Do Atlântico ao Pacífico de bicicleta

No dia 28 de novembro de 1998, junto com os amigos Rodrigo Guedes e George Ferreira, eu saía pedalando em uma aventura rumo à região litorânea do Chile, do outro lado do continente sul-americano. Percorremos 3.000 quilômetros naquelas quatro semanas maravilhosas, conhecendo pessoas e lugares com a ajuda das nossas bicicletas. Desde então, almejo fazer uma aventura similar, mas os compromissos nunca me permitiram. O antigo site da aventura (um dos primeiros sites que fiz, por isso mesmo antiquado, assim como o texto) continua no ar, pra quem quiser conferir. Dez anos passam rápido, mas aqueles dias continuam tão claros em minha memória como se fosse ontem.

Caminhos compartilhados

A espécie humana pode locomover-se, grosso modo, com a ajuda de quatro dispositivos pessoais terrestres: automóveis, motocicletas, bicicletas e pés. Estas quatro categorias não costumam se relacionar muito bem e podem trabalhar pela extinção uma da outra.

O mais frágil de todos são os pés, seguidos das bicicletas e das motocicletas. Em acidentes envolvendo grupos diferentes, os pés costumam ser apontados como um dos principais culpados, apesar de estarem restritos a trechos muito menores para se locomover, em comparação com os automóveis e motocicletas. Os automóveis são dispositivos pesados envolvidos por uma couraça metálica que os protege em caso de colisões com algum dos outros três dispositivos. O problema é quando os automóveis colidem entre si, ou quando encontram pela frente uma barreira mais sólida do que eles, como objetos de concreto, árvores ou então outro dispositivo robusto como um caminhão.

Em alguns locais do planeta as bicicletas ainda são praticamente ignoradas e relegadas a raros caminhos por onde podem circular suas rodas emborrachadas e não poluentes. Seus predadores naturais, assim como os pés, são os automóveis. Este fato poderia indicar uma união natural entre estas duas categorias mais frágeis, mas não é o que acontece. Apesar de viverem em aparente paz, bicicletas e pés costumam amaldiçoar-se quando ocorre algum encontrão entre os dois e não se unem para melhorar suas situações.

Motocicletas e automóveis também não costumam sorrir alegremente um para o outro em nossas ruas movimentadas. Os primeiros reclamam da folga dos segundos, que trafegam entre os automóveis. Por outro lado os automóveis também não respeitam as motocicletas, achando que elas estão ocupando espaço demais à sua frente, quando andam corretamente. Estes dois dispositivos motorizados e bebedores de combustíveis fósseis também costumam ignorar as faixas de segurança, caminho natural dos pés, que são vilões quando ignoram estas faixas e não são respeitados quando reivindicam o seu direito natural de utilizá-las.

E assim, os humanos se locomovem sobre seus pés ou suas rodas, esperando que o outro não corte a sua frente e seu caminho seja respeitado e, sobretudo, que possam obedecer seus horários.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 9/8/08. p.3)

Delírios ecológicos

Vi algo que me chamou a atenção. Eu aproveitava o dia frio, mas ensolarado para voltar caminhando do meu almoço, comendo minha gelatina de framboesa com canjica. Parei no semáforo, em cima da primeira lista branca da faixa de segurança, quando vi aquele jovem ciclista, ziguezagueando pelo meio dos carros. Nada de novo até aqui, você concordará. No entanto, à medida que o jovem na bicicleta ia se aproximando, eu percebia alguma incongruência no movimento do veículo a pedal. O mesmo parecia estar desmontando, entortando, ou algo assim. Você sabe como nossa mente trabalha rápido, mesmo sem percebermos. Sabe também que a mente, mesmo aquela parte dela que faz esses cálculos e associações rápidas, pode ser contaminada pelo nosso entendimento e conhecimento da realidade? Pois bem, naquele microssegundo, naquela fagulha de tempo eu pude jurar – esta é a melhor forma de colocar em palavras meus sentimentos e decisões daquele instante – pude jurar que a bicicleta estava desmontando em pleno movimento. Houve também outra explicação rápida transitando em minha mente, algo que nem tenho mais certeza se pensei naquele momento, ou se estou criando agora. Concluí que o sol, combinado com alguma substância que havia acabado de almoçar, me proporcionaram a capacidade de ver a matéria sólida em movimento se decompor na frente dos meus olhos. No entanto, depois que o rapaz passou por mim pude perceber que era uma bicicleta flexível. Acompanhei incrédulo enquanto o sorridente ciclista fazia suas manobras, desaparecendo na próxima esquina, com sua bike que torcia em todas as direções. Quando cheguei em casa fui direto para a Internet pesquisar sobre aquela bicicleta. Em plena semana do meio ambiente, nada melhor do que uma bicicleta flexível para andar através desse nosso trânsito caótico e ruas sem ciclovias. Mas, depois de horas procurando não encontrei nada a respeito daquele veículo formidável. Agora estou convencido de que foi um delírio e que a bicicleta flexível não passa de um desejo por mudanças na forma como nos transportamos, dentro dos cockpits solitários dos nossos automóveis, vidros fechados e escapamentos a todo vapor.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 7/6/08. p.3)