Antologia premonitória

Hoje encontrei um depósito de cotonetes no bolso esquerdo da minha velha jaqueta de couro. Era de um amigo, mas acabei tomando posse em uma noite, faz quase cinco anos. Enchemos a cara e eu estava de mochila. Lá pelas seis da manhã, enquanto caminhávamos para o posto 24 horas à procura de provisões, me ofereci para levar sua jaqueta. Não foi algo planejado e ele nunca mais falou comigo. Começou sua turnê pelo mundo logo após esse episódio e de tempos em tempos me envia uma carta ou e-mail perguntando pela tal jaqueta. Digo que está bem guardada e esperando por ele em meu armário, mas na verdade torço para que ele não venha pegá-la, pois é de couro legítimo e tem me acompanhado nos finais de semana solitários. Em geral, a luz provoca movimentos de atração na maioria dos animais, como se observa nos insetos que rodeiam uma lâmpada poderosa. No entanto eu não esperava por esse ninho de hastes flexíveis com pontas de algodão no bolso esquerdo. Estava me aprontando para sair quando me deparei com o achado, enquanto vasculhava os bolsos a procura de dinheiro. No momento em que apalpei aqueles objetos higiênicos no bolso da jaqueta, pensei sentir o bafo morno de um texto antigo tentando insinuar-se sobre o testemunho acima, esticando grotescamente seus tentáculos insistentes para que eu conte minha experiência tal qual um conto escrito há mais de dez anos. Sabiamente, recuso-me a colaborar e penso nos cotonetes como uma mandinga feita pelas meninas da lavanderia, que conhecem meu celibato involuntário de solteirão preguiçoso. Sento-me na cama, abro o novo testamento e leio: “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”.

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