A cidade quando acorda

Em 1665, na Antuérpia, em uma ruela imunda e infestada de ratos, acordava aquele que seria um dos maiores revolucionários da história. Vejam que nesta noite ele dormiu na rua, mas não porque lhe falta um teto, longe disso. Poderíamos dizer que ele dormiu na rua para poder observar melhor o céu, em um de seus experimentos, mas a verdade é que na noite passada Jan Ortélius teve um desses momentos de revelação que mudaram para sempre o curso das coisas. Sentado em um boteco com seus amigos o nosso homem foi acometido pela seguinte questão: se o fluxo temporal realmente segue apenas em um sentido, o que ocorre quando ele esquece de nos convidar a embarcar em sua viagem? Bastaria dormir fora de seu lugar habitual? Correr para uma ruela quando ele não estivesse olhando? Se Jan não estivesse tão mergulhado em velhos paradigmas, perceberia que o estamos observando neste momento, através de um pequeno buraco de fechadura, rindo de sua teoria. Nosso erro foi pensar que estávamos sozinhos.

5 comentários sobre “A cidade quando acorda

  1. Cara, que massa! Gostei demais. Veio Kurt Vonnegut na cabeça com o lance temporal (tá, não tenho assim muitas referências, vai que você é um dos que não suportam o cara), veio Borges (naquele buraco de fechadura, me lembrando o “aleph”, uma das piras que mais curti e que mais influenciaram certas idéias-potenciais-gatilhos-de-romances).

    Acho que me empolguei. Releve.

  2. @Arthur: difícil apontar as próprias referências 🙂 mas creio que tem dedo do Borges; um pouco de Cortázar; o Oblivion do David Foster Wallace (especialmente o conto Good Old Neon); as HQs do Grant Morrison e uma conversa com uma amiga que mora na Bélgica pelo Gtalk nesse mesmo dia antes de escrever esse texto.

  3. Cara, agora que vi tua resposta. Na real não tava perguntando sobre as referências (uma vez destrinchei um conto meu, frase por frase, só pra mostrar de onde tirei tudo e provar que não tinha apenas feito uma espécie de diário: não é legal). A citação dos caras foi uma forma meio canhestra de dizer “Gostei demais.” (Mas, peraí: eu escrevi “Gostei demais”. Tá vendo? Odeio a mania de citar autores famosos pra corroborar opiniões, como se a nossa não bastasse.) =

    Comprei o Breves entrevistas com homens hediondos do Wallace, que parece ser bem legal. TENHO que ler. Vou ver se esse Oblivion tá por lá.

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