A lesma

uma pequena lesmaAchei uma pequena lesma que parecia estar meio fraca, castigada pelo sol. Peguei e levei-a para meu apartamento, no terceiro andar. Chegando lá resolvi hidratá-la. Acabei deixando a coitada cair em uma panela de lentilha salgada que havia na mesa. Pobrezinha, todos sabem que lesmas odeiam sal. Levei-a para o chuveiro a fim de lavá-la e ela escorregou pelo ralo. Arranquei a tampa e consegui resgatá-la novamente. No entanto seu corpo se movimentava com dificuldade, com espasmos involuntários, resultados prováveis da quantidade de produtos químicos que fica depositada no sifão. Peguei-a e coloquei em cima do murinho de minha sacada. Pobrezinha, novamente eu a estava maltratando. O mármore que cobre o muro de minha sacada estava quente e ela começou a se contorcer. Pude perceber seu sofrimento. Então peguei água para jogar no mármore a fim de esfriá-lo. Foi o que fiz, mas ao jogar a água o seu fluxo acabou levando o animalzinho pela pequena correnteza e ele caiu lá embaixo, na pedra brita quente em frente à entrada do meu prédio. Desci correndo as escadas já pensando no pior. Chegando lá comecei a rastrear as pedras a sua procura. Olhei para cima e imaginei: “Se havia vento quando ela caiu, ela deve estar por aqui. Se não havia ela deve estar bem na reta da minha sacada”. O zelador do condomínio estava perambulando por ali e quis saber o que eu procurava. Tive que mentir: “Sou biólogo e estava fazendo umas experiências com uma lesma, ela acabou escapando e caiu pela minha janela. Como as experiências já estavam em um estágio avançado eu gostaria de achá-la ao invés de repetir todo o processo desde o começo com outra lesma”. Acabei de falar isso e vi a pobrezinha fritando em cima de umas pedras. Não sabia se ainda haveria tempo. Peguei-a e corri para uma torneira próxima, ela pareceu reagir mas notei que seu pequeno corpo estava todo machucado. Foi nessa hora que encontrei um jornalista que tinha uma jangada e com ela poderíamos dar uma volta no rio perto do cemitério, onde eu poderia soltar a lesma. Ele começou a resmungar umas coisas que não entendi e que não me interessavam, pois estava preocupado mesmo era com a lesma. Várias pessoas perambulavam pelo cemitério neste momento, havia algumas que carregavam eletrodomésticos, tvs e geladeiras nas costas, como um bando de formigas. O jornalista comentou então que poderíamos, por caridade, ajudar uma dessas pobre almas a carregar algo com a jangada. Consenti com a cabeça, mas primeiro precisava resolver algo pendente. Pedi que ele parasse em um ponto onde a correnteza era fraca e a água límpida. Peguei então a lesma que tinha em mãos e mal se movimentava e coloquei na água. No mesmo instante ela pareceu se transformar, ganhar uma nova vida. Sua cor até mudou e ela começou a nadar feliz, movimentando seu rabo e contorcendo o corpo. Em minha vontade cega de salvá-la acabei não percebendo um pequeno pássaro preto e faminto que nadava bem próximo. Talvez a sombra do barco o houvesse escondido. A ave investiu contra a lesma e ela escondeu-se em uma rachadura no leito do rio. O pássaro mergulhou seu bico na rachadura. Mergulhei a mão e puxei-o pelas penas, mas ele parecia não se preocupar com minha presença. Insisti e consegui tirá-lo para fora dágua, mas em seu bico estava a lesma, pega pelo rabo. Com um rápido movimento eu tentei arrancá-la do seu bico, mas a ave foi mais rápida e engoliu-o completamente. Fiquei com tanta raiva daquele animal que pensei em abrir sua barriga imediatamente, antes que digerisse a lesma. Mas no fim convenci-me de que o ciclo havia se fechado e deixei o animal ir em paz.

3 thoughts on “A lesma

  1. hauahuhauhaah….
    Se eu encontrar uma lesma por ai, a 1ª coisa que faço é correr e pegar um saleiro!!!
    Gostei, ainda mais falando de lesma!!!
    beijos.

  2. É incrível! Como em algum momento de nossa vida dedicamos tamanho cuidado com coisa aparentemente tao insignificantes?…É impossivel descrever a grandeza contida em tais atos.
    Parabens.

  3. Pôxa a sua lesma foi uma heroína.
    Tambem tenho uma lesma de estimação Aleph!
    Eu a trouxe para o terceiro andar já adulta
    e acabei por descobrir muitas coisas sobre
    a vida dela. Fiz muitas fotos da Maria Antonieta
    (assim ele se chamava)e meus amigos a tratavam de Marietinha.Ela morava em casa própria que (levava às costas), no “terreno” do enorme vaso na sacada.Talvez sua lesma
    seja pura ficção mas a minha tem uma biografia verdadeira que está publicada sob o título –
    “Marietinha, minha lesma de estimação”

    Aqui:

    http://www.riototal.com.br/coojornal/

    ou melhor

    http://www.riototal.com.br/coojornal/fatimalaguna-arquivo.htm

    Mais precisamente aqui:

    http://www.riototal.com.br/coojornal/fatimalaguna005.htm

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