Perdido em classificações

Venho tentando me organizar desde 1974, sem muito sucesso. Gavetas, pilhas, pastas, arquivos, fogueiras, classificações. Quando me disponho a colocar em ordem uma de minhas coleções de papéis, não sem antes tomar uma cerveja ou um calmante, pois o processo é realmente cansativo e altera meu humor, sei que o trabalho pela frente será árduo e depois de algumas horas provavelmente eu desistirei da tarefa e tudo estará perdido. A coisa começa realmente a ficar doentia no momento em que as categorias são criadas. Lembranças, xerox acadêmicos, folders e encartes de visitas a museus, contas… Mas então começam a surgir novas categorias, subcategorias ou então mesmo os papéis inclassificáveis. Receitas médicas, atas de reuniões de condomínio, anotações feitas ao telefone, manuais técnicos de eletrodomésticos, fotografias antigas, artigos de assuntos diversos… A certa altura, meu escritório está coberto de papéis, torres curvas e disformes.

Então comprei seis belas caixas plásticas para “arquivo-morto” e comecei a classificar meus papéis. Depois peguei meu bloco de notas e desenhei as seis caixas, descrevendo o conteúdo de cada uma delas com belas legendas coloridas.

Ontem, quando minha mulher me pediu um texto específico e falou “ah, esqueci que você nunca encontra suas coisas”, saquei meu bloco de notas do bolso e falei com autoridade: “Epa, vamos ver aqui no meu esquema”. E lá estava localizado o texto que ela queria: caixa cinco, após os folders das exposições de arte e antes das bulas de remédio – que podem parecer coisa de hipocondríaco. Mas, quando peguei a caixa, que deveria ser a quinta, lá estavam as multas de trânsito, as contas pagas e as lembranças de infância. Ela olhou pra mim, com aquele sorriso de “sabia que você não encontraria” e deu meia-volta. Da próxima vez vou lembrar de etiquetar as caixas por fora, pensei enquanto despejava todo o conteúdo no chão à procura do texto que ela queria.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 31/5/08. p.3)

Mimetismo

[Do gr. Mimetós, ‘imitado’, + -ismo.] S. m. Fenômeno que consiste em tomarem diversos animais a cor e configuração dos objetos em cujo meio vivem, ou de outros animais de grupos diferentes. Ocorre no camaleão, em borboletas etc.

Resolvi tomar aulas de mimetismo esta semana. Um professor de uma cidade eslovaca apareceu por aqui oferecendo um curso de algumas semanas. Um curso de mimetismo. Estava com vontade de fazer um cursinho diferente. Pensei em culinária, mas definitivamente, sou da geração microondas. Miojo e macarrão chinês instantâneo em potinho de isopor. “1 – complete com água; 2 – coloque no microondas por 2 min; 3 – Espere esfriar antes de degustar.” Prático, rápido e fulminante. Ultimamente tenho até usado aqueles pauzinhos para comer a gororoba chinesa instantânea. No início era uma tortura, meus dedos doíam, tinha vontade de jogar os pauzinhos longe e devorar tudo usando as mãos mesmo. Já me acostumei, apesar de ainda babar um pouco.

Estou gostando muito das aulas de mimetismo, difícil é todo dia ter que achar o professor. Na primeira aula uma aluna sentou nele pensando que fosse uma das cadeiras. Na hora em que resolveu colar um chiclete embaixo da cadeira sentiu algo peludo. “Ai! Tira a mão daí, menina!” Ela saiu correndo e berrando porta afora. Jogou um processo em cima dele por assédio sexual. Para a sorte do professor, o advogado dela ainda não conseguiu encontrá-lo para entregar a intimação!

Sinto que estou progredindo cada vez mais. Ontem me mimetizei tão bem que nem eu mesmo consegui me achar. Tive que berrar para minha irmã me ajudar, Ela veio correndo do quarto dela até o meu, ofegante: “qui foi, qui foi?” Expliquei a situação, na noite passada eu havia pegado no sono tentando criar a obra-prima do mimetismo, naquele momento não conseguia me lembrar mais no que havia me mimetizado. Ela procurou a manhã inteira, eu já estava morrendo de fome, sem saber o que fazer: “tá esquentando, tá esquentando, ih, esfriou”. Então pude ouvi-la sussurrando: “talvez com a luminária acessa eu consiga vasculhar melhor o ambiente”. Dei um berro de pavor antes que ela conectasse meus dedos do pé na tomada pensando que fosse o plug. Foi por pouco, quase que eu virava churrasquinho. Fiquei traumatizou com esta experiência, não sei se vou continuar com as aulas de mimetismo. Peguei o jornal de hoje e encontrei nos classificados um curso mais seguro pra fazer: “Aprenda a hibernar pelo resto do novo milênio em cinco lições práticas” Quem sabe, quem sabe…

(publicado na Revista Poté Nº6, EduFSC, 2000. p.24)

Em busca da organização

BoxesEu”despubliquei” este artigo temporariamente, para poder dar uma geral, aparar algumas arestas e acrescentar novos desvios milimetricamente calculados. Se você chegou aqui procurando por ele, sinta-se a vontade para fuçar meus outros textos e volte daqui a alguns dias, quando voltarei a publicar este artigo. E lembre-se: o segredo da boa macarronada está no molho!

O sono esclarecedor

Os pensamentos gotejantesE era durante o sono que as idéias passavam pelos meus olhos, pelas costas dos meus globos oculares, como uma miragem ou um filme disforme. Enquanto estava desperto, lutando para manter as pálpebras abertas e para ter idéias pertinentes e bem estruturadas, não conseguia resolver as questões, então o inevitável ocorria e era tarde demais, eu já pertencia à outra realidade e as respostas vinham rápidas como flashes e quando  acordava, por mais rápido que tentasse pegar uma caneta ou avançar sobre o teclado, meu sorriso de compreensão se esvaia com a mesma facilidade com que minhas pesadas pálpebras haviam caído momentos atrás. E este processo se repetia à exaustão e não havia progresso algum. A compreensão do assunto era a conta-gotas. Algumas palavras, frases, parágrafos, páginas e lá vamos nós, o esquecimento e a verdade vislumbrada por alguns microssegundos. E assim não havia muito a ser feito, além de tentar romper o ciclo, não dormir ou então tentar registrar os flashes a tempo.