Sentido adâmico

A procura pelo sentido adâmico de uma palavra parece-me um jogo de duas turbinas que giram em sentido oposto em um quarto fechado, adaptadas em paredes opostas. Uma sala vazia sobrevoando o vácuo. Quando sentencio uma palavra a carregar uma acepção, estou condenando-a ao meu entendimento. Como último recurso, posso roer meus polegares ou torcer meu pescoço para trás. Assim, tenho uma pequena chance de não deslizar sobre interpretações primordiais e provavelmente não conseguirei um efeito similar em outra ocasião, mesmo sob condições similares.

Perdas e Ganhos

Ele nunca tinha ganho na loteria ou coisa do tipo. Um dia teve um palpite. Os números apareceram na sua frente, piscando no meio de vários números de uma lista telefônica. Ele procurava nas páginas amarelas por uma oficina de automóveis e, de repente, lá estavam os números. Era o número do telefone, mais o número do edifício onde estava estabelecida a oficina. Doze dígitos que ele anotou e começou a analisar. Dividindo assim nos seis números necessários para faturar o prêmio acumulado. Era um palpite bom demais pra ser desperdiçado.

Enquanto caminhava até a lotérica, via os números se repetindo nas placas dos automóveis, nos números das residências e em todos os lugares que olhava. Chegou à lotérica e preencheu o cartão. Já sabia que seria o ganhador, agora restava saber se ganharia o prêmio sozinho.

No dia do resultado foi conferir o bilhete, já preocupado com todo o dinheiro que ganharia. Chegando à lotérica, descobriu que não tinha feito nem um único número. Por outro lado, ninguém havia acertado e o prêmio voltou a acumular. Era um sinal, só podia ser. Jogaria os mesmos números e ganharia um prêmio ainda maior. E repetiu a aposta.

Mas na segunda tentativa também não conseguiu nada. Insistente, ele continuou jogando duas vezes por semana, repetidamente. Nunca conseguiu fazer nem ao menos uma quina ou uma quadra. Jogou por meses e anos, sempre os mesmos números mágicos, sempre fazendo planos com o dinheiro que nunca chegava. Nunca perdia uma única aposta. Deixava tudo o que tinha pra fazer e corria pra pegar a lotérica aberta.

Depois de décadas, doente e no hospital, não podia mais ir à lotérica e o filho fazia sua aposta semanal. Na verdade, o filho dizia que fazia, pois nunca aceitara aquele vício do pai, que só pensava naquele prêmio.

Certo dia, acompanhando o sorteio pela TV do quarto de hospital, viu os seus números sendo sorteados, um a um. O filho lia concentrado um livro numa cadeira ao lado da cama. Não prestou atenção na TV nem no pai, que abria um grande sorriso de satisfação. A emoção foi tanta que o velho não agüentou. Conseguiu sussurrar uma última palavra: “ganhei”.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 27/9/08. p.3)