Como viver junto

Durante o café, ela coloca o gravador em cima da mesa, aperta no record e ele pergunta:

— Pra que isso?

— Lembra que na segunda pela manhã você falou que iríamos ao cinema e à noite você falou que não havia prometido nada disso?

— Eu, não!

— Então, por isso que, a partir de hoje, antes de sairmos para o trabalho, vou gravar a nossa conversa, assim depois eu posso cobrar o que você fala e não cumpre.

— Mas isso é um absurdo, onde está a minha privacidade?

— Como assim? Só estamos nós dois aqui, só quero documentar o que você fala.

— E como é que eu vou saber que você não vai mostrar pra ninguém?

— Não se preocupe, vou utilizar apenas sete fitas, para gravar uma semana, depois volto a gravar todas por cima na semana seguinte. Não ficará nada arquivado.

— Sete fitas? Ficou louca, vai ficar gravando tudo o que a gente fala?

— Não precisa ficar histérico, já falei que vou guardar bem as fitas e não vou mostrar pra ninguém.

— Por outro lado, é bom que você grave mesmo, assim vamos ver as coisas que você fala e não cumpre.

— Como assim? Eu não sou como você, não, eu cumpro as minhas promessas.

— Essa é boa, tá parecendo político com amnésia. Lembra que você havia me prometido vestir aquela fantasia no sábado à noite e…

Ela rapidamente aperta o botão de stop do gravador e ele pergunta espantado:

— Mas o que é isso, por que parou a gravação?

— Que besteira que você estava falando, pra que é que eu vou gravar isso? E se alguém ouve a fita?

— Ah, muito bem, quer dizer que agora você está com medo que alguém ouça as nossas conversas, entendi. Agora eu já sei como sabotar o seu plano.

— Ah, assim não vale, assim você está apelando.

— Mas quem começou foi você, minha querida.

— Tá, tá bom, eu paro, mas isso foi jogo sujo seu!

No outro dia, durante o café:

— Querido, hoje à noite nós vamos ao cinema, não vamos?

— Vamos sim, prometo.

— Muito bem, então assine aqui.

— Como assim? Assinar o quê?

Ela lhe entrega uma ficha, com uma anotação contendo a data e o compromisso: “Quarta-feira, 19h — Ir ao cinema”.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 06/12/08. p.3)

Propostas

Peguei o elevador outro dia, rumo ao vigésimo andar. Um sujeito de cabelo engomado, paletó impecável, entrou comigo. Por alguns segundos, aquele mal-estar normal de elevador imperou. Dá pra assobiar, fingir que está olhando pro teto, pro mostrador digital dos andares. Foi então que o sujeito resolveu quebrar o gelo:

— O senhor já tem em quem votar?

— Como? Ah, não senhor, ainda não pensei sobre o assunto.

— Não pensou ainda? Mas o senhor não vai cumprir o seu dever cívico?

— Meu dever cívico? Ah, sim, vou tentar, é que na verdade nem sei quem são os candidatos.

— Mas como não? Estão na TV, nos jornais, nos panfletos, nos carros de som na rua…

— Ah, esses adoráveis carros de som!

— Como disse?

— Nada não.

— Mas o senhor precisa escolher seu candidato logo, senão nem vai conseguir decorar o número dele. Tome aqui esse jornalzinho.

— Ora veja só, mas esse aqui na foto não é o senhor?

— Perfeitamente! Sou candidato a vereador.

— Bem que eu desconfiei quando o senhor entrou lá embaixo. E quais são as suas propostas?

— Propostas? Bem… Devolva-me aqui esse jornalzinho pra eu conferir. É difícil decorar isso tudo.

— Dificílimo, deve ter uma página inteira de propostas aí. Leva tempo pra decorar essas coisas. Pro senhor ter uma idéia, ainda não decorei seu número, que é muito menor.

— É, mas a sua vantagem é que você pode usar uma cola, escrita na mão, na hora de votar.

— Mas o bom é que o mandato de vereador é de 4 anos. No primeiro ano o senhor já decorou todas as suas propostas.

— O senhor tem toda a razão. Sabe que eu não tinha pensado nisso? O senhor acredita que alguns ainda me criticam por eu não saber minhas propostas de trabalho?

— Isso é inveja, com certeza! Eles sabem que o senhor é um homem sério. E está cheio de picaretas por aí.

— Sabe que eu gostei do senhor! É sincero e conhece uma pessoa honesta quando vê.

Finalmente, no 18º andar, ele saltou. Apertou minha mão com energia e falou que, se eu precisasse de qualquer coisa, poderia contar com ele. Rabiscou seu telefone pessoal em um santinho e me entregou. Só esqueci de avisá-lo que eu votava em outro município.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 4/10/08. p.3)