Componentes de passagens

Viajei dez anos no passado hoje pela manhã. Foi uma viagem rápida. Quando lá cheguei me encontrei sentado na varanda da casa dos nossos pais, junto com um rapaz dez anos mais novo, que descobri depois, havia viajado dez anos no futuro para a reunião. Os dois estavam me esperando e fui enfático quando disse: “desculpem, mas as coisas não mudaram muito, vocês precisam tentar uma nova abordagem”. Os dois pareciam já saber da notícia e olharam um pouco apáticos por sobre meu ombro. Quando olhei para trás me encontrei mais velho, olhando para nós. O fantasma ou simulacro e as três figuras do idêntico em relação à diferença, pensei enquanto ouvia o eco da música Cristóbal, de Devendra Banhart: “No te vayas si te vas”. Os três olhavam para mim, como se eu tivesse a solução para nosso problema. Então comecei meu monólogo: “nada é mais exemplar do que a expansão, a ampliação do espaço geográfico e relaxamento da guarda. As formas do negativo aparecem nos termos atuais, mas somente como separados da virtualidade e do movimento de sua atualização”. Fui elegantemente interrompido em minha fala pelo mais velho, que sussurrou em meu ouvido: “Não preocupe nossos jovens amigos com essas ultrapassadas masturbações pós-estruturalistas”. E então, dirigindo-se para todos, tirou do bolso uma caixinha de baralhos e falou: “desfaçam já essas caras apáticas e me consigam uma mesa, vou mostrar alguns truques que venho treinando nos últimos anos”.

2 comentários sobre “Componentes de passagens

  1. Muito bom, Alephito!!! Adoro contos e crônicas de viagens no tempo. Adorei esta. Continue o bom trabalho. Semana que vem quero uma de vampiros e na outra uma com robôs ou dinossauros.

    Véras

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