Evidências

Um dedoFaz duas horas que estou dando pela falta de algo no meu campo visual, logo acima da calculadora, sobre minha mesa de trabalho. Não consigo dar-me pela coisa. O que era? Não é do meu feitio falar sobre meus objetos perdidos, até mesmo porque isso não ocorre com freqüência, mas esse caso me chama a atenção em especial, porque tenho uma anotação referente a ele em meu bloco: “Vingom braxólkcu k fndiu”, apenas isso. Como sei que essa anotação se refere à coisa perdida e não sei o que é a coisa perdida? A resposta me parece óbvia. Organizo minha mesa de trabalho de forma metódica, avaliando a milimétrica distância entre os objetos. Às vezes, quando tenho algo sobre a mesa que merece algum comentário, eu o faço no bloco de notas que fica sempre no extremo superior esquerdo da mesa. Lembro-me que o objeto perdido foi o último colocado sobre ela, recebendo uma descrição no bloco. É horrível perder algo e procurá-lo freneticamente. Pior ainda é procurar sem saber se tem ou não importância. Torna-se perturbador quando vejo essa anotação em uma língua que nem ao menos conheço. Anotação essa feita pelo meu próprio punho. Mas a verdadeira razão pela qual escrevo este testemunho não é o objeto perdido, o incidente foi apenas um catalisador para que eu folhasse o bloco de anotações e verificasse que havia um pequeno inseto esmagado entre as folhas quadradas. Um pequeno inseto de asas transparentes, talvez assassinado. Desde já me isento de crime preterdoloso, mesmo porque não tinha a mínima idéia de que havia um cadáver na mesa. Algo me diz que alguém desovou o cadáver em minha ausência. Para provar essa tese terei que fazer uma necropsia ainda essa noite, e se não for muito exigente de minha parte chamarei duas testemunhas que assinarão o documento por mim redigido quando chegar à causa mortis da criatura. Batizei o morto de Vingom, rindo-me por batizar um morto. Chamei Ramus, um engenheiro civil, e Lobato, prefeito aposentado, para serem as testemunhas. Servi um modesto jantar antes da necropsia para deixar mais à vontade os convidados. No meio da janta, Ramus e Lobato começaram a lembrar nosso tempo de criança, quando brincávamos e pululávamos pela rua, sem compromisso com nada nem com ninguém. “E a Ana Maria, lembra dela? Aquela coisinha fofa.” Lobato olhou-o um pouco nervoso: “Ei, olha o que vai falar, Ramus, não esqueça que hoje ela é minha mulher!” “É verdade, quem diria, depois de passar pela mão do pessoal todo da rua ela foi virar sua mulher, o mundo dá voltas mesmo, e as vagabundas sempre encontram quem as sustente!” Lobato pulou por cima da mesa e agarrou o pescoço de Ramus, fazendo-o esganiçar palavras ininteligíveis enquanto caíam os dois no chão. De súbito, Ramus sacou uma pistola que tinha presa em um suporte na perna direita e desferiu um tiro na cabeça de seu algoz. Pedaços da cabeça de Lobato voaram por toda a sala, vindos do buraco feito pela bala. Espantei-me com a potência daquela pistola, que abrira um rombo na cabeça de meu amigo. Mal tive tempo de me recuperar, quando vi um novo esguicho de sangue e miolos provenientes da cabeça de Ramus, que desferia um tiro em sua própria boca. Vejam, a vida dá voltas. Eu estava desgraçado agora. Meus amigos, meus dois únicos amigos no mundo haviam me traído! No momento em que eu mais precisava deles para serem testemunhas de minha inocência no “Caso Vingom” eles me deixam, e como se não bastasse sujam toda a sala de jantar, que eu havia forrado com um papel de parede italiano lindo. Para quem eu mandaria a conta? Por mais amigos que eles me foram em vida eu nunca poderia deixar passar uma afronta desse tipo. Lembrei então do Rex, fazia um semana que eu não lhe dava comida, castigo por ter mijado no sofá vermelho da varanda. Chamei-o para uma limpeza rápida na sala de jantar enquanto punha em prática meus planos: a necropsia.

Relatório de Necropsia:
1. Quanto aos métodos adotados: O presente relatório não está atrelado a regras de qualquer tipo, tendo em vista que o necropsiador em questão não é profissional.
2. Quanto à descrição da criatura conhecida como Vingom: A criatura em estudo apresenta o corpo dividido em cefalotórax e abdome, com seis pares de apêndices representados pelas quelíceras, palpos e quatro pares de patas, e desprovido de antenas. Através da análise chegou-se à conclusão de que é um artrópode, do sub-ramo Bizarriforme.
3. Quanto à causa mortis: Descobriu-se que o ser Vingom possuía uma inflamação intersticial crônica no fígado, além disso a associação de lesões dos hepatócitos, desenvolvimento excessivo de tecido conjuntivo e formação de nódulos de regeneração caracterizam uma possível cirrose hepática. O quadro avançado da doença não deixa dúvidas de que Vingom foi derrotado pelo fígado.

Também não foi assassinato, mas de qualquer forma teimo em dizer que alguém colocou o Vingom em meu bloco, até mesmo porque debilitado como ele estava, nunca poderia ter se escondido ali. Chegando à sala, qual não foi minha surpresa ao ver Rex sorrindo de pança cheia! Ele não só comeu todos os miolos e lambeu todo o sangue de Ramus e Lobato que havia nas paredes, mas, além disso, comeu seus corpos, com osso e tudo. No chão apenas um dedo anular com uma aliança de casamento. A princípio achei que Rex queria fazer uma chacota comigo, deixando o dedo de meu amigo, depois me lembrei de um tratamento de canal que havia feito em meu cão anos atrás. O dentista preencheu a “panela” que tinha no seu molar cariado com um amálgama que provocava choques em Rex cada vez que ele mordia algo de metal. Diferença de potencial! Foi a única coisa que o dentista disse antes de Rex mostrar-lhe a força de sua mordida. Peguei o dedo de Lobato e o corpo do Vingom, coloquei-os em uma caixa de fósforos, embrulhei com papel verde e colei com fita adesiva transparente. Agora, sentado em minha velha poltrona de couro cru de vaca holandesa eu recordo as últimas horas, o quão monótonas foram. No fundo tive um saldo positivo, pois Rex fez todo o trabalho pesado por mim, e eu pude aprender um pouco mais sobre a fisiologia dos artrópodes. Mas algumas coisas ainda continuam sem solução: “Quem colocou o corpo do Vingom entre as folhas de meu bloco de anotações quadrado? Onde coloco a caixa de fósforos embrulhada com papel verde? E o que diabos eu perdi da minha mesa que não recordo mais?”

Jarbas e o Entregador de Frangos (Parte I)

JarbasEu estava com os gânglios à flor da pele naquela noite, quando Jarbas chamou-me na cozinha e mostrou o frango estilhaçado em cima da mesa. Tinha as bochechas encharcadas de sangue e logo percebi que ocorrera uma luta feroz naquele recinto. Recostei-me na cadeira acolchoada e pedi que Jarbas limpasse o rosto com o pano de prato e fizesse uma massagem em meus ombros, enquanto me explicava o que exatamente ocorrera em minha ausência. Ele começou com lamúrias e toda sorte de artifícios para evitar falar no assunto. Olhei-o nos olhos, ao contrário, reclinando minha cabeça para trás enquanto equilibrava a poltrona em apenas duas patas. Era uma manobra arriscada que eu não tentava há um bom tempo, mas eu precisava convencer o pobre Jarbas de que era necessário que ele me esclarecesse certos pontos, caso contrário eu não poderia ajudá-lo. Não foi necessário muito mais do que isso. Prontamente, ele lavou suas mãos na pia e sentou-se no banquinho chinês a minha frente, relatando de um fôlego só os últimos acontecimentos. Falou do entregador de frangos, que havia marcado de encontrá-lo na cozinha por volta das nove horas, para entregar uma encomenda ultra-secreta para um prato exótico. Pouco antes da hora combinada, Jarbas colocou seu melhor fraque, subiu no parapeito da janela do segundo andar e, tal qual um galo no cio, começou a cacarejar e ciscar minhocas e vermes. Nisso, o entregador de frangos estacionava seu carro em frente à casa, pouco depois de dar uma volta no chafariz. Nesse exato momento, eu estava pescando e flertando com mademoseille Rousseau, no Lago Albergue. Estava sorrindo, já com o bucho cheio de vinho e com uma ereção protuberante que despontava por baixo de minha calça colante francesa. Jarbas não conseguiu evitar que o entregador de frangos avistasse ele lá de baixo, pasmo, segurando um saco cheio de frangos holandeses ainda esperneando e tentando fugir dos recheios variados, que fariam lugar das suas vísceras tão logo Jarbas pudesse habilmente fazer as suas acrobacias com seu cutelo encantado. Acontece que a mulher do entregador de frangos é prima em terceiro grau da afilhada da avó de Jarbas, e seria contraprudente deixar o entregador sair daquela casa sem uma explicação adicional. Ele recompôs-se rapidamente e desceu para receber o entregador que passou por ele em direção à cozinha sem dizer uma só palavra. Parecia mais incomodado que o próprio Jarbas, que percebeu ali uma brecha para manobra. De repente, Jarbas apertava demais certos nervos sensíveis em meu pescoço e falei para ele tomar mais cuidado, pois parecia um pouco tenso. Eu não iria repreendê-lo, afinal tinha-o como filho e a segurança dos meus era mais importante do que qualquer coisa. Quanto ao seu comportamento suspeito na janela do segundo andar, era algo totalmente compreensivo, tamanha pressão que vinha sofrendo nos últimos dias, quando mademoisele Rousseau vinha rondando a casa com uma freqüência cada vez maior, trazendo suas amigas glutonas que solicitavam as mais absurdas iguarias a Jarbas que, apesar de ser um artista inigualável na cozinha, estava há semanas sem um repouso descente, e por essa razão, completamente fragilizado, sendo facilmente influenciado por fatores externos. Jarbas ouvia tudo com atenção, ficando mais calmo, como percebi pelo movimento de suas mãos. Subitamente, uma gota de sangue de suas bochechas mal lavadas caiu em minha testa, escorreu ao lado do meu nariz e foi se alojar em meu bigode. Dei uma fungada forte e pulei da poltrona, que caiu para trás derrubando Jarbas. Demônios, não era sangue de frango, como eu pensava desde o início, era sangue humano. Agora sim ele me devia explicações. Olhei para ele com preocupação e ordenei que terminasse de contar a história.