O Trípede

Por volta de 1890 o senhor Johanssen, voltando para casa depois de uma jogatina, avistou um trípede entre as ovelhas em uma pastagem iluminada pelo luar. Incerto se a visão era fruto da cerveja escura ou do tabaco mofado que o velho Hermann o obrigou a fumar, Johanssen se armou com um pedaço de pau que tinha a seus pés e corajosamente perseguiu a criatura enquanto as ovelhas (que bem poderiam ser patagônicas) assobiavam e faziam apostas sobre quem venceria a disputa. Neste momento Lutia sacudiu o marido na cama para ver o que era aquela gritaria lá fora e ele respondeu com um resmungo. No dia seguinte encontraram Johanssen inconsciente na beira de um riacho. Uma das pernas lhe faltava.

Lei Seca

Todos estão apavorados com a lei seca. Alguns bares já estão até pagando motoristas que levam clientes para casa. Noutro dia, no meio da tarde, um amigo resolveu beber uma cervejinha no boteco e acabou se livrando do bafômetro por uma simples confusão.

Depois de beber alguns copos a mais ele resolveu ir para casa, mas ficou desesperado quando percebeu que seu carro havia desaparecido da frente do bar. Perguntou nervoso ao dono do bar se ele não havia percebido nada de estranho e o homem respondeu negativamente. Então meu amigo ligou para a polícia e deu queixa do roubo do carro. Já conformado com a situação, ele foi embora a pé e só então lembrou que havia deixado o carro estacionado em outra rua.

Aliviado, abriu o carro e foi verificar se estava tudo em ordem. No momento em que girou a ignição, duas viaturas policiais chegaram com as sirenes ligadas e pediram para que ele saísse do carro com as mãos para cima. Ele saiu satisfeito e dando os parabéns aos policiais: “vocês são muito eficientes, mas não se preocupem, o carro é meu”. Os policiais se entreolharam e não entenderam o seu comportamento. Pediram os seus documentos. Enquanto vasculhava os bolsos à procura da sua carteira, ele voltou a informar que o carro era seu, que havia sido um engano, que o carro não havia sido roubado. Por fim, informou que esqueceu os documentos em casa, mas que morava perto e poderia buscá-los. Um dos policiais o acompanhou no carro, enquanto as viaturas o seguiam. Dentro do veículo ele falou ao policial que havia bebido, e se esta ocorrência não seria um problema com a nova lei. Mas o policial o tranqüilizou, já que eles estavam atendendo um chamado de roubo, e não de embriaguez.

Tudo confirmado, documentos em ordem e ele liberado. Depois desse susto, com certeza ele vai pensar duas vezes antes de sair de carro para beber, ou então, no mínimo, vai tomar um bom remédio para a memória.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 19/7/08. p.3)