Grandes Esperanças

Adamastor sentou-se em frente à folha de papel, com a caneta em punho. Era o último dia do ano e os fogos deixavam claro que o momento mágico se aproximava, o momento da transmutação do tempo, quando o relógio imaginário e arbitrário mudaria a última casa do número oito para o nove. E lá estava ele, preparado para escrever uma lista com os projetos para 2009, coisa que nunca fez na vida e que sempre achou de uma cretinice sem tamanho, mas acabou se rendendo dessa vez. Afinal, com todas as dívidas que Adamastor havia contraído neste ano que acabava, com todas as desilusões com as mulheres e amigos, não custava nada tentar uma última saída, fazer seus planos e desejar, sozinho em seu apartamento na virada do ano, que 2009 fosse diferente.

Faltando poucos minutos para a virada, Adamastor já havia escrito uma relação de projetos, uma lista de pedidos e também havia enumerado todas as promessas para o ano que estava ali batendo à sua porta. E não é que alguém realmente bateu à porta naquele instante? Adamastor foi atender e deu de cara com um ancião, que foi entrando sem pedir licença, sentou-se no sofá e colocou os pés em cima da mesinha de centro. A barriga transbordava para fora da camisa. Adamastor não teve dúvidas e exclamou convencido:

— Ano Velho! Você veio se despedir?

— Que Ano Velho, o quê Adamastor, eu sou o Ano Novo, o Velho já está na UTI desde o início do ano e estive substituindo ele desde então, nos bastidores, e agora vou ter que trabalhar mais um ano inteiro. E ainda por cima, todo mundo espera muito de mim!

De repente, o Ano Novo caiu no choro, desesperado, trêmulo, pensando no trabalho enorme que teria pela frente, sem descansar, sem férias e provavelmente logo teria que pedir ajuda para 2010, pois não aguentaria o tranco. Adamastor olhou então para as dez páginas que havia escrito, com projetos, pedidos e promessas. Enquanto o Ano Novo chorava no sofá, ele rasgou todos os papéis e colocou na lixeira. Foi até a cozinha e pegou uma espumante e dois copos.

— Não fique assim, meu velho, tome um gole e vamos para a varanda ver os fogos.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 03/01/09  p.3)

Debut

Língua de SograVocê olha para o relógio e vê que está parado. Tira ele do prego e balança junto ao ouvido. Percebe os palhaços olhando e rindo de você sem entender sua operação. Esse é o sinal, a hora certa para matá-los. Enquanto os idiotas ainda riem e olham, você coloca o relógio no lugar, e mastigando uma barra de cereais vai até eles, que o cumprimentam com uma reverência gotejante e oferecem sorrisos falsos e olhos semicerrados. Você cochicha no ouvido de um deles que tem um plano para esta noite. O sujeito arregala e fica um tanto nervoso. Você fica ternamente feliz com a reação da criatura.

Sentado do lado de fora, você bebe uma cerveja e esmaga com cuidado uma barata que insiste em se arrastar. Um dos palhaços senta ao seu lado e você fala sem olhar para ele: “Muitas e muitas vezes eu fiz o que estou fazendo agora, olhando para o céu, tentando me projetar além dos olhos numa noite de lua cheia. Por vezes parece que não pertenço a este lugar, a estes velhos, gastos e apertados sapatos”.

Por um instante o palhaço fraqueja e olha para seus sapatos. Então você o esmaga como havia esmagado a barata. Um porco do mato passa correndo pelo pátio, arrastando uma pequena charrete branca com um poodle pintado de rosa fumando um charuto. O segundo palhaço olha espantado para você, depois para o chão, onde seu irmão se arrasta ao lado da barata, como em uma maratona bizarra.

Você ignora a dor dessas criaturas e sai andando pelo pátio. Um barulho estranho entre as árvores chama sua atenção: uma das debutantes da festa está no meio de uma pequena clareira, de quatro, com o vestido branco levantado enquanto um grande cão labrador a enraba. Um homem controla o animal pela coleira, dando mais ou menos corda conforme o grau das estocadas. Você circula vagarosamente a ponta da língua umedecida pelos lábios, enquanto admira o pêlo brilhante do animal. O homem percebe sua presença e avisa à filha.

Quando a garota tenta levantar o animal morde com força o seu braço e o sangue começa a jorrar. Ela não mostra sinal de dor e simplesmente dá um tapa no bicho, que fica brincalhão, de barriga pra cima, com seu pênis ainda exposto. Você decide que o show não é da sua conta e resolve comprar uns pinhões na barraquinha perto da saída do baile. Chegando lá você encontra alguns palhaços tentando arrebatar uma das menininhas da festa. Colocam seus paus pra fora para que a menina possa comparar e ver qual é o maior, mais rijo, mais grosso. Você não quer intervir, pois sabe que os costumes tribais têm sua razão de ser. Compra uma porção de pinhões com queijo ralado, embrulhados em um saquinho feito de jornais dobrados. Tanto o pinhão como o queijo estão indigestos, mesmo assim você come tudo, tentando mostrar boas maneiras, sorrindo para os passantes.

Você acaba dormindo no estacionamento, ao relento, enquanto o som da festa vai diminuindo gradativamente. Pela manhã está tudo vazio, coberto pelo lixo e pelos corpos restantes das brigas noturnas. Você vai para casa, escova os dentes e rega suas samambaias africanas. Senta em frente ao grande aquário e fica observando os peixes famintos se devorarem pelo resto do dia. Você resolve dormir cedo. Dá corda no despertador, escreve alguns apontamentos no diário e bebe um copo de água filtrada. Sonhos absurdos povoam seu sono.