Desconstrução

Sandro e Alicia moraram cinco anos em um espaçoso apartamento alugado na Trindade, em Florianópolis. Era antigo; cheio de infiltrações; cupins no chão forrado de tacos de madeira, mas era um apartamento aconchegante. Um dia, um pedaço de reboco do teto caiu na cabeça de Sandro, pouco antes deles receberem a notícia de que teriam que sair do apartamento, pois o proprietário queria vender o imóvel. Mas, como mandam as regras, eles tinham o direito de fazer a primeira proposta, que foi automaticamente recusada, por não alcançar a metade do valor absurdo que a imobiliária estava pedindo. O casal ficou indignado e Sandro queria desforra.

Tinham três meses para procurar outro apartamento e nesse meio tempo, como ocorre nessas situações, os possíveis compradores poderiam entrar para ver o imóvel, mesmo com eles ainda lá estabelecidos. Eles consideraram um atentado mercantilista aos seus cinco anos de privacidade em um imóvel que já tinha a cara deles.

Antes da primeira visita, Sandro pegou todo o pó dos cupins que havia varrido e espalhou com cuidado por pontos estratégicos, depois o pedaço de reboco que havia caído do teto e por fim uma pilha de livros arruinada pelas goteiras.

Quando a cliente chegou, acompanhada do agente da imobiliária, Sandro os atendeu educadamente, ofereceu café e conduziu a visita. Fez questão de explicar tudo para a cliente, que chegou maravilhada, pronta para adquirir o imóvel:

— É um ótimo apartamento, mas veja ali no canto, nos rodapés, a quantidade de cupins que estão devorando completamente o assoalho. Sim, isso ali no chão é o reboco caído, lastimável, foi bem na minha cabeça, veja o calombo. Ah, e essa infiltração, arruinou todos os nossos livros.

O corretor ficou furioso, dava para ver em seus olhos. Mas também sabia que não havia nada a fazer. E a cliente compreendeu o recado, percebeu o péssimo negócio que faria e resolveu procurar outro imóvel.

Depois disso não ocorreram outras visitas de possíveis compradores e o casal pôde curtir os últimos dias do apartamento. Sandro ainda tem numa caixa todo aquele pó de cupim e parte do reboco do teto. São as únicas lembranças que restaram daquele apartamento.

(publicada no Plural do Notícias do Dia, 23/8/08. p.3)

3 comentários sobre “Desconstrução

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *