Febre da desova

Com um pouco de espanto contido ele deparou-se com a febre da desova. A febre da desova pode ser percebida quando o fígado diz com veemência, depois de uma bela noitada: “aprume-se e ponha-se a caminho de casa”! Claro, isso depois de muita insistência e choradeira. Nesse momento a febre da desova já apresenta seus primeiros efeitos colaterais: boca seca e perda do intelecto. O indivíduo acredita ser possuidor de teorias mirabolantes que podem mudar completamente o sentido de toda a realidade. Algumas pessoas acreditam que a febre desperta certas capacidades adormecidas no cérebro humano, como a telepatia e o tele transporte. Mas a maioria dos afetados pela febre acaba confundindo delay com tele transporte. Junto com a febre da desova vem o consumo indiscriminado de álcool e alimentos com alto teor de gordura. Até hoje não se sabe se isso é resultado de efeitos colaterais psicológicos ou químicos. O fígado clama por paz e sossego afinal. Com poucas chances de viver bombardeado por todos os lados ele promete arrumar as malas e partir caso o doente não tome vergonha na cara.

Aquilo que não me destrói fortalece-me

— Oi, Rubens, tudo bem contigo, querido?

— Infelizmente não, Lúcia! Minhas costas doem; minha barba está irritando meu rosto; estou com dor de barriga há alguns dias; sem dinheiro e sem trabalho. Tirando esses imprevistos, estou bem, ou pelo menos, vivo.

— Bem… Puxa… É assim mesmo, a vida é cheia de altos e baixos, também tenho os meus problemas.

— Sério?

— Claro! Por exemplo, estou com uma unha encravada neste momento, sei que não parece um grande problema, mas acredite: meu pé está doendo pra caramba, mas estou me esforçando para ignorar a dor.

— Melhor cuidar disso. Uma vez a minha tia Bilica estava com uma unha encravada. Era uma mulher forte e suportava a dor corajosamente, nunca deixando de usar seus belos sapatos por causa da unha. Mas a situação piorou, ela foi ao médico e ele disse que ela teria que arrancar a unha. Ela ignorou a opinião do médico e sua situação agravou-se. Resolveu então procurar outro especialista e obteve um diagnóstico ainda mais macabro: “A senhora terá que amputar o dedão do pé”! Depois de um mês tomando um coquetel de analgésicos para suportar a dor, nossa tia resolveu procurar por uma terceira opinião. Naquele mesmo dia, ela foi à nossa casa e relatou para a família sua última consulta: “Esse novo médico é o mais louco dos três. Disse que o problema deveria ter sido tratado antes e que a única solução no momento é amputar meu pé”. Falou isso e soltou uma gargalhada estridente enquanto nos deixava pensativos sobre sua sanidade. Seis semanas depois, tia Bilica morreu de gangrena. A autópsia constatou que os tecidos do pé estavam completamente necrosados e o problema havia se alastrado por toda a perna.

— Nossa, agora fiquei com medo Rubens, nunca imaginei que uma unha encravada pudesse dar tanto problema!

— Nem eu, até ver tia Bilica deitada no caixão com aquela perna podre.

— Bem, foi bom te encontrar depois de tanto tempo Rubens, espero que você consiga resolver todos os seus problemas. Se precisar de alguma coisa, não deixe de entrar em contato comigo, viu?

Lá se foi Lúcia, praticamente correndo de Rubens. E aquilo o fez refletir: será que ele tinha uma conversa tão chata assim?

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 08/11/08. p.3)

Além da Ilha

O Zé é meu amigo eremita, que mora lá no Morro das Pedras, em uma casa feita por ele mesmo. Não vê TV nem ouve rádio, mas lê vorazmente tudo que lhe cai nas mãos. Ele tem uma esquisitice que nunca consegui entender: apesar de aparentemente bem informado, acredita que o mundo se resume aos poucos lugares por onde ele caminha. Duvida até mesmo da existência do continente e acha que a Ilha de Florianópolis é a única coisa que existe. Se aparece algum estrangeiro ele afirma, irredutível: “Esse aí deve morar do outro lado da Ilha, mas eu não sabia que falavam outra língua por lá”.

Esses dias o Zé passou mal e tive que levá-lo com urgência ao hospital. Enquanto ele fazia uma careta de sofrimento e se agarrava ao banco do passageiro como um caranguejo, eu dirigia como um louco, furando vários sinais fechados no caminho. Como não tínhamos nem um centavo em nossos bolsos, eu precisava encontrar um hospital público para atendê-lo, mas todas as portas pareciam fechadas e só atendiam em caso de risco de morte. “É Zé, você precisa morrer para ser atendido”, arrisquei a piada mórbida quando deixamos o estacionamento do Hospital Universitário à procura de outro hospital. A última opção era o Hospital Regional de São José. Enquanto atravessávamos a ponte, avisei:

– Prepare-se, Zé, você vai finalmente conhecer o continente.

– Mentira! – ele ainda conseguiu grunhir incrédulo por baixo do seu sofrimento, antes de desmaiar.

Preocupado, corri o máximo que pude rumo ao hospital. Naquele estado, ele finalmente foi atendido com urgência no Regional de São José. Aplicaram um bom analgésico nele e trataram de fazer exames para avaliar sua condição. Descobriram que era cálculo renal e receitaram uns remédios, caso as dores retornassem. Levei-o para casa, ainda sob efeito dos remédios. Agora era fazer mais alguns exames e consultar um especialista. Já estávamos chegando novamente ao Morro das Pedras quando o Zé se recobrou. Olhou para mim satisfeito e falou:

– Rapaz, eu passei muito mal mesmo, teve uma hora que parecia que eu tava morrendo, a Ilha tava ficando pra trás e a gente tava sobrevoando o mar rumo ao infinito.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 16/8/08. p.3)

A cura pela internet

Os médicos não gostam muito da internet, pois muitos clientes chegam ao consultório armados até os dentes com informações das mais variadas, pesquisadas antes da consulta, com o diagnóstico preciso para discutir com o doutor, que olha pra eles desconfiado e amaldiçoa a rede mundial de computadores.

Adamastor foi consultar o oftalmologista devido a um pequeno calombo no olho. Apresentou-se ao médico e foi expondo o seu problema:

— Dr. Fulvio, suspeito ter um ordéolo na pálpebra, um tipo de nódulo de poucos milímetros causado pela inflamação de uma das glândulas sebáceas que produzem a lágrima.

O médico abandonou a expressão inicial de calma e sabedoria e perguntou um pouco irritado:

— Como você sabe disso, já estudou medicina?

— Não senhor, mas dei uma boa pesquisada na internet e encontrei um artigo ilustrado que parecia exatamente com o meu problema.

Dr. Fulvio riu com desdém, balançou a cabeça e falou que era por isso que não gostava da internet, pois os pacientes tinham a mania de procurar respostas para os seus problemas e costumavam se automedicar sem consultar um profissional da área. Teimoso, Adamastor discordou, afirmando que o papel do médico era insubstituível, mas que não havia mal em pesquisar um pouco e tirar algumas dúvidas.

Depois de dois meses de tratamento, aplicando um colírio especial e compressas quentes a cada meia hora, o problema persistiu e a pálpebra de Adamastor continuou com aquela protuberância incômoda que parecia crescer quando ele ficava de mau humor. Então, o médico afirmou que o melhor seria uma pequena cirurgia para extirpar o mal de uma vez por todas. O paciente tremeu na cadeira, enquanto pensava na fria lâmina deslizando sobre sua pálpebra. Perguntou se não havia outra saída e o médico respondeu negativamente. Chegando em casa ele foi pesquisar na internet, ainda não convencido da opinião do médico. Por fim, resolveu consultar outro especialista.

No dia da primeira consulta, o Dr. Lobato preenchia a ficha de Adamastor enquanto ele esperava à sua frente. Encorajado pela demora do médico, ele resolveu sugerir:

— Já tentei as compressas quentes e um colírio especial, creio que a melhor saída agora será a aplicação de um corticosteróide subcutâneo no local.

O Dr. Lobato olhou intrigado para ele, sem saber o que responder.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 5/7/08. p.3)

Epiléptico

Acabei de ler o segundo volume do Epiléptico, obra do francês David B. Epiléptico é a autobiografia do autor, que nasceu com o nome Pierre-François Beauchard. Na verdade é a biografia do seu irmão mais velho, vítima da epilepsia, que acabou envolvendo toda a família em uma busca incansável pela cura da doença. Sincero, violento, cruel e terno, Epiléptico é uma obra quadrinística-literária de uma densidade pouco encontrada (pelos que não conhecem a fundo esta forma de arte) no universo dos quadrinhos. David B. é um dos fundadores da L’Association, editora criada por um grupo de quadrinistas franceses alternativos na década de 90 na França. Na Escola de Artes Aplicadas de Duperré, em Paris, no final dos anos 70s, David foi aluno de Georges Pichard, um dos criadores de Blanche Épiphanie, publicado no Brasil pela editora Abril em 1990. Pichard não ensina quadrinhos em seu curso, mas incentiva e aconselha David no intervalo das aulas de publicidade. Assim, ele encontra uma linguagem para contar a sua história, a história do seu irmão, da sua família, tão intrinsecamente conectada, à procura de uma cura e uma explicação para a doença do seu irmão. A busca passa pela medicina tradicional, pela macrobiótica, alquimia, espiritismo e todas as possibilidades tradicionais ou esotéricas, envolvendo sempre toda a família. A autobiografia de B. é populada por monstros, espíritos, guerreiros ferozes e figuras mitológicas. Uma mistura intrincada de simbologias nascida da aflição de uma família na busca pela cura da doença de um de seus membros. Uma obra de primeira grandeza que recomendo a todos, amantes dos quadrinhos e os que acham que a nona arte é coisa de criança, Disney e Turma da Mônica. Os dois volumes da obra podem ser adquiridos em português, com um ótimo acabamento, diretamente no site da Editora Conrad, com um atraente desconto, neste endereço.

Formato: 21 x 27 cm
Plano da obra: 2 volumes
ISBN: 978-85-7616-279-7