Arte aos pedaços

Cut-up executado por William BurroughsTodos os trabalhos intelectuais e artísticos são feitos de pedaços da realidade do autor, da sua interpretação e observação do mundo, partes dos seus medos, traumas e certezas. Atualmente temos à nossa disposição as idéias de um crescente número de pensadores, porque há mais pessoas produzindo e a produção intelectual não está mais apenas nas mãos de um grupo privilegiado de indivíduos como era no passado. No entanto nós nos tornamos escravos da mass media, do marketing e da propaganda. O que nós vemos também é determinado pelo que nós ouvimos. Não somos completamente livres para ler ou escrever o que quisermos, como podemos ingenuamente pensar. Como um vírus, a linguagem nos obriga a construir a realidade de uma forma específica. Temos que dançar a música, seguir e obedecer as regras, não podemos transgredir o sistema. Por outro lado, podemos utilizar a voz de múltiplos indivíduos, desconstruir os seus discursos e recombinar as peças, quebrando as regras gramaticais e produzindo resultados diferentes. Escritores como William Burroughs levaram ao extremo a idéia de utilizar textos de outras fontes e autores para compor sua própria obra. Ele utilizou com sucesso a técnica conhecida como cut-up para compor narrativas esquizofrênicas em sua trilogia cut-up, composta dos livros Soft Machine (1961), The Ticket that Exploded (1962) e Nova Express (1964). Burroughs utilizava textos de várias fontes, encontrados a esmo ou cuidadosamente selecionados, e combinava com seus próprios textos para compor intrincadas narrativas, onde as ações ocorriam em lugares e tempos simultâneos, com novas vozes sussurrando e gritando a cada nova página.

Vários artistas e escritores, cada um em sua época, local e cultura, escaparam da idéia de autor como criador de cada mínima combinação de seus trabalhos. Como Marcel Duchamp uma vez falou, “todo mundo é artista”, porque o simples ato de observar e mentalmente colecionar partes da realidade, é um ato artístico. Como Duchamp gostava de afirmar, o que ele mais gostava era respirar e a sua respiração, superestimada, tornou-se objeto de arte. Fazer arte é representar e descrever o mundo a nossa volta com as peças que temos disponíveis a mão. Neste momento podemos ser Transformadores ou Repetidores, o Transformador será afetado pela combinação de elementos que está produzindo e em resposta irá afetar a combinação de uma forma proporcionalmente igual, enquanto o Repetidor irá se comportar como um espelho frio, que irá refletir e repetir a mesma coisa sem mudanças, ad infinitum.

* A imagem que ilustra este post mostra o escritor William Burroughs executando um cut-up com seu texto datilografado. Sequência de imagens do vídeo “Documentary on the life of William Burroughs”, dirigido por Howard Brookner.