2 min; 3 – Espere esfriar antes de degustar.” Prático, rápido e fulminante. Ultimamente tenho até usado aqueles pauzinhos para comer a gororoba chinesa instantânea. No início era uma tortura, meus dedos doíam, tinha vontade de jogar os pauzinhos longe e devorar tudo usando as mãos mesmo. Já me acostumei, apesar de ainda babar um pouco.

Estou gostando muito das aulas de mimetismo, difícil é todo dia ter que achar o professor. Na primeira aula uma aluna sentou nele pensando que fosse uma das cadeiras. Na hora em que resolveu colar um chiclete embaixo da cadeira sentiu algo peludo. “Ai! Tira a mão daí, menina!” Ela saiu correndo e berrando porta afora. Jogou um processo em cima dele por assédio sexual. Para a sorte do professor, o advogado dela ainda não conseguiu encontrá-lo para entregar a intimação!

Sinto que estou progredindo cada vez mais. Ontem me mimetizei tão bem que nem eu mesmo consegui me achar. Tive que berrar para minha irmã me ajudar, Ela veio correndo do quarto dela até o meu, ofegante: “qui foi, qui foi?” Expliquei a situação, na noite passada eu havia pegado no sono tentando criar a obra-prima do mimetismo, naquele momento não conseguia me lembrar mais no que havia me mimetizado. Ela procurou a manhã inteira, eu já estava morrendo de fome, sem saber o que fazer: “tá esquentando, tá esquentando, ih, esfriou”. Então pude ouvi-la sussurrando: “talvez com a luminária acessa eu consiga vasculhar melhor o ambiente”. Dei um berro de pavor antes que ela conectasse meus dedos do pé na tomada pensando que fosse o plug. Foi por pouco, quase que eu virava churrasquinho. Fiquei traumatizou com esta experiência, não sei se vou continuar com as aulas de mimetismo. Peguei o jornal de hoje e encontrei nos classificados um curso mais seguro pra fazer: “Aprenda a hibernar pelo resto do novo milênio em cinco lições práticas” Quem sabe, quem sabe…

(publicado na Revista Poté Nº6, EduFSC, 2000. p.24)