Febre da desova

Com um pouco de espanto contido ele deparou-se com a febre da desova. A febre da desova pode ser percebida quando o fígado diz com veemência, depois de uma bela noitada: “aprume-se e ponha-se a caminho de casa”! Claro, isso depois de muita insistência e choradeira. Nesse momento a febre da desova já apresenta seus primeiros efeitos colaterais: boca seca e perda do intelecto. O indivíduo acredita ser possuidor de teorias mirabolantes que podem mudar completamente o sentido de toda a realidade. Algumas pessoas acreditam que a febre desperta certas capacidades adormecidas no cérebro humano, como a telepatia e o tele transporte. Mas a maioria dos afetados pela febre acaba confundindo delay com tele transporte. Junto com a febre da desova vem o consumo indiscriminado de álcool e alimentos com alto teor de gordura. Até hoje não se sabe se isso é resultado de efeitos colaterais psicológicos ou químicos. O fígado clama por paz e sossego afinal. Com poucas chances de viver bombardeado por todos os lados ele promete arrumar as malas e partir caso o doente não tome vergonha na cara.

Todos os nomes

A memória é algo fantástico. Conseguimos armazenar uma infinidade de informações. Nomes de pessoas, objetos, endereços, telefones, cálculos matemáticos, dados históricos e tantas outras informações importantes para a nossa comunicação. Quando esquecemos o nome de algum objeto, dá até pra descrever as suas características e comparar com outras coisas, para tentar lembrar o que é. O problema surge quando esquecemos o nome de uma pessoa conhecida, enquanto conversamos com ela. Em ocasiões sociais, uso a seguinte artimanha: se estou falando com alguém do qual não me lembro o nome e minha companheira chega ao meu lado, uso como argumento a antipatia pelas convenções sociais, e falo:

— Ah, odeio essa coisa de ficar apresentando as pessoas, prefiro que vocês mesmos se apresentem.

E assim, quando funciona como o planejado, consigo ouvir o nome da pessoa e não preciso passar pela constrangedora situação de parecer um insensível.

Certa vez liguei para um colega, com quem eu esperava trabalhar em um projeto. Conversamos durante alguns minutos ao telefone e quando fui me despedir, tive um lapso de memória e simplesmente esqueci seu nome. Se eu fosse esperto, poderia simplesmente dizer: “falou, um abraço, a gente se fala”. Mas, como sou muito sincero e querendo ser simpático, falei:

— Esqueci seu nome, como é mesmo que você se chama?

Ele ficou quieto do outro lado da linha durante alguns instantes, provavelmente surpreso, e depois falou:

— Você está brincando comigo, não é mesmo?

Era tarde demais para arrumar, para dizer que era brincadeira. Por isso, fui além. Não satisfeito de ter estragado a conversa, eu piorei ainda mais:

— Não, é sério, esqueci seu nome, deu branco mesmo, mas vou adivinhar, espera aí! Me ajuda aí, vai, qual a primeira letra do seu nome, dá uma dica.

E é claro, ele achou aquilo uma falta de educação. A maioria das pessoas tem grande apreço pelos seus nomes. E, além de esquecer como ele se chamava, eu parecia estar zombando ao tentar burramente ser simpático. Não lembro do restante da conversa, nem se consegui lembrar o nome dele. Aquela foi a última vez em que nos falamos.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 18/10/08. p.3)

Como comportar-se no ônibus

A previsão é que logo será quase impossível andar de automóvel em Florianópolis, e o transporte coletivo se tornará a saída mais imediata, já que não temos metrô ou outras saídas mais futuristas, como o teletransporte. Por isso convém passar aos marinheiros de primeira viagem estas breves dicas sobre este magnífico veículo.

Das informações – O cobrador, também conhecido como trocador, não deve ser repetidamente incomodado com perguntas como: “que horas o ônibus sai?”; “ele passa em tal lugar?”; “quanto é a passagem?”. Para isso temos o quadro de horários; o itinerário do ônibus e o valor da passagem, que geralmente está estampada em um quadro bem atrás do cobrador.

Do monopólio das janelas – O ônibus, também chamado de coletivo, deve ser tratado como tal. A janela que está logo acima da sua poltrona não é apenas sua, por isso não é correto fechá-la ou abri-la, dependendo do seu frio ou calor. Consulte antes os seus vizinhos de poltrona e os que estiverem em pé.

Da higiene pessoal – A sua higiene pessoal diz respeito apenas a você mesmo, a não ser quando começa a incomodar quem está ao seu lado. Principalmente no inverno, com todas as janelas fechadas, o coletivo é uma mistura de cheiros e perfumes dos seus ocupantes. Entre os animais, os predadores encontram as suas presas através do seu cheiro. Entre os humanos, existem momentos específicos para utilizar o cheiro como elemento da caçada e nem sempre o ônibus é o melhor local para isso.

Do equilíbrio – Aquelas barras de ferro no interior do ônibus servem para os passageiros se segurarem e não para reforçar a estrutura do mesmo. O veículo arranca, acelera e freia durante todo o trajeto. A melhor coisa a fazer, quando você estiver em pé, é segurar firme em uma destas barras, para se proteger e também evitar cair no colo de outra pessoa quando o ônibus fizer alguma manobra brusca.

Dos locais de parada – Diferente de um táxi, que pára onde você quiser, o ônibus de linha normal tem locais específicos para recolher e deixar os passageiros. Por isso não fique indignado se ele não abrir uma exceção para você. Todos têm pressa, todos querem chegar na hora e todos querem atenção especial.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 28/6/08. p.3)