Todo o tempo do mundo

A expressão “todo o tempo do mundo” pode ser uma armadilha, dependendo do ponto de vista. Um bom exemplo é aquela conta em aberto. Até o dia do vencimento, pode ser paga em qualquer banco e você acha que tem todo o tempo do mundo para resolver o assunto. Três da tarde do fatídico dia e você percebe que tem mais uma longa e infinita hora pra pagar a conta. Dá pra fazer muita coisa em uma hora, você pensa. Você pode ler um livro completo, assistir a um filme, escrever um romance, viver uma vida! Até que você decide — tarde demais — correr até o banco e dá com a cara na porta, enquanto o guarda, com expressão séria, recusa a sua entrada na agência. Você desiste, afinal é sexta-feira. Na segunda-feira, além de pagar multa por atraso e juros de três dias, você vai ter que ir à procura daquele banco que está no boleto, do qual nunca ouviu falar, e que provavelmente tem apenas uma agência na cidade, longe pra danar. Mas, na caminhada, você acaba descobrindo lugares diferentes na cidade.

Ou então é sábado e depois de meses chovendo finalmente deu um dia de sol em Florianópolis. Você decide beber uma cerveja com os amigos naquele barzinho no Morro das Pedras, 2h da tarde, quando alguém lembra do inevitável: “Melhor voltarmos logo, todo mundo resolveu aproveitar o sol e lá pelas 5h o trânsito fica parado até o trevo do aeroporto”. Você olha pro copo de cerveja, olha para as ondas quebrando na praia, e responde que o melhor é aproveitar a cerveja, pois vocês têm todo o tempo do mundo. Duas horas depois você resolve debandar e descobre que duas horas de prazer custaram outras duas de incomodação no crescente engarrafamento de Florianópolis. Mas, enquanto dirige vagarosamente o carro, acaba percebendo uma bela casinha à venda.

No final das contas, você tem seus oitenta e tantos anos e está lá sentado numa boa, apreciando um belo pôr-do-sol à sua frente, naquela casinha que comprou décadas atrás. Você chega até a fazer aquela analogia, do sol se pondo e da sua vida se esvaindo e lembra de todas as coisas que ainda precisa fazer na vida. Boceja e pensa tranquilamente: “Mas que pressa a minha, melhor esperar essa beleza de pôr-do-sol, afinal, ainda tenho todo o tempo do mundo”!

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 29/11/08. p.3)

O engarrafamento final

O causo a seguir se passa no futuro, quando todos os cidadãos terão condições de ter o seu carro próprio e os engarrafamentos serão tão gigantes que qualquer pedacinho livre de estrada será disputado a tapa. E num belo dia, quando todos resolverem sair de casa ao mesmo tempo, os carros ficarão todos encaixados igual um quebra-cabeça. O nosso repórter dá mais detalhes:

— E atenção, estamos aqui na ponte Pedro Ivo, onde os carros estão parados desde ontem no maior engarrafamento da história. Descobrimos que o último pedaço de estrada livre do planeta é aqui em Florianópolis, lá na av. Rio Branco, onde um carro emperrou, fazendo tudo parar. E agora vamos falar com o sr. João, que está aqui no carro dele preparando o seu almoço. Com licença, sr. João, o que o senhor está achando de Florianópolis entrar para a história com o último espaço de estrada disponível no planeta?

— Bem, eu acho uma barbaridade ficar aqui desde ontem esperando por um carro encrencado lá na Rio Branco. Onde é que estão as autoridades? Ninguém faz nada? Mas que baita sacanagem.

— Mas, o senhor não acha um orgulho pra cidade, ter o último pedacinho de estrada livre do planeta para se movimentar?

— Olha, meu rapaz, pode apostar que não estou nem um pouco contente de estar 36 horas nessa fila. E não é porque a cidade entra para a história que vou arreganhar meus dentes pra tua câmera.

— Ok, não fique nervoso, sr. João. Mas vamos contatar o nosso correspondente Nestor, que está lá na av. Rio Branco, falando com o proprietário do veículo enguiçado que fez a cidade entrar pra história. Fala Nestor!

— Oi Edson, estou aqui com o Cláudio, tentando entrevistá-lo, mas as buzinadas dos impacientes estão muito altas. Sr. Cláudio, uma palavrinha para a TV:

— Eu queria mandar um abraço pros meus pais e dizer que estou muito orgulhoso de participar desse evento. Não foi planejado e ainda estou um pouco emocionado, mas com certeza isso mudou minha vida…

E assim, com muito bom humor, os cidadãos da Ilha da Magia conseguem lidar com a situação, enquanto motoristas de todo o planeta aguardam o nosso amigo Cláudio dar sua entrevista, consertar seu carro e liberar a estrada para que os carros vagarosamente voltem a rodar.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 06/9/08. p.3)