A Revelação

Aos quatro anos de idade, o garoto finalmente descobriu: as pessoas morriam, deixavam de funcionar, apodreciam e desintegravam, sobrando apenas a armação que dava sustentação ao amontoado de carne, nervos, cartilagens… Ele ficou triste, chorou, inconsolável no colo do pai. Mas também ficou intrigado com aquela revelação e começou a registrar o nome que os adultos davam àquela coisa horrível: ir para a cucuia, empacotar, estuporar-se, dar com o rabo na cerca, ir para o beleléu, vestir o paletó de madeira, virar presunto, bater a caçoleta, comer capim pela raiz, dar a alma a Deus, desencarnar, desviver, dizer adeus ao mundo, ir desta para uma melhor, ir para a cidade dos pés juntos, etecetera e tal.

A decepcionante revelação veio de uma de suas manias. Ele adorava brincar com insetos e toda sorte de pequenos animaizinhos. Ele tinha uma aranha de estimação, a Maricota, que guardava em um viveiro feito com os restos de um aquário desativado. Costumava colocá-la para brigar com outras que achava pelo quintal ou nos cantos escuros da garagem. Certa vez, em uma das brigas, a aranha adversária envolveu completamente Maricota com sua teia gosmenta e antes que ele pudesse fazer alguma coisa, a outra aranha começou a sugar os líquidos vitais de Maricota. Tentando remediar a situação, ele jogou longe a adversária com um peteleco e começou a tirar a teia que envolvia a pobre Maricota. Depois de soltá-la, viu que continuava encolhida, tremendo, enquanto o veneno de sua algoz espalhava-se por seu sistema circulatório. Não pôde fazer mais nada, nem respiração boca-a-boca funcionaria. Permaneceu impotente ao seu lado enquanto a vida se esvaía de sua pequena carcaça. Por semanas olhou o viveiro abandonado, lembrando dos bons momentos vividos com sua aranha de estimação.

Depois disso, logicamente, ele percebeu que as pessoas eram tão frágeis quanto a Maricota. “Bola pra frente”, o pai falou, usando mais uma dessas expressões que o garoto não entendia bem. “Filho, a vida continua, não dá pra parar”. Ele engoliu em seco, enxugou as lágrimas e seguiu o conselho do pai: viveu sua vida, envelheceu e fez de conta que aceitou as regras do jogo.

(escrito originalmente em 23/06/98 às 12h26 / publicada no Notícias do Dia em 13/12/08.)

Seu animal

Quanto ao seu animal, algo me preocupa nele. Quando aceitei a tarefa de tratá-lo em sua ausência, não sabia exatamente o que precisava ser feito. “É apenas um animal”, pensei enquanto tomávamos o café de despedida e você instruía-me sobre como proceder. Lembro que quando você o trouxe ele parecia muito assustado e logo foi se esconder na despensa. Então, como sempre, fiquei perdido em meus próprios pensamentos enquanto você apontava o saco de ração e dizia algo que já nem sei mais o que era. Ah, caro amigo, nunca aprendi a ouvir as pessoas, sou um canalha, um egoísta. Fico entediado com tudo e com todos e espero o máximo de atenção destas mesmas pessoas que ignoro. Então eu balançava a cabeça e concordava com tudo o que você me falava, mastigando pães e bolachas e bebendo chá. Nem me dei ao trabalho de perguntar para onde você viajaria e quando voltaria. Quer dizer, perguntei sim, e você respondeu. Confesso agora que perguntei por educação, perguntei para mostrar interesse e para parecer um sujeito normal. Lembro que fingi estar feliz com sua viagem, seria de trem, se não me engano. Na porta, enquanto nos abraçávamos, você me passava as últimas recomendações a respeito do seu animal. Você levantou o dedo, gesticulou e balançou a cabeça de um lado para o outro.

A primeira noite foi horrível, o animal chorava sem parar e não me deixou dormir. Fiquei com muita raiva. Fui até a despensa e berrei com ele, que por um instante ficou em silêncio. Voltei para o meu quarto, e quando estava voltando a cochilar, o animal retornou com as lamúrias. Saltei da cama com raiva. Não conseguia ver nada dentro da despensa, pois a lâmpada estava queimada e não tenho lanterna. O choro do animal era insuportável. Eu já havia colocado potes com água e comida na porta da despensa mas ele continuava. De qualquer forma, mesmo com o choro, consegui dormir naquela noite.

Na manhã seguinte descobri que a água e a comida estavam intactas, como eu havia deixado na outra noite. Durante todo o dia não ouvi um único sinal de vida do animal. Aquilo me alegrou mais do que preocupou. Eu tinha muito o que ler durante o dia e não suportaria aquele choro infernal. Veja, adoro animais, mas deveria ter confessado antes para você que odeio tratá-los ou ouvir seus ruídos. Assim, era cômodo para mim o silêncio da criatura.

Três dias se passaram e eu esqueci completamente que tinha um hóspede na despensa. Durante esse tempo ele não mais me incomodou, não mais me lembrou de sua existência. Na quarta à noite, enquanto estava na cama lendo um conto de Cortázar, lembrei-me do animal e meu coração deu um pulo. Corri para a despensa, e na porta, vi que a água e a comida continuavam intocadas. O que havia acontecido com o desgraçado? Eu estava transtornado e enraivecido por ter aceitado a tarefa. Agora, na escuridão, eu não poderia fazer nada. Resolvi voltar para cama, onde não consegui continuar minha leitura de forma alguma. O sono demorou muito para chegar.

Entrei na despensa com um velho lampião de querosene, nas paredes, nos varais e nas laranjeiras, várias teias de aranha brilhavam e refletiam a luz do fogo. Teias vazias de suas donas. Avistei um quadrado de vidro um pouco mais à frente, como um grande aquário, estava habitado por várias aranhas. Como em uma arena elas se atacavam e se devoravam. Em um canto do “viveiro” um recém nascido balançava os minúsculos braços com um sorriso estampado na cara sem olhos. Aranhas entravam pelas suas narinas em uma ordenada fila indiana, como formigas operárias. Enquanto isso outras aranhas pareciam enrolar o pequeno corpo do bebê em suas teias. Aquilo me interessava muito e eu ficaria ali por horas vendo as aranhas devorarem o pequeno humano, mas precisava continuar minha procura.

Sentei em uma pedra e então finalmente vi o animal a uma certa distância, bebendo água em um riacho. Parecia estar recoberto com algo. O lampião não iluminava o suficiente. Cheguei mais perto dele, que parecia não se incomodar com minha presença, e então percebi que estava recoberto com sangue, talvez seu próprio sangue, que escapava de vários pequenos ferimentos pelo corpo. Precisava agora levá-lo dali, tratar seus ferimentos e dar-lhe comida e abrigo. Quando fui tentar pegá-lo no colo ele atacou e quase dilacerou minha mão, não fosse eu chutá-lo com força. A raiva então tomou conta de mim e mesmo com a mão arrebentada e sangrando eu resolvi ir a desforra. Peguei uma pedra e acertei-lhe o crânio. O animal caiu e começou a chorar, aquele mesmo choro que eu já conhecia. Não satisfeito eu bati sucessivas vezes com a pedra em sua cabeça, até que ele silenciasse completamente e eu conseguisse ver seus miolos! Sentei a seu lado e comecei a chorar, de pena, de raiva pela sua traição. Os animais não deveriam trair, apenas os homens. Levantei-me, peguei o lampião e fiz o caminho de volta, quando passei pelo viveiro de aranhas o bebê já estava completamente enrolado pela teia e se contorcia como uma larva. logo as aranhas iriam digeri-lo, sugar seus líquidos vitais. Passei pelas laranjeiras e pelos varais. Minha mão latejava muito, mas eu me recusava a olhá-la.