As Escavações

As EscavaçõesCaro irmão, Há duas semanas venho comandando uma escavação aqui na fazenda. Você bem sabe: segundo nossa mãe, somos gêmeos univitelinos. Pois bem, pretendo me certificar de que nossa mãe realmente estava falando a verdade. Os homens que contratei trabalham sem parar, dia e noite. Pedi a eles que sacrificassem até mesmo o domingo para que eu pudesse alcançar o meu intento. Um dos escavadores é um velho senhor que prepara cigarros de palha com tamanha maestria, que até mesmo você ficaria impressionado. Montei ao lado da escavação uma barraca com pedaços de bambu atados com corda de sisal e cobertos com aquela velha pele de elefante marinho. Durante à tarde, quando o sol está começando a inclinar-se, mas ainda machuca a pele como um punhal, costumo conversar com o senhor do cigarro de palha. Sinto que ele é a peça mais importante dentro do grupo, mesmo não escavando com a desenvoltura dos mais jovens, como o rapaz ruivo de olhos claros. Ontem, durante meus sonhos febris e meu ranger de dentes, fui acordado repentinamente pelo senhor de bigodes longos, que pertence ao turno da noite. Ele me dizia que os homens estavam aflitos, pois haviam descoberto algo no canteiro principal. Os animais, principalmente as vacas, faziam um barulho ensurdecedor, como se percebessem algo. Coloquei o roupão sobre meu couro nu, vesti os óculos e persegui o senhor pelos labirintos formados pelos montes de terra negra e fértil. Cheguei à beirada do canteiro principal e desci as escadas até o fundo, onde os homens se reuniam sentados em volta de uma fogueira. Na ocasião eu me senti destituído de minha liderança, talvez devido ao horário ou outro fator que distorcia minha realidade particular. O jovem ruivo, que fazia turno duplo para poder folgar no outro dia, me expôs o problema: disse que homens estavam exaustos, que a ração estava cada vez menor, que as escavações pareciam não ter propósito algum. Nesse momento, sem que os homens percebessem, meu humor começou a se alterar. Você bem sabe que odeio ser questionado. Meu desprezo por aqueles imbecis chegou a tal ponto que eu os comparei aos vermes que rastejavam por aquelas paredes de terra. Nenhum deles fazia idéia do quão importante era o que eu fazia naquele local. Nenhum deles imaginava de que eram apenas uma extensão do meu intelecto, como braços e pernas mecânicas atados ao meu corpo para por em prática minhas idéias. De qualquer forma permaneci quieto, pois precisava deles para levar até o fim as escavações. Agora, enquanto escrevo para você esta carta, as escavações continuam lá fora. Consegui acalmar os homens naquela noite, mas sinto que o inominável ainda está por vir.