Mimetismo

[Do gr. Mimetós, ‘imitado’, + -ismo.] S. m. Fenômeno que consiste em tomarem diversos animais a cor e configuração dos objetos em cujo meio vivem, ou de outros animais de grupos diferentes. Ocorre no camaleão, em borboletas etc.

Resolvi tomar aulas de mimetismo esta semana. Um professor de uma cidade eslovaca apareceu por aqui oferecendo um curso de algumas semanas. Um curso de mimetismo. Estava com vontade de fazer um cursinho diferente. Pensei em culinária, mas definitivamente, sou da geração microondas. Miojo e macarrão chinês instantâneo em potinho de isopor. “1 – complete com água; 2 – coloque no microondas por 2 min; 3 – Espere esfriar antes de degustar.” Prático, rápido e fulminante. Ultimamente tenho até usado aqueles pauzinhos para comer a gororoba chinesa instantânea. No início era uma tortura, meus dedos doíam, tinha vontade de jogar os pauzinhos longe e devorar tudo usando as mãos mesmo. Já me acostumei, apesar de ainda babar um pouco.

Estou gostando muito das aulas de mimetismo, difícil é todo dia ter que achar o professor. Na primeira aula uma aluna sentou nele pensando que fosse uma das cadeiras. Na hora em que resolveu colar um chiclete embaixo da cadeira sentiu algo peludo. “Ai! Tira a mão daí, menina!” Ela saiu correndo e berrando porta afora. Jogou um processo em cima dele por assédio sexual. Para a sorte do professor, o advogado dela ainda não conseguiu encontrá-lo para entregar a intimação!

Sinto que estou progredindo cada vez mais. Ontem me mimetizei tão bem que nem eu mesmo consegui me achar. Tive que berrar para minha irmã me ajudar, Ela veio correndo do quarto dela até o meu, ofegante: “qui foi, qui foi?” Expliquei a situação, na noite passada eu havia pegado no sono tentando criar a obra-prima do mimetismo, naquele momento não conseguia me lembrar mais no que havia me mimetizado. Ela procurou a manhã inteira, eu já estava morrendo de fome, sem saber o que fazer: “tá esquentando, tá esquentando, ih, esfriou”. Então pude ouvi-la sussurrando: “talvez com a luminária acessa eu consiga vasculhar melhor o ambiente”. Dei um berro de pavor antes que ela conectasse meus dedos do pé na tomada pensando que fosse o plug. Foi por pouco, quase que eu virava churrasquinho. Fiquei traumatizou com esta experiência, não sei se vou continuar com as aulas de mimetismo. Peguei o jornal de hoje e encontrei nos classificados um curso mais seguro pra fazer: “Aprenda a hibernar pelo resto do novo milênio em cinco lições práticas” Quem sabe, quem sabe…

(publicado na Revista Poté Nº6, EduFSC, 2000. p.24)

Seu animal

Quanto ao seu animal, algo me preocupa nele. Quando aceitei a tarefa de tratá-lo em sua ausência, não sabia exatamente o que precisava ser feito. “É apenas um animal”, pensei enquanto tomávamos o café de despedida e você instruía-me sobre como proceder. Lembro que quando você o trouxe ele parecia muito assustado e logo foi se esconder na despensa. Então, como sempre, fiquei perdido em meus próprios pensamentos enquanto você apontava o saco de ração e dizia algo que já nem sei mais o que era. Ah, caro amigo, nunca aprendi a ouvir as pessoas, sou um canalha, um egoísta. Fico entediado com tudo e com todos e espero o máximo de atenção destas mesmas pessoas que ignoro. Então eu balançava a cabeça e concordava com tudo o que você me falava, mastigando pães e bolachas e bebendo chá. Nem me dei ao trabalho de perguntar para onde você viajaria e quando voltaria. Quer dizer, perguntei sim, e você respondeu. Confesso agora que perguntei por educação, perguntei para mostrar interesse e para parecer um sujeito normal. Lembro que fingi estar feliz com sua viagem, seria de trem, se não me engano. Na porta, enquanto nos abraçávamos, você me passava as últimas recomendações a respeito do seu animal. Você levantou o dedo, gesticulou e balançou a cabeça de um lado para o outro.

A primeira noite foi horrível, o animal chorava sem parar e não me deixou dormir. Fiquei com muita raiva. Fui até a despensa e berrei com ele, que por um instante ficou em silêncio. Voltei para o meu quarto, e quando estava voltando a cochilar, o animal retornou com as lamúrias. Saltei da cama com raiva. Não conseguia ver nada dentro da despensa, pois a lâmpada estava queimada e não tenho lanterna. O choro do animal era insuportável. Eu já havia colocado potes com água e comida na porta da despensa mas ele continuava. De qualquer forma, mesmo com o choro, consegui dormir naquela noite.

Na manhã seguinte descobri que a água e a comida estavam intactas, como eu havia deixado na outra noite. Durante todo o dia não ouvi um único sinal de vida do animal. Aquilo me alegrou mais do que preocupou. Eu tinha muito o que ler durante o dia e não suportaria aquele choro infernal. Veja, adoro animais, mas deveria ter confessado antes para você que odeio tratá-los ou ouvir seus ruídos. Assim, era cômodo para mim o silêncio da criatura.

Três dias se passaram e eu esqueci completamente que tinha um hóspede na despensa. Durante esse tempo ele não mais me incomodou, não mais me lembrou de sua existência. Na quarta à noite, enquanto estava na cama lendo um conto de Cortázar, lembrei-me do animal e meu coração deu um pulo. Corri para a despensa, e na porta, vi que a água e a comida continuavam intocadas. O que havia acontecido com o desgraçado? Eu estava transtornado e enraivecido por ter aceitado a tarefa. Agora, na escuridão, eu não poderia fazer nada. Resolvi voltar para cama, onde não consegui continuar minha leitura de forma alguma. O sono demorou muito para chegar.

Entrei na despensa com um velho lampião de querosene, nas paredes, nos varais e nas laranjeiras, várias teias de aranha brilhavam e refletiam a luz do fogo. Teias vazias de suas donas. Avistei um quadrado de vidro um pouco mais à frente, como um grande aquário, estava habitado por várias aranhas. Como em uma arena elas se atacavam e se devoravam. Em um canto do “viveiro” um recém nascido balançava os minúsculos braços com um sorriso estampado na cara sem olhos. Aranhas entravam pelas suas narinas em uma ordenada fila indiana, como formigas operárias. Enquanto isso outras aranhas pareciam enrolar o pequeno corpo do bebê em suas teias. Aquilo me interessava muito e eu ficaria ali por horas vendo as aranhas devorarem o pequeno humano, mas precisava continuar minha procura.

Sentei em uma pedra e então finalmente vi o animal a uma certa distância, bebendo água em um riacho. Parecia estar recoberto com algo. O lampião não iluminava o suficiente. Cheguei mais perto dele, que parecia não se incomodar com minha presença, e então percebi que estava recoberto com sangue, talvez seu próprio sangue, que escapava de vários pequenos ferimentos pelo corpo. Precisava agora levá-lo dali, tratar seus ferimentos e dar-lhe comida e abrigo. Quando fui tentar pegá-lo no colo ele atacou e quase dilacerou minha mão, não fosse eu chutá-lo com força. A raiva então tomou conta de mim e mesmo com a mão arrebentada e sangrando eu resolvi ir a desforra. Peguei uma pedra e acertei-lhe o crânio. O animal caiu e começou a chorar, aquele mesmo choro que eu já conhecia. Não satisfeito eu bati sucessivas vezes com a pedra em sua cabeça, até que ele silenciasse completamente e eu conseguisse ver seus miolos! Sentei a seu lado e comecei a chorar, de pena, de raiva pela sua traição. Os animais não deveriam trair, apenas os homens. Levantei-me, peguei o lampião e fiz o caminho de volta, quando passei pelo viveiro de aranhas o bebê já estava completamente enrolado pela teia e se contorcia como uma larva. logo as aranhas iriam digeri-lo, sugar seus líquidos vitais. Passei pelas laranjeiras e pelos varais. Minha mão latejava muito, mas eu me recusava a olhá-la.

O retorno dos pés

pés

Ele olhou para os pés descalços, ainda havia uma pequena chance. Poderia escalar a pilha de caixas de alho e depois de um breve mortal, iniciar a retomada da cidadela, a cidadela adormecida ao pé do morro dos homens de pescoços torcidos, como no sonho. Homens com cabeça de meio peixe. Depois de um pouco de leitura sobre a geopolítica ele dominaria todos os caminhos, cada nuance, para poder chegar até seu destino. Lembraria com calma de construir seus personagens tanto planos como também esféricos, mas que não morressem subitamente como os criados pelo senhor Foster. Poderia realmente deixar sua marca para que as gerações seguintes o venerassem como são venerados os grandes conquistadores? Ele ficou lá sentado por vinte anos, olhando para a cidadela, tentando decidir seu destino, depois se levantou e resolveu dormir, para retomar a tarefa no dia seguinte, quando teria mais umas duas décadas ao seu dispor. Um de seus pés se movimentava com fúria, o outro insistia em permanecer ali grudado ao solo, como se tivesse criado raízes invisíveis, brotadas por baixo da sola deste seu pé teimoso. Dedilhava com facilidade e pensava nos amigos próximos, como se sua realidade não fosse mais expansível do que esses meros níveis. Precisava ser mais compreensível com a humanidade, precisava ouvir pessoas novas, com novas idéias e começar a selecionar seu novo círculo de relacionamentos, como em uma grande bola de neve, sem ter as mãos presas. Mas os homens de pescoço torcido estariam vigiando a noite inteira, como caranguejos de patas lisas, com seu exoesqueleto rosado, suas cabeças de lagarto gordo. E ele estava fora de controle, havia bebido muito aiuasca misturada com hipnóticos farmacológicos. Sentou-se, o pé ainda imóvel, crente de que a terra o englobaria mais uma vez. Poderia ser como Paul Rabbit, tinha esta certeza, não fossem as vespas assassinas insistirem em chamá-lo, em coro, durante toda a madrugada. Aquele livrinho de física quântica, com desenhos bonitinhos, dado a ele pelo amigo barrigudo, seria um bom início para a nova revolução cultural, nada nos moldes da época de Mao, por Júpiter! Ele precisava de um bom banho de ácido, longe dos tubérculos que agora se enrolavam em sua perna. Entraria em seu guarda roupas, pegaria seu novo traje de lodo e iria ler um pouco do mestre Moore, com aquela barba enorme, mas conhecedor de alucinógenos inimagináveis, e também do tantrismo. Mestre Moore, que tanto o ensinou nos últimos dias e que tanto ainda o ensinará. Seu pé já dava sinais de afrouxamento, bastava falar um pouco sobre as realidades, mesmo que pastosas como manteiga, como dedilhadores eunucos ou pedaladores de bicicletas na chuva. Estas construções, esta vontade de fugir de si mesmo, de abandonar o próprio corpo e olhá-lo de fora ou mesmo de virá-lo do avesso, como em um experimento, ou de cortar todos os seus laços com o mundo exterior, seria o mais inumano que ele poderia fazer consigo mesmo, vigiando os homens com cabeça de peixe lá embaixo, sem vontade de escalar o amontoado de caixas de alho. A culpa era daquela criatura atrás de uma mesa, sentado com suas orelhas salientes, em um quarto escuro e pensando em abandonar a si mesmo. Plano, demasiadamente plano. Como poderia torná-lo real, de carne e osso?

Mas não é para a ficção bater à porta de madrugada, com frio e toda ensopada, pedindo abrigo e comida, soluçando coisas sem sentido. Matéria-prima dela mesma, se reconstruindo a cada segundo, congelada em um tempo-espaço completamente particular. O material de que somos construídos não passa de algumas dezenas de substâncias essenciais a nossa existência. Organicamente falando somos apenas uma coleção dessas substâncias. Mas não entendo o suficiente de química e biologia para poder explicar aos caros senhores, que agora me rodeiam nesta sala escura, para explicar aos senhores que não tenho as respostas que procuram, e não adianta entreolharem-se e cochicharem entre si, praguejarem sobre minha escolha estilística ou meu corte de cabelo. Como podem ver, o pé continua enraizado, entranhado neste solo movediço que os senhores chamam de arena, mesmo que ainda não tenham soltado o leão para me devorar. Os senhores me conhecem bem? Poderiam dar um testemunho de meu trabalho, de meus esforços para combater o exército de homens com cabeças de peixes, vestido nesta pele de homem com pés descalços?

Em meu escritório, com paletó e gravata, sentado à mesa de trabalho, relembro a reação daqueles imundos enquanto entrevisto seriamente este nobre rapaz que está à minha frente e insiste que eu leia seu currículo, que deposito com cuidado na lata de lixo, com toda a calma do mundo para que ele veja a mensagem nos meus olhos: para entrar na empresa ele precisará passar por alguns testes, alguns que criei para dificultar um pouco a vida de jovens novatos como ele. Digo a ele que hoje já dormi demais, já enfrentei dragões demais e agora busco apenas um pouco de sossego. Não deixo que ele perceba que meu pé está preso embaixo da mesa, como se estivesse colado no carpet. Apenas este pequeno detalhe para que eu não me esqueça de minha condição, de minha missão. O rapaz titubeia nas respostas e cai ferido aos meus pés. Tento a manobra de ressuscitamento cardio-pulmonar por alguns minutos, mas não tenho sucesso. Pego o desfibrilador e aplico milhares de volts em sua cabeça, mas também não consigo resultado. Subo a plataforma até os céus, onde os raios da tempestade poderão trazer novamente a vida à carne antes inerte. A turba continua tentando derrubar as portas de meu castelo e então eu fujo para baixo da terra, onde estarei à beira do Poço de Lazarus rodeado pelos morlocks, minha única saída, caso eu conseguisse mover meu pé direito, que de repente se solta e me faz sapatear como louco e juntos nós damos a volta ao mundo, dançando e cativando todos por onde passamos. Décadas e mais décadas de apresentações de sucesso, sempre bebendo e fumando além da conta, até que todos os meus órgãos internos não aceitam mais aquele tratamento imundo e me jogam para a rua, para o esgoto que é meu lugar, que desemboca no oceano quentinho. Flutuamos juntos por mais algumas décadas, sempre olhando para o sol e as estrelas, que correm tão rápido no céu, e nem ao menos torram ou congelam minha carcaça. Pego todas as correntes marítimas possíveis e depois de tantos milênios, nem sei mais como me comportar corretamente em uma ocasião social. Se eu escalar a pilha de caixas, não poderei ver com clareza a chaminé da minha casinha de campo. Não poderei cozinhar ou me banhar em paz.

Na praia, fui acordado pelas lambidas na cara de um cão com dois rabos. Quando um dos rabos abanava o cão estava feliz, quando nenhum dos rabos abanava o cão tinha fome, mas quando os dois rabos abanavam, uma catástrofe ocorria. Era meu cão e apenas eu sabia de sua capacidade, não é verdade Rex? Lembra de quando comeu meus dois amigos, depois que se mataram mutuamente naquela noite da autópsia? Rex abana os dois rabos em resposta e eu sinto uma pontada em meu coração, chega minha hora. Deito em seu colo e peço desculpas por tê-lo abandonado durante todos estes anos. Você me perdoa Rex? Poderia me contar uma estória para que eu possa dormir em paz?

Uma foto, dois links e uma ilustração

Ah, escrever em um blog regularmente é uma destas acrobacias difíceis. Os milhares de leitores ávidos pelas suas imagens e palavras, incomodando você dia e noite, clamando por novidades através do e-mail, telefone, FAX e até mesmo telegrama e tele mensagens, scraps e mensagens de texto no celular (que não tenho). Portanto, aí vai uma foto de minha autoria, lá do meu Flickr, dois ótimos links e uma ilustração do livro English Book Illustration, by Philip James, ilustrando um limerick de Edward Lear. Boa diversão e saibam que amo vocês (uma lágrima de emoção escorre do meu olho esquerdo).

lagarta na cenoura

Puddleblog é o blog de uma poça d´água situada em New York. Faça chuva ou faça sol, a poça está sempre lá.

Tripas é um dos blogs parentes do Bruxismo e nas palavras do próprio autor “pretende falar sobre as tripas da trindade (em floripa), aquilo que corre e ocorre dentro do abdômen do bairro, ocultas, barulhentas, sólidas ou líquidas.”

grasshopper

There was an Old Person in Black, a Grasshopper jumped on his back;
When it chirped in his ear, he was smitten with fear,
that helpless Old Person in Black.
Edward Lear (1812-1888) More Nonsense. 1872

A lesma

uma pequena lesmaAchei uma pequena lesma que parecia estar meio fraca, castigada pelo sol. Peguei e levei-a para meu apartamento, no terceiro andar. Chegando lá resolvi hidratá-la. Acabei deixando a coitada cair em uma panela de lentilha salgada que havia na mesa. Pobrezinha, todos sabem que lesmas odeiam sal. Levei-a para o chuveiro a fim de lavá-la e ela escorregou pelo ralo. Arranquei a tampa e consegui resgatá-la novamente. No entanto seu corpo se movimentava com dificuldade, com espasmos involuntários, resultados prováveis da quantidade de produtos químicos que fica depositada no sifão. Peguei-a e coloquei em cima do murinho de minha sacada. Pobrezinha, novamente eu a estava maltratando. O mármore que cobre o muro de minha sacada estava quente e ela começou a se contorcer. Pude perceber seu sofrimento. Então peguei água para jogar no mármore a fim de esfriá-lo. Foi o que fiz, mas ao jogar a água o seu fluxo acabou levando o animalzinho pela pequena correnteza e ele caiu lá embaixo, na pedra brita quente em frente à entrada do meu prédio. Desci correndo as escadas já pensando no pior. Chegando lá comecei a rastrear as pedras a sua procura. Olhei para cima e imaginei: “Se havia vento quando ela caiu, ela deve estar por aqui. Se não havia ela deve estar bem na reta da minha sacada”. O zelador do condomínio estava perambulando por ali e quis saber o que eu procurava. Tive que mentir: “Sou biólogo e estava fazendo umas experiências com uma lesma, ela acabou escapando e caiu pela minha janela. Como as experiências já estavam em um estágio avançado eu gostaria de achá-la ao invés de repetir todo o processo desde o começo com outra lesma”. Acabei de falar isso e vi a pobrezinha fritando em cima de umas pedras. Não sabia se ainda haveria tempo. Peguei-a e corri para uma torneira próxima, ela pareceu reagir mas notei que seu pequeno corpo estava todo machucado. Foi nessa hora que encontrei um jornalista que tinha uma jangada e com ela poderíamos dar uma volta no rio perto do cemitério, onde eu poderia soltar a lesma. Ele começou a resmungar umas coisas que não entendi e que não me interessavam, pois estava preocupado mesmo era com a lesma. Várias pessoas perambulavam pelo cemitério neste momento, havia algumas que carregavam eletrodomésticos, tvs e geladeiras nas costas, como um bando de formigas. O jornalista comentou então que poderíamos, por caridade, ajudar uma dessas pobre almas a carregar algo com a jangada. Consenti com a cabeça, mas primeiro precisava resolver algo pendente. Pedi que ele parasse em um ponto onde a correnteza era fraca e a água límpida. Peguei então a lesma que tinha em mãos e mal se movimentava e coloquei na água. No mesmo instante ela pareceu se transformar, ganhar uma nova vida. Sua cor até mudou e ela começou a nadar feliz, movimentando seu rabo e contorcendo o corpo. Em minha vontade cega de salvá-la acabei não percebendo um pequeno pássaro preto e faminto que nadava bem próximo. Talvez a sombra do barco o houvesse escondido. A ave investiu contra a lesma e ela escondeu-se em uma rachadura no leito do rio. O pássaro mergulhou seu bico na rachadura. Mergulhei a mão e puxei-o pelas penas, mas ele parecia não se preocupar com minha presença. Insisti e consegui tirá-lo para fora dágua, mas em seu bico estava a lesma, pega pelo rabo. Com um rápido movimento eu tentei arrancá-la do seu bico, mas a ave foi mais rápida e engoliu-o completamente. Fiquei com tanta raiva daquele animal que pensei em abrir sua barriga imediatamente, antes que digerisse a lesma. Mas no fim convenci-me de que o ciclo havia se fechado e deixei o animal ir em paz.

Evidências

Um dedoFaz duas horas que estou dando pela falta de algo no meu campo visual, logo acima da calculadora, sobre minha mesa de trabalho. Não consigo dar-me pela coisa. O que era? Não é do meu feitio falar sobre meus objetos perdidos, até mesmo porque isso não ocorre com freqüência, mas esse caso me chama a atenção em especial, porque tenho uma anotação referente a ele em meu bloco: “Vingom braxólkcu k fndiu”, apenas isso. Como sei que essa anotação se refere à coisa perdida e não sei o que é a coisa perdida? A resposta me parece óbvia. Organizo minha mesa de trabalho de forma metódica, avaliando a milimétrica distância entre os objetos. Às vezes, quando tenho algo sobre a mesa que merece algum comentário, eu o faço no bloco de notas que fica sempre no extremo superior esquerdo da mesa. Lembro-me que o objeto perdido foi o último colocado sobre ela, recebendo uma descrição no bloco. É horrível perder algo e procurá-lo freneticamente. Pior ainda é procurar sem saber se tem ou não importância. Torna-se perturbador quando vejo essa anotação em uma língua que nem ao menos conheço. Anotação essa feita pelo meu próprio punho. Mas a verdadeira razão pela qual escrevo este testemunho não é o objeto perdido, o incidente foi apenas um catalisador para que eu folhasse o bloco de anotações e verificasse que havia um pequeno inseto esmagado entre as folhas quadradas. Um pequeno inseto de asas transparentes, talvez assassinado. Desde já me isento de crime preterdoloso, mesmo porque não tinha a mínima idéia de que havia um cadáver na mesa. Algo me diz que alguém desovou o cadáver em minha ausência. Para provar essa tese terei que fazer uma necropsia ainda essa noite, e se não for muito exigente de minha parte chamarei duas testemunhas que assinarão o documento por mim redigido quando chegar à causa mortis da criatura. Batizei o morto de Vingom, rindo-me por batizar um morto. Chamei Ramus, um engenheiro civil, e Lobato, prefeito aposentado, para serem as testemunhas. Servi um modesto jantar antes da necropsia para deixar mais à vontade os convidados. No meio da janta, Ramus e Lobato começaram a lembrar nosso tempo de criança, quando brincávamos e pululávamos pela rua, sem compromisso com nada nem com ninguém. “E a Ana Maria, lembra dela? Aquela coisinha fofa.” Lobato olhou-o um pouco nervoso: “Ei, olha o que vai falar, Ramus, não esqueça que hoje ela é minha mulher!” “É verdade, quem diria, depois de passar pela mão do pessoal todo da rua ela foi virar sua mulher, o mundo dá voltas mesmo, e as vagabundas sempre encontram quem as sustente!” Lobato pulou por cima da mesa e agarrou o pescoço de Ramus, fazendo-o esganiçar palavras ininteligíveis enquanto caíam os dois no chão. De súbito, Ramus sacou uma pistola que tinha presa em um suporte na perna direita e desferiu um tiro na cabeça de seu algoz. Pedaços da cabeça de Lobato voaram por toda a sala, vindos do buraco feito pela bala. Espantei-me com a potência daquela pistola, que abrira um rombo na cabeça de meu amigo. Mal tive tempo de me recuperar, quando vi um novo esguicho de sangue e miolos provenientes da cabeça de Ramus, que desferia um tiro em sua própria boca. Vejam, a vida dá voltas. Eu estava desgraçado agora. Meus amigos, meus dois únicos amigos no mundo haviam me traído! No momento em que eu mais precisava deles para serem testemunhas de minha inocência no “Caso Vingom” eles me deixam, e como se não bastasse sujam toda a sala de jantar, que eu havia forrado com um papel de parede italiano lindo. Para quem eu mandaria a conta? Por mais amigos que eles me foram em vida eu nunca poderia deixar passar uma afronta desse tipo. Lembrei então do Rex, fazia um semana que eu não lhe dava comida, castigo por ter mijado no sofá vermelho da varanda. Chamei-o para uma limpeza rápida na sala de jantar enquanto punha em prática meus planos: a necropsia.

Relatório de Necropsia:
1. Quanto aos métodos adotados: O presente relatório não está atrelado a regras de qualquer tipo, tendo em vista que o necropsiador em questão não é profissional.
2. Quanto à descrição da criatura conhecida como Vingom: A criatura em estudo apresenta o corpo dividido em cefalotórax e abdome, com seis pares de apêndices representados pelas quelíceras, palpos e quatro pares de patas, e desprovido de antenas. Através da análise chegou-se à conclusão de que é um artrópode, do sub-ramo Bizarriforme.
3. Quanto à causa mortis: Descobriu-se que o ser Vingom possuía uma inflamação intersticial crônica no fígado, além disso a associação de lesões dos hepatócitos, desenvolvimento excessivo de tecido conjuntivo e formação de nódulos de regeneração caracterizam uma possível cirrose hepática. O quadro avançado da doença não deixa dúvidas de que Vingom foi derrotado pelo fígado.

Também não foi assassinato, mas de qualquer forma teimo em dizer que alguém colocou o Vingom em meu bloco, até mesmo porque debilitado como ele estava, nunca poderia ter se escondido ali. Chegando à sala, qual não foi minha surpresa ao ver Rex sorrindo de pança cheia! Ele não só comeu todos os miolos e lambeu todo o sangue de Ramus e Lobato que havia nas paredes, mas, além disso, comeu seus corpos, com osso e tudo. No chão apenas um dedo anular com uma aliança de casamento. A princípio achei que Rex queria fazer uma chacota comigo, deixando o dedo de meu amigo, depois me lembrei de um tratamento de canal que havia feito em meu cão anos atrás. O dentista preencheu a “panela” que tinha no seu molar cariado com um amálgama que provocava choques em Rex cada vez que ele mordia algo de metal. Diferença de potencial! Foi a única coisa que o dentista disse antes de Rex mostrar-lhe a força de sua mordida. Peguei o dedo de Lobato e o corpo do Vingom, coloquei-os em uma caixa de fósforos, embrulhei com papel verde e colei com fita adesiva transparente. Agora, sentado em minha velha poltrona de couro cru de vaca holandesa eu recordo as últimas horas, o quão monótonas foram. No fundo tive um saldo positivo, pois Rex fez todo o trabalho pesado por mim, e eu pude aprender um pouco mais sobre a fisiologia dos artrópodes. Mas algumas coisas ainda continuam sem solução: “Quem colocou o corpo do Vingom entre as folhas de meu bloco de anotações quadrado? Onde coloco a caixa de fósforos embrulhada com papel verde? E o que diabos eu perdi da minha mesa que não recordo mais?”