O engarrafamento final

O causo a seguir se passa no futuro, quando todos os cidadãos terão condições de ter o seu carro próprio e os engarrafamentos serão tão gigantes que qualquer pedacinho livre de estrada será disputado a tapa. E num belo dia, quando todos resolverem sair de casa ao mesmo tempo, os carros ficarão todos encaixados igual um quebra-cabeça. O nosso repórter dá mais detalhes:

— E atenção, estamos aqui na ponte Pedro Ivo, onde os carros estão parados desde ontem no maior engarrafamento da história. Descobrimos que o último pedaço de estrada livre do planeta é aqui em Florianópolis, lá na av. Rio Branco, onde um carro emperrou, fazendo tudo parar. E agora vamos falar com o sr. João, que está aqui no carro dele preparando o seu almoço. Com licença, sr. João, o que o senhor está achando de Florianópolis entrar para a história com o último espaço de estrada disponível no planeta?

— Bem, eu acho uma barbaridade ficar aqui desde ontem esperando por um carro encrencado lá na Rio Branco. Onde é que estão as autoridades? Ninguém faz nada? Mas que baita sacanagem.

— Mas, o senhor não acha um orgulho pra cidade, ter o último pedacinho de estrada livre do planeta para se movimentar?

— Olha, meu rapaz, pode apostar que não estou nem um pouco contente de estar 36 horas nessa fila. E não é porque a cidade entra para a história que vou arreganhar meus dentes pra tua câmera.

— Ok, não fique nervoso, sr. João. Mas vamos contatar o nosso correspondente Nestor, que está lá na av. Rio Branco, falando com o proprietário do veículo enguiçado que fez a cidade entrar pra história. Fala Nestor!

— Oi Edson, estou aqui com o Cláudio, tentando entrevistá-lo, mas as buzinadas dos impacientes estão muito altas. Sr. Cláudio, uma palavrinha para a TV:

— Eu queria mandar um abraço pros meus pais e dizer que estou muito orgulhoso de participar desse evento. Não foi planejado e ainda estou um pouco emocionado, mas com certeza isso mudou minha vida…

E assim, com muito bom humor, os cidadãos da Ilha da Magia conseguem lidar com a situação, enquanto motoristas de todo o planeta aguardam o nosso amigo Cláudio dar sua entrevista, consertar seu carro e liberar a estrada para que os carros vagarosamente voltem a rodar.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 06/9/08. p.3)

Lei Seca

Todos estão apavorados com a lei seca. Alguns bares já estão até pagando motoristas que levam clientes para casa. Noutro dia, no meio da tarde, um amigo resolveu beber uma cervejinha no boteco e acabou se livrando do bafômetro por uma simples confusão.

Depois de beber alguns copos a mais ele resolveu ir para casa, mas ficou desesperado quando percebeu que seu carro havia desaparecido da frente do bar. Perguntou nervoso ao dono do bar se ele não havia percebido nada de estranho e o homem respondeu negativamente. Então meu amigo ligou para a polícia e deu queixa do roubo do carro. Já conformado com a situação, ele foi embora a pé e só então lembrou que havia deixado o carro estacionado em outra rua.

Aliviado, abriu o carro e foi verificar se estava tudo em ordem. No momento em que girou a ignição, duas viaturas policiais chegaram com as sirenes ligadas e pediram para que ele saísse do carro com as mãos para cima. Ele saiu satisfeito e dando os parabéns aos policiais: “vocês são muito eficientes, mas não se preocupem, o carro é meu”. Os policiais se entreolharam e não entenderam o seu comportamento. Pediram os seus documentos. Enquanto vasculhava os bolsos à procura da sua carteira, ele voltou a informar que o carro era seu, que havia sido um engano, que o carro não havia sido roubado. Por fim, informou que esqueceu os documentos em casa, mas que morava perto e poderia buscá-los. Um dos policiais o acompanhou no carro, enquanto as viaturas o seguiam. Dentro do veículo ele falou ao policial que havia bebido, e se esta ocorrência não seria um problema com a nova lei. Mas o policial o tranqüilizou, já que eles estavam atendendo um chamado de roubo, e não de embriaguez.

Tudo confirmado, documentos em ordem e ele liberado. Depois desse susto, com certeza ele vai pensar duas vezes antes de sair de carro para beber, ou então, no mínimo, vai tomar um bom remédio para a memória.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 19/7/08. p.3)