Manual de sobrevivência do lusitanense

Os ataques que vem ocorrendo aos tamanduás bandeira de nova lusitânia têm assustado os canais de comunicação alimentados por essa mesma classe. Por isso resolvemos publicar uma série de conselhos aos bons linguarudos, como são chamados esses tamanduás de fino trato. Não vamos enumerar as dicas para não chamar a atenção do inimigo que não consegue manter a concentração por muito tempo e por isso é facilmente controlado. Vamos assobiar dissimuladamente, olhar para o lado e iniciar nossa série de conselhos fundamentais para a sobrevivência. Em primeiro lugar vamos lembrar que o inimigo, guiado pelo instinto, atacará quando os nobres componentes de nossa abastada sociedade estiverem ocupados se alimentando, copulando, excretando ou dormindo. Por isso convêm manter um vigia armado até os dentes nesses momentos. Provavelmente esse vigia será da mesma classe social que o inimigo, mas sobre isso trataremos em relatório futuro e longínquo. O que importa é sua obediência. Você deve convidar esse guerreiro para fumar um cigarro de formiga esporadicamente, conversar sobre o clima, mostrar preocupação com a saúde dele. Dessa forma não será raro ouvi-lo comentando com outro de sua mesma tribo, com sorriso aéreo: “O Sr Nelson é um verdadeiro linguarudo!”. Quando você atingir esse ponto estará seguro. Esse homúnculo provavelmente irá se sacrificar pelo “Sr Nelson e família”. Vá além e dê um presentinho de natal ao seu guerreiro para mantê-lo fiel, como uma boa coleção de unhas roídas ou bagaço de laranja congelado.

Componentes de passagens

Viajei dez anos no passado hoje pela manhã. Foi uma viagem rápida. Quando lá cheguei me encontrei sentado na varanda da casa dos nossos pais, junto com um rapaz dez anos mais novo, que descobri depois, havia viajado dez anos no futuro para a reunião. Os dois estavam me esperando e fui enfático quando disse: “desculpem, mas as coisas não mudaram muito, vocês precisam tentar uma nova abordagem”. Os dois pareciam já saber da notícia e olharam um pouco apáticos por sobre meu ombro. Quando olhei para trás me encontrei mais velho, olhando para nós. O fantasma ou simulacro e as três figuras do idêntico em relação à diferença, pensei enquanto ouvia o eco da música Cristóbal, de Devendra Banhart: “No te vayas si te vas”. Os três olhavam para mim, como se eu tivesse a solução para nosso problema. Então comecei meu monólogo: “nada é mais exemplar do que a expansão, a ampliação do espaço geográfico e relaxamento da guarda. As formas do negativo aparecem nos termos atuais, mas somente como separados da virtualidade e do movimento de sua atualização”. Fui elegantemente interrompido em minha fala pelo mais velho, que sussurrou em meu ouvido: “Não preocupe nossos jovens amigos com essas ultrapassadas masturbações pós-estruturalistas”. E então, dirigindo-se para todos, tirou do bolso uma caixinha de baralhos e falou: “desfaçam já essas caras apáticas e me consigam uma mesa, vou mostrar alguns truques que venho treinando nos últimos anos”.

Viagem vertical

Abriu os olhos e admirou o ventilador de teto que havia instalado na noite anterior, depois de ler cuidadosamente o manual. Ficou tão exausto com o serviço que acabou dormindo na sala. Enquanto bocejava, um automóvel deixou sua cozinha vagarosamente para não chamar a atenção e acelerou em seguida, arrebentando a porta da frente e ganhando a estrada. Pulou do sofá e saiu correndo atrás daquele automóvel insolente. Abriu as asas e pegou vôo, mas o veículo continuou ganhando distância e conseguiu envolvê-lo em uma nuvem de poeira que só se dissipou a tempo de evitar que ele se estilhaçasse contra uma floresta de enormes edifícios, tão próximos que mal podia bater suas asas entre eles e precisou fazer acrobacias. Não conseguiu desviar de um dos edifícios e passou por uma janela aberta, caindo em uma emboscada. Com dardos tranquilizantes, um grupo de vinte caçadores tentava capturá-lo. Com agilidade conseguiu penetrar na selva e despistá-los. Lá embaixo admirou uma manada de gnus, provavelmente alheios a sua presença. Sentia um forte cheiro de atum e então mergulhou pelo penhasco abaixo em queda livre, sempre de olho no mar, até que pousou na areia da praia, que o envolveu, tragando seu corpo e o jogando no meio de um movimentado calçadão, com uma pasta de executivo na mão, terno e gravata, óculos escuros. Olhou para o relógio, estava vinte minutos atrasado.

Dissimulado como um escargot

Ainda estou aguardando aqueles protetores auriculares que você me prometeu em nosso último encontro. O trabalho dos mineiros nessa região, com suas britadeiras e bananas de dinamite, produz uma poluição sonora tão ensurdecedora que mal consigo me concentrar enquanto lhe escrevo. Pensamentos e emoções conflitantes: é assim que posso definir a estadia nesse acampamento. Fiquei amargo como um adolescente; misantropo como um velho com uma doença terminal e descrente como um covarde. Agora a pouco quase travei contato com um desses mineiros. Ele estava alegre, até sorridente, você pode imaginar? Quase venci o orgulho para lhe oferecer um cigarro mentolado, mas então lembrei que poderia causar uma bela explosão com os vazamentos de gás nesta área. Então preferi uma abordagem mais conservadora e já estava repassando mentalmente as minhas falas quando o homem foi atingido por uma rocha imensa que desmontou o seu sorriso e cancelou sua respiração em uma fração de segundos. Se eu tivesse estendido o braço para oferecer-lhe o cigarro teria ficado maneta. Livrei-o então do peso de suas botas que confortavelmente calço enquanto lhe escrevo. Mas não tema, nunca desconfiarão de mim, farei a barba e emagrecerei durante a noite.

Tão necessariamente fora de propósito

Como vem ocorrendo nos últimos dias, quando acordo, é como se estivesse sofrendo novamente a dor do nascimento. Tenho dificuldade para respirar, minha cabeça dói, a vida é uma droga, não entendo como poderei suportar o peso do meu corpo apenas com o uso de duas pernas e ainda assim acho que terei que treiná-las para que tenham músculos mais fortes, caso contrário cairei ao chão como um edifício com os alicerces fracos. E as coisas não poderiam ficar piores: por baixo da porta de entrada do apartamento, uma legião de formigas se desloca para minha cozinha. Pequenas, mas ágeis e pude contar algumas centenas, que se movimentam como autômatos, como mini-robôs teleguiados, provavelmente equipados com sofisticados sensores visuais que enviam para a base central as imagens do meu apartamento. Para não levantar suspeitas, um grupo delas já faz o caminho de volta com grãos de arroz retirados da minha cozinha. Se forem restos da minha mastigação, eles poderão estar interessados em investigar as minhas enzimas bucais e nem gosto de pensar que tipo de informação conseguirão a meu respeito. Minha respiração fica ainda mais ofegante enquanto me preparo para ligar o lança-chamas.

Lugares que nunca visitei

Estava no ônibus lotado e não conseguia deixar de ouvir conversas ao redor, sem ver seus autores. Ouvi um homem sussurrar: “provavelmente teremos que extrair” ao que seu colega respondeu: “não há necessidade de avisarmos o supervisor”. Atrás de mim, uma mulher falava: “qual a distância, por que você não me chamou?” e alguém respondia, com uma voz chorosa: “não houve tempo, as luzes estavam se apagando, você sempre ridiculariza nosso método”. Mais ao fundo, com esforço, ouvi isso: “você tem certeza da inclinação, conferiu no manual?” e eu tinha certeza que uma voz respondia, do outro lado do ônibus: “quietos, ele está nos ouvindo”. Aquilo me atingiu em cheio, não poderiam estar falando de mim, mas não consegui evitar o nervosismo. Silêncio durante longos minutos, até que ouvi alguém falar: “ele está perto da saída”. Comecei a suar frio, não havia escapatória. Meu ponto de parada estava chegando e eu me arrastava entre passageiros de pé, que dificultavam minha passagem. Gritei desesperado: “a morte se esconde nos relógios” enquanto consegui me desvencilhar e pular para a porta de saída.

A cidade quando acorda

Em 1665, na Antuérpia, em uma ruela imunda e infestada de ratos, acordava aquele que seria um dos maiores revolucionários da história. Vejam que nesta noite ele dormiu na rua, mas não porque lhe falta um teto, longe disso. Poderíamos dizer que ele dormiu na rua para poder observar melhor o céu, em um de seus experimentos, mas a verdade é que na noite passada Jan Ortélius teve um desses momentos de revelação que mudaram para sempre o curso das coisas. Sentado em um boteco com seus amigos o nosso homem foi acometido pela seguinte questão: se o fluxo temporal realmente segue apenas em um sentido, o que ocorre quando ele esquece de nos convidar a embarcar em sua viagem? Bastaria dormir fora de seu lugar habitual? Correr para uma ruela quando ele não estivesse olhando? Se Jan não estivesse tão mergulhado em velhos paradigmas, perceberia que o estamos observando neste momento, através de um pequeno buraco de fechadura, rindo de sua teoria. Nosso erro foi pensar que estávamos sozinhos.

Playing with the pieces

Textos são feitos de pedaços da realidade do autor ou um simulacro da mesma, das suas leituras, da sua interpretação e observação do mundo, dos seus medos, traumas e certezas. Temos à nossa disposição as ideias de um crescente número de pessoas e o acesso a essas informações é muito mais popularizado, não está mais apenas nas mãos de um grupo privilegiado de indivíduos como era no passado. No entanto, nós nos tornamos reféns da mass media, do marketing e da propaganda. O que vemos também é determinado pelo que ouvimos. Não somos completamente livres para ler ou escrever o que quisermos. Como um vírus, a linguagem nos obriga a construir a realidade de uma forma específica. Precisamos seguir e obedecer as regras, não podemos transgredir o sistema. Por outro lado, podemos utilizar a voz de múltiplos indivíduos, desconstruir seus discursos e recombinar as peças, quebrando as regras e produzindo novos resultados.

Possíveis combinações

Cada palavra em um texto é uma voz em nossa história, até chegar ao texto presente e o ciclo se repete cada vez que esta palavra é utilizada novamente, simultaneamente. Por mais hiperbólico que seja, quando lemos um texto, estamos lendo a compilação de todos os escritos da humanidade, desde que o homem inventou a escrita. Nós estamos ouvindo as vozes multiplicadas, com um som de fundo diferente em cada palavra, que sofreu transformações com o passar dos anos, desde que foi criada. É como se estivéssemos entoando um mantra milenar, adicionando nossa própria voz ao conjunto e cada vez que lemos essa palavra específica, nós não a estamos lendo apenas neste instante, nós estamos dando continuidade a sua existência, preservando e recuperando seu passado e adicionando um novo significado neste momento, quando a pronunciamos novamente.

Memórias

Meus amigos conhecem meu comportamento, sabem que prezo pela verdade dos fatos, minha visão, meu ponto de vista. Sabem que meu encantamento pela anatomia da existência, pelo farfalhar das folhas e pela comunicação entre os insetos é mais do que um hobby pueril, um passatempo para adolecentes. Enquanto escrevo este relato posso sentir os efeitos do oxigênio que respirei há poucos instantes e que deve chegar ao ápice do seu efeito em vinte ou trinta minutos. Até lá a minha percepção poderá se alterar e algum detalhe do meu relato poderá ficar irremediavelmente deturpado. É uma anestesia contínua, diária, que devora minha vontade há anos. Felizmente escrevo isso de um ponto futuro, amarro os fatos, combino as palavras, me esmero na capacidade de reabilitação.