Adeus às armas

O amolador de facas corre desesperadamente pelo calçadão da Conselheiro Mafra. Vira na esquina com a Deodoro, tropeça, cai, levanta, olha para trás preocupado, continua correndo e vira na Felipe Schmidt. Os pedestres não entendem o que está acontecendo, apenas olham, riem do amolador de facas ou fazem caretas enquanto o louco corre sem parar.

Alguns metros atrás do amolador de facas, derrubando tudo e todos no caminho, estão dois caçadores, desses que caçam animais selvagens na África. Com chapéu de pele de bicho morto na cabeça, espingarda de caça na mão e sorriso sádico decorando o rosto.

Os caçadores que perseguem o amolador de facas são colecionadores de cabeças e precisam completar suas coleções. Alguns dias atrás, eles estavam em um barzinho no Mercado Público, bebendo cerveja, comendo iscas de peixe e conversando sobre suas caçadas anteriores, até que um deles lembrou:

— Preciso da cabeça de um amolador de facas. Ficaria ótima em minha sala de estar.

O outro caçador respondeu, animado:

— Boa lembrança! Também preciso de uma. Vamos aos rifles!

A caçada prossegue, e na praça XV o amolador de facas é encurralado com um caçador de cada lado. Com os rifles apontados em sua direção, o amolador de facas pergunta desesperado:

— O que vocês querem de mim? Por que estão me perseguindo? Se foi alguma faca que não ficou bem amolada, posso refazer o serviço, garanto!

Um dos caçadores responde, ainda ofegante:

— Caçamos e colecionamos cabeças…

O outro caçador toma a palavra:

— Nossa coleção está quase completa, mas ainda precisamos da cabeça de um amolador de facas!

O amolador de facas olha amedrontado e pergunta aos caçadores, como última saída:

— E por acaso vocês já têm a cabeça de um caçador?

Os dois caçadores param por um instante, entreolham-se com os cantos dos olhos, vão se virando um para outro devagarzinho…

O amolador de facas abandona a cena tranquilamente, enquanto ouve o som dos tiros às suas costas.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 22/11/08. p.3)